terça-feira, 31 de outubro de 2017

A "grande fome" na Ucrânia (Holodomor): um dos maiores mitos do século XX

marcha neonazista na Ucrânia, foto de 2016
Os aparelhos ideológicos e intelectuais da burguesia estão em trabalho frenético para nos 100 anos da Revolução Russa difamar como podem a primeira experiência de poder operário consolidada da história - não sem contribuição fundamental, como sempre, de setores expressivos da esquerda. Um dos maiores mitos, isto é, uma construção historiográfica sem qualquer base factual e referencial em pesquisa histórica séria, mas que se sustenta de acordo com sua função política-ideológica na luta de classes, é a da grande fome ucraniana ou Holodomor. É afirmado que o Estado soviético através de uma política de fome planejada operou o extermínio de 6 ou 10 milhões (o número depende do grau de anticomunismo do autor) de ucranianos numa quadro de opressão nacional. Evidentemente, esse suposto episódio serve para equiparar o socialismo soviético com o nazismo: os ucranianos teriam sido o equivalente aos judeus no Holocausto e como “mito fundador” dos grupos neonazistas atualmente no poder na Ucrânia. Vejamos com breves comentários como esse mito não tem qualquer base factual.


- Os documentos secretos da alta administração e dos serviços de inteligência dos EUA, França, Inglaterra e Itália já estão disponíveis há anos para consulta e pesquisa. Nenhum desses país, nos seus documentos da época, retrata uma política de fome provocada em escala industrial tendo como resultado o extermínio de milhões. Nenhum! Na época do alegado auge da fome, ou seja, em 1932-1933, existia uma grande guerra pelo poder no seio do PCUS (Partido Comunista da URSS) e ninguém da oposição ao grupo majoritário, Leon Trotski há frente, fala de qualquer genocídio na Ucrânia. Os grandes jornais burgueses da época, como The Economist, também não citam esse suposto episódio. Também não existe fotos e registros desse "extermínio em massa" - Robert Conquest, historiador ligado a CIA e um dos grandes defensores da existência do "Holodomor", não apresenta qualquer prova material desse suposto massacre. Será esse episódio o primeiro da história da humanidade onde supostamente uma grande máquina industrial de genocídio em massa foi montado sem que ninguém - inclusive os serviços secretos dos países mais poderosos do mundo! - tenha tomado conhecimento (compare, por exemplo, com o número de provas que temos da existência do Holocausto).


- Entre 1931-32 houve sim uma redução da oferta de alimentos com aumento da fome, mas não uma escalada industrial de fome matando milhões. As duas principais razões que explicam essa redução de alimentos são de ordem econômica-climática e sociopolítica. A URSS, no período 1930-33, ainda não tinha operado sua industrialização, desenvolvimento tecnológico e se recuperado totalmente dos estragos da Primeira Guerra Mundial e da Guerra Civil. Os eventos naturais acabavam tendo um impacto muito maior. Tivemos em 1932 uma seca catastrófica que reduziu e muito a produtividade das colheitas e havia um intenso e forte conflito político entre o Estado soviético e os camponeses ricos em luta contra a coletivização da agricultura; nesse confronto, como forma de resistência, muitos camponeses ricos queimavam colheitas e matavam animais, o que reduziu a oferta de alimentos. A questão, contudo, é que essa fome não atingiu especialmente a Ucrânia, mas foi algo de todo território soviético, e no segundo semestre de 1933, como mostra qualquer pesquisa básica, a colheita teve alta produtividade e os efeitos mais noviços da fome já tinham sido contornados. Basta estudar a história da agricultura soviética para ver que na época (1933) que os anticomunistas dizem que milhões estavam morrendo por fome tínhamos uma das melhores colheitas da história soviética depois da Primeira Guerra – qualquer pesquisa demográfica básica também mostraram um crescimento populacional soviético nos anos 30. Como se imagina um crescimento populacional com a suposta morte de 6, 10 ou 20 milhões de pessoas?


- Os “nacionalistas” ucranianos e os historiadores anticomunistas que defendem a existência do “Holodomor” como símbolo de “resistência nacional” gostam de esconder que o grande promotor da suposta existência de uma opressão nacional soviética sobre a Ucrânia nos anos 30 foi a Alemanha Nazista. Devido a posição estratégica de Kiev, seus recursos naturais e a fertilidade de sua terra, era central para o Reich em seus planos de guerra conquistar essa região. Para isso o nazismo buscou criar uma associação com os “nacionalistas” visando combater o socialismo soviético. É notório a colaboração dos grupos independentistas ucranianos com os nazistas. Nos anos 60 em diante, com foco maior nos anos 90, a lenda da opressão nacional contra a Ucrânia ganhou cada vez mais peso, ocultando, é claro, as origens nazistas da difusão desse mito histórico – hoje os liberais e conservadores de toda ordem com ajuda não desprezível de setores da esquerda continuam o “trabalho” dos nazistas.


- No Brasil, como vivo dizendo, o melhor da historiografia soviética simplesmente não chega – e é curioso que quanto maior é nossa ignorância da história soviética mais organizações e militantes gostam de colocar-se como entendedores dessa realidade. Os trabalhos dos especialistas em história soviética R.W. Davies e S. Wheatcroft simplesmente não são traduzidos para o português e não causam qualquer repercussão nas universidades brasileiras. O mesmo pode ser dito das pesquisas da historiadora francesa Annie Lacroix-Riz. Esses três historiadores citados, em suas pesquisas, derrubam os mitos em torno de um suposto “Holodomor”. O único trabalho bom que conheço traduzido para o português que mostra a completa falsidade da história do “Holodomor” é o livro do Domenico Losurdo “Stálin – uma história crítica de uma lenda negra”. No meio da ignorância e da preguiça o anticomunismo prospera fácil – inclusive, nessa “nova historiografia” sobre a União Soviética, a questão da fome nos anos 30 é produto de grande controvérsia e debates muito ricos, porém, esses debates também não chegam ao Brasil.  


- Por fim, mas não menos importante, é interessante mostrar como os historiadores que falam em “grande fome ucraniana” fazem seus cálculos do número de mortos. O francês Alain Blum defende que o “Holodomor” provocou 6 milhões de mortes. Como ele chega a esse cálculo? A URSS só realizou sensos gerais em todas as repúblicas em 1926 e 1939. A partir disso o sujeito compara o resultado do senso de 1926 e 1939 para a região da Ucrânia e o “déficit demográfico” é considerado automaticamente como o correspondente ao número de mortos. Blum desconsiderou, é claro, questões básicas como a gigantesca migração ocasionadas pelo crescimento das cidades e a industrialização acelerada. Para se ter uma ideia da lógica do procedimento. É como eu comparar o crescimento demográfico de São Paulo e do interior de Pernambuco entre os anos 50 e 60. Pelas migrações e a própria dinâmica de vários fatores (como menor mortalidade infantil em SP) a população cresceu mais em SP que no interior de PE; aí eu pego os números de “déficit demográfico” de PE em relação a SP e transformo sem qualquer prova em número de mortes. Preciso falar o quanto esse tipo de procedimento não é sério?


Por tudo isso, reafirmo: o “Holodomor” é um dos maiores mitos historiográficos do século XX sem qualquer base factual e seus defensores não consegue articular os critérios básicos de uma pesquisa histórica séria.


Ao seu publicado no Facebook, esse texto gerou intensa polêmica e um rico debate com várias contribuições. Quem quiser conferir o debate está aqui: https://www.facebook.com/jones.makaveli/posts/1361305447311143?notif_id=1509315931737917&notif_t=like



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A organização leninista e a Revolução Brasileira: apontamentos contra um senso comum

protesto do KKE
Recentemente, assisti todos os vídeos do seminário da Boitempo sobre os 100 anos da Revolução Russa. Nos vídeos, alguns bons e outros horríveis, um dos elementos bastante presente, foi a crítica a concepção leninista de partido. Adjetivos como “ultrapassado”, “mecânico”, “superado” etc. foram muito evocados nessas críticas. No mais das vezes, a concepção leninista de partido era resumido à questão do centralismo-democrático – sempre dito como essencialmente autoritário. Em nenhuma das “críticas” foi minimamente debatido algo central: o que é a concepção leninista de partido que se pretende superada?

Nos próximos meses, se o tempo não me faltar, pretendo escrever uma série de reflexões sobre a questão organizativa e a luta política nas condições concretas da realidade brasileira. Como uma espécie de introdução, e uma exposição mais geral de algumas ideias, buscarei nessas linhas mostrar, ainda que basicamente, o que é a concepção leninista de partido e porque ela é atual como forma-organizativa do operador político da Revolução Brasileira. Esse texto, como uma introdução geral e na forma de ensaio, não recorrerá a referências, citações e confrontações com outros autores; isso será feito nos próximos escritos. Tomem essas linhas como um início de um debate mais amplo.

Ano passado, no acampamento de formação política da UJC, tive a responsabilidade de falar sobre a estratégia socialista defendida pelo PCB. Nas perguntas um camarada me questionou se a concepção leninista de partido, formulada nas condições específicas e históricas da Rússia, era atual para o Brasil de 2016. A minha resposta assim se delineou.

Primeiro, o partido político em Lênin é um produto histórico, organizativo e político de uma compreensão da dinâmica da sociedade capitalista em cada realidade nacional – sem nunca perder de vista o processo mundial de acumulação capitalista – visando a conquista do poder. Logo, a primeira coisa a ser dita, é que antes de escrever sobre a teoria do partido, Lênin analisou o capitalismo russo (seu famoso livro “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia) e as condições da luta de classe naquela situação histórica. Ao compreender a dinâmica das classes em luta em seus aspectos econômicos, políticos, sociais, culturais e organizativos, é que a forma-partido expressa no clássico “Que Fazer?” foi materializada. O pressuposto de toda reflexão é que essa forma-partido tem como objetivo último, estratégico, tomar o poder político para realizar a transição socialista. O partido não substitui a classe, ele é a classe (isso não significa, em absoluto, unipartidarismo, o plural aqui pode ser usado sem problemas) em sua ação revolucionária.

Analisar concretamente a situação política e formar uma organização que consiga dentro dessa situação concreta atuar como operador político revolucionário dos explorados e oprimidos. Em poucas palavras, essa é a concepção leninista de partido! Não é preciso dizer que essa “definição” opera numa altíssimo nível de abstração e que a concretização das formas organizativas, em cada realidade e momento histórico, é variada, mas, ao mesmo tempo, há elementos de universalidade na obra de Lênin que se mantém atuais até hoje e enquanto existir capitalismo, assim vão se manter. Nesse ponto, me parece, é necessário uma explicação teórico-metodológica melhor.

Marx, ao escrever o Capital, procurou apreender a dinâmica da sociedade capitalista. O fundador do materialismo-histórico não analisou o capitalismo inglês, mas tomou essa formação social como concreção histórica da universalidade da acumulação capitalista. A partir de O Capital temos uma crítica da economia política que desnuda os meandros da lógica do capital. Contudo, só com a obra de Marx não é possível, por exemplo, compreender em sua riqueza de determinações a acumulação capitalista na América Latina. É necessário percorrer um nível de abstração menor saturando de determinações o objetivo de estudo até reconstruir o concreto como um todo pensado. Em poucas palavras: só com Marx não se entende a América Latina, mas sem ele muito menos. Nesse sentido, a Teoria Marxista da Dependência, é a crítica da economia política da acumulação capitalista dependente que não nega O Capital de Marx, mas, é a continuidade da análise em níveis de abstração menor dentro de um processo de concretização histórica maior.

Voltando à concepção leninista de partido. A despeito da gigantesca variedade de dinâmicas de classe, correlação de forças, formas-políticas e processos organizativos das classes em luta, há na reflexão leninista sobre o partido elementos de universalidades sempre atuais, mas essas universalidades, ao tomar a forma organizativa particular, isto é, concreção histórica, não são engessadas ou mecânicas. Vamos começar com os exemplos que, a partir da ilustração, as ideias devem ficar de mais fácil compreensão.

Um dos elementos de universalidade da concepção leninista de Partido é que a institucionalidade burguesa, a despeito de seu nível maior ou menor de democratização, tem como essência a conservação da ordem burguesa. O Estado burguês e seu sistema político são sempre a materialização das relações de produção dominantes. Isso significa que o partido que busca se constituir enquanto operador político revolucionário não deve ser nunca um gestor da ordem burguesa, mas ser o instrumento de destruição dessas estruturas de poder buscando a criação do poder popular ou Estado proletário. Como isso se expressará em cada conjuntura? Tal questão não é um dado a priori. Se o partido revolucionário irá ou não participar das eleições, que peso jogará, sua prioridade de atuação tática será o legislativo ou o executivo etc. é uma questão de conjuntura política e não de estratégia. O que é estratégico, e universal, é que o Partido revolucionário, para ser revolucionário, não será um gestor da ordem, mas seu antagonista por essência – Lênin, no seu clássico “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, explicou de maneira suficientemente clara, que o partido revolucionário não nega por princípio a atuação parlamentar, mas nega ser um partido parlamentar.

Não ser um partido da ordem, isto é, atuar no sistema político não sendo orgânico ao sistema político, pressupõe a organização revolucionária desenvolver a capacidade de atuar dentro e fora da institucionalidade. Como latino-americanos, me parece, não é preciso lembrar o quanto na história do movimento operário as nossas organizações foram perseguidas e postas na ilegalidade nos momentos mais acirrados da luta de classe. Quebrar os limites da legalidade ou avançar no Estado de Exceção dentro da legalidade é um princípio básico da ação burguesa em momentos de acirramento de classe confirmado por todas as experiências históricas até hoje conhecidas. Garantir, portanto, essa dupla capacidade, atuação legal e ilegal, é outro elemento de universalidade da concepção leninista de organização.

A organização revolucionária, para garantir não ser um gestor da ordem e conseguir atuar mesmo estando marginal ou fora da legalidade, precisa garantir sua independência de classe nos aspectos organizativos: finanças, comunicação, estrutura etc. Ou seja, a organização revolucionária não pode depender financeira e organizativamente do Estado e muito menos da classe dominante. É um partido onde seu funcionamento orgânico é garantido por sua militância através de meios que historicamente são muito variados. O partido revolucionário pode receber financiamento do fundo partidário, por exemplo, mas esse fundo nunca, sob hipótese alguma, pode ser seu núcleo de estruturação. A questão, nesse aspecto, é bem clara: a independência política exige um correlato (para ser real) organizativo. Quem paga a banda escolhe a música – a organização que depende do Estado burguês ou de “doações” privadas nunca poderá operar uma real política proletária.

Garantir a independência de classe em seus aspectos materiais impõe um nível de profissionalização altíssimo da atividade política. Não é possível, por exemplo, nas condições do Brasil, um país continental, manter um partido de âmbito nacional funcionando com “ativistas” – pessoas que tomam a ação política como uma dimensão secundária ou complementar de suas vidas. O partido revolucionário, para funcionar como tal, exige militantes profissionais e semiprofissionais. O revolucionário profissional é uma exigência universal da prática política revolucionária. Qual será a forma de profissionalização? Em que ramos de atuação? Qual a forma de seleção e controle da atuação dos militantes profissionais? Essas questões, como já disse em outro exemplo, dependem de situações históricas específicas e assumem as mais diversas formas organizativas, contudo, a forma, não muda o conteúdo: a profissionalização de revolucionários é uma necessidade intransponível.

Esse partido revolucionário negador da ordem com capacidade de atuar legal e ilegalmente sempre em busca de sua independência de classe e profissionalização da atuação política, precisa, para ser um operador político nacional, atuar como um sujeito coletivo, um estado-maior do proletariado. Sem negar as especificidades regionais, para o processo revolucionário, é necessário que o partido (aqui, de novo, o plural pode ser usado sem problemas!) consiga congregar todas as particularidades num programa político revolucionário que vai ser a expressão do universal: desde o trabalhador precarizado do centro de São Paulo, até o ambulante de Recife e o trabalhador agrícola do Rio Grande do Sul, todos, sem nunca esquecer as mediações, vão atuar e defender o mesmo programa (sem falar das categorias sociais oprimidas, como as LGBTs). Em suma, sem unidade na ação, especialmente nos momentos de acirramento da luta de classes, é impossível a revolução.

Historicamente, a forma de garantir a unidade na ação, a constituição de um sujeito político coletivo e coeso, foi a forma do centralismo-democrático. Nesse ponto, o cuidado com as caricaturas deve ser bem maior. A nossa memória histórica esqueceu que a forma do centralismo-democrático é infinitamente mais variada que se imagina. O centralismo no PCUS nunca foi o mesmo que no Partido Comunista Cubano, no Partido Comunista Chinês ou no Partido do Trabalho da Coreia. Aliás, o Partido Comunista Italiano, o PCI, no auge do eurocomunismo e sua consequente negação do leninismo, manteve o centralismo-democrático!

Outro ponto importante, qualquer conhecedor mínimo do movimento comunista sabe que a concepção de centralismo-democrático do Partido Comunista Grego (KKE), Partido Comunista Sírio e do Partido Comunista Brasileiro não é a mesma, por exemplo. Só o reducionismo anticomunista pode tratar o centralismo-democrático como “tudo a mesma coisa”. O objetivo da atuação coesa e unitária na ação pode ser conseguida fora da estrutura do centralismo-democrático a despeito da própria variedade de formas desse último? Nunca neguei que sim! A questão, e indo direto ao ponto, é que até hoje a única forma eficiente encontrada para essa tarefa é o centralismo-democrático – o que não impede de daqui há algum tempo encontrarmos outra.

Para se contrapor aos aparelhos ideológicos da burguesia, afinal, a classe que detém o poder material controla o poder espiritual [cultural], a organização revolucionária deve manter um robusto aparato de agitação e propaganda do seu programa político. Esse aparato de agitação e propaganda é o que vai viabilizar que em cada luta particular, imediata, limitada, o ponto de vista geral, revolucionário, seja colocado, garantindo que a prática política será pedagógica no avanço da consciência de classe. Ou seja, o partido revolucionário é o formulador e divulgador do projeto revolucionário e o vetor de propagação de uma nova cultura, negando os valores e a ideologia dominante. A comunicação é um ponto nodal, crítico, no partido revolucionário: ela precisa garantir capacidade de agitação e propaganda para e com a classe e ao mesmo tempo garantir o funcionamento orgânico de todas as instâncias do partido, desde as bases nos rincões mais afastados do país até o comitê central.

Como garantir, por exemplo, uma atuação ilegal sem uma eficiente comunicação externa e interna? E como garantir essa comunicação sem revolucionários que se especializem nisso e capacidade financeira própria para montar essa aparato de agitação, propaganda e comunicação? No sistema político burguês, por mais democrático que seja, a contestação aberta da ordem, isto é, o debate sobre o programa revolucionário, nunca será feito! Cabe ao partido, em sua atuação concreta, criar as condições materiais para tornar esse debate – sempre em condições históricas particulares – um movimento de massa.

Podemos resumir tudo que falamos na seguinte questão: o Estado burguês, a despeito de sua múltipla variabilidade institucional, é um instrumento de conservação da ordem; a burguesia, nos processos de luta de classe, nunca abrirá mão de quebrar a legalidade ou potencializar a repressão dentro da legalidade quando necessário; o sistema político e sua lógica de financiamento são estruturados de tal forma para que os partidos organicamente integrados como defensores da ordem, sendo de esquerda ou direita; a sociedade burguesa, em sua reprodução, conta com complexos e ramificados aparelhos repressivos, ideológicos e de controle que para serem enfrentados necessitam de estruturas igualmente complexas e sólidas; os meios de comunicação e produção cultural são monopólios da classe dominante e as classes dominadas, para fazer política, precisam buscar quebrar esse monopólio desenvolvendo seus próprios instrumentos hegemônicos.

O parágrafo acima resume alguns dos principais desafios que todo revolucionário tem de enfrentar na sua realidade nacional. A concepção leninista de organização, em seus elementos de universalidade, é uma resposta política a esses desafios. Por isso que no título desse texto eu afirmei que é um senso comum essa ideia amplamente difundida que a concepção leninista de organização está superada. Façam o teste: busque aprofundar o debate com os que defendem isso apontando os elementos acima tratados. Garanto por experiência própria que a maioria ficará sem resposta.


Nos próximos escritos vamos desenvolver de forma mais aprofundada apontamentos realizados de maneira telegráfica nesse escrito. Mas antes disso, não podemos terminar sem apontar uma importante provocação: nos últimos 40 anos a concepção leninista de organização foi expurgada da maioria das organizações de esquerda do mundo; o senso comum do “novo”, “novidade”, “a nova coisa” tomou a esquerda. Desconheço nesse período qualquer experiência exitosa de revolução conduzida por essas “novas concepções” organizativas. As ideias sobre as formas de ativismo em rede e integração horizontal de organização tem como principal mérito vender muitos livros na Livraria Cultura.  

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A demonização de Che Guevara e a reabilitação do colonialismo

09 de outubro marca os 50 anos do assassinato de Ernesto “Che” Guevara. O argentino protagonista da Revolução Cubana e das lutas anticoloniais e socialistas é um dos nomes mais conhecidos do mundo. Figura emblemática, nos quatro cantos do mundo, onde houver um protesto dos explorados e oprimidos, é possível achar uma blusa, bandeira ou cartaz com o rosto de Che. Nos últimos anos, porém, a biografia de Che é atacada de todos os lados por uma historiografia revisionista que pretende encaixá-lo em rótulos como racista, homofóbico, machista, autoritário, sádico, assassino, ditador etc. Essa operação revisionista obteve, ao menos no Brasil, um relativo sucesso (não sem contribuição significativa de setores da esquerda) e hoje disputa a perspectiva dominante sobre quem foi Ernesto Guevara. Mais do que mostrar a falsidade dessa ideologia, algo indispensável, quero nessas poucas linhas apontar o significado histórico-político desse combate pela escrita da história. Em poucas palavras, e adiantando a tese, a demonização de Che Guevara é parte indissociável da ofensiva neocolonial do imperialismo iniciada nos anos 70, vitoriosa nos anos 90 (com a destruição da URSS e do movimento terceiro-mundista) e que continua com força nos dias atuais. Vejamos.


- O mundo antes de Outubro.

homenagem da UJC a CHE
Vamos imaginar que estamos em outubro de 1917. Como estava o mundo nessa data? A imensa maioria da população humana estava submetida a regimes de dominação colonial (onde foi criado, dentre outras coisas, os campos de concentração) pautados na dominação política total e na exploração econômica em suas formas mais brutais e desumanizantes. A maioria dos países e territórios de África, Ásia, Europa Oriental, América Central e América do Sul eram dominados por um punhado de Estados imperialistas que mantinham genocídios sistemáticos como forma de dominação, instituições como o apartheid e destruição de povos e culturas inteiras.
A grande Revolução de Outubro foi uma revolução socialista de dimensão anticolonial que conclamou os escravos das colônias a quebrarem suas correntes e lutar pela sua liberdade. Com o tempo, num processo difícil e contraditório, o movimento comunista, dirigido pela Terceira Internacional junto com a URSS, passou a atuar como o partido mundial da luta anticolonial e anti-imperialista. Vários povos em África, Ásia e América Latina a partir da Revolução de Outubro e da criação da Terceira Internacional organizaram seus partidos comunistas que atuavam num perspectiva de libertação nacional com projeto socialista no horizonte. Líderes como Ho Chi Minh (Vietnã) Kim il Sung (Coreia) , Amilcar Cabral (Guiné-Bissau), Mao Tse Tung (China) expressam essa fusão entre luta anticolonial de libertação nacional e luta socialista: a “questão social” assume uma forma primeira radicalmente nacional nesses países.
O confronto entre colonialismo imperialista e o movimento comunista teve seu grande episódio, a batalha decisiva, na Segunda Guerra Mundial. O italiano Domenico Losurdo, acertadamente, afirma que o segundo grande conflito mundial é motivado por outra explosão das contradições capitalistas onde na disputa pela repartição do mundo o nazifascismo representa uma radicalização extrema da tradição colonial constitutiva do desenvolvimento capitalista. Em poucas palavras: o nazifascismo busca realizar na Europa, notadamente na parte Oriental, o que Inglaterra, França, Bélgica etc. faziam em África e Ásia. A radicalização do colonialismo foi derrotado pelo seu maior adversário: o movimento comunista dirigido pela União Soviética. Na batalha de Stalingrado a sorte do mundo foi jogada: a vitória dos nazistas significava o reestabelecimento em larga escala da escravidão racial no seu sentido moderno e a consolidação do colonialismo como padrão de organização mundial.
Como bem sabemos, os soviéticos venceram!


- O século da luta anticolonial.


O final da Segunda Guerra Mundial, especialmente de 1950 a 1980, marcou, talvez, a maior época revolucionária da história da humanidade. O tradicional sistema colonial estava sendo destruído em África, Ásia e fortemente questionado na América Latina e Central. É claro que novas formas de dominação imperialistas buscavam se consolidar, o que passou a história como neocolonialismo, mas o fato é que tivemos centenas de processos revolucionários de libertação nacional com conteúdo socialista ou no mínimo tendências igualitaristas. A união entre movimento comunista e movimento terceiro-mundistas foi uma das maiores ameaças que o capitalismo global conheceu. Não me parece um exagero afirmar, afinal, são os próprios ideólogos do imperialismo que dizem isso, que se houve um momento onde o capitalismo esteve ameaçado globalmente, esse foi na época gloriosa dos anos 60: os quatro cantos do mundo respiravam revolução.
O século XX pode ser lido como o século das lutas anticoloniais e socialistas contra o domínio do capital. Dentro desse processo é que podemos entender a importância da figura de Ernesto Che Guevara. A América Latina era (continua sendo, na verdade) o principal símbolo e modelo da dominação neocolonial da potência capitalista líder do planeta: os EUA. A Revolução Cubana representou a primeira tentativa vitoriosa de um projeto revolucionário no país que até então era considerado o quintal dos EUA. Como um dos principais líderes da Revolução Cubana, Che, de pronto, tornou-se uma figura de projeção mundial, e passou a encarnar a fusão do movimento terceiro-mundista e do movimento comunista. Esse líder revolucionário e estatista assumiu o lugar de principal símbolo político dos povos do terceiro mundo. A CIA considerou Che Guevara o homem mais perigoso da América Latina!
Sartre, Fanon, Marcuse, Lumumba, Neruda, Brizola, Kim il Sung e muitos outros grandes nomes das lutas anti-imperialistas tinham Che como uma referência incontestável. Se houve um homem que personificou o espírito de rebeldia do seu tempo, esse foi Ernesto Guevara. Os povos coloniais em luta por libertação, os operários dos países centrais do capitalismo, os estudantes, as camponesas, os povos originários, todos olhavam para El Che como símbolo e referência.


- Neoliberalismo e renovada ofensiva do colonialismo.

Por motivos impossíveis de explicar nesse curto texto, o movimento comunista e terceiro-mundista foi derrotado. O neoliberalismo é não apenas uma ofensiva do capital sobre os trabalhadores num momento de crise estrutural do capitalismo para garantir uma taxa de lucro satisfatória aprofundando a dominação política e a exploração. O neoliberalismo também pressupõe uma ofensiva neocolonial de brutal recrudescimento do domínio global do centro hegemônico do imperialismo, os EUA, e dos seus centros regionais, como Alemanha, destruindo ou buscando destruir a soberania nacional, a independência política e econômica e as conquistas dos processos revolucionários nos países dependentes. As invasões militares, o controle direto das riquezas naturais, a reprimarização das economias dependentes, o reforçamento do monopólio tecnológico, o aterrador aumento da pobreza, miséria, fome, desemprego e precariedade no terceiro mundo, hoje chamado de Sul global, são expressões dessa nova ofensiva neocolonial.
Essa derrota política e ideológica engendrou uma onda de reabilitação teórica e cultural do colonialismo. Karl Popper disse tranquilamente que os povos africanos foram libertos cedo demais, afinal, eles são como crianças num berçário sem um adulto supervisionando. Niall Ferguson pode reafirmar com sem alarde o paradigma civilização vs barbárie colocando, como sempre, a civilização no seio do capitalismo ocidental. A temática do imperialismo é banida dos debates políticos e acadêmicos. A esquerda do capital, normalmente socialdemocratas, e as novidades do momento, como Syriza, recusam o internacionalismo proletário e a importância da luta anticolonial na agenda política. O silêncio aterrador da maioria da esquerda mundial na defesa na Coreia Popular frente aos ataques do imperialismo é a prova cabal que a ordem dominante venceu a batalha em todas as instâncias.
A demonização de Che, assim como o apagamento ou pós-modernização de figuras como Fanon e Sartre, é parte de um processo mais amplo de vitória do imperialismo no século XX e combate, uma verdadeira guerra pela escrita da história, aos fantasmas da luta anticolonial dirigida pelos comunistas. Com formas diferentes, a demonização de Che é constitutiva do mesmo processo de legitimação das invasões imperialistas em países como Síria, Coreia Popular ou Líbia.
Destruir a biografia de Che é reabilitar o colonialismo, o domínio global do imperialismo, em suas formas mais belicistas e desumanas. É anticomunismo, mas é também, um pouco mais que isso: é o aflorar dos desejos nazifascistas derrotados em Stalingrado de um mundo não só com extração de mais-valor, mas com escravidão racial aberta em benefício do povo dos senhores [Herrenvolk democracy] - seguindo as reflexões novamente de Domenico Losurdo. Defender a memória e o legado de Ernesto Che Guevara é imprescindível na difícil missão de conter e derrotar a ofensiva neocolonial do capitalismo cada vez mais destrutivo. Temos que defender o legado desse grande argentino e sermos a geração que vai realizar o seu sonho: uma revolução latino-americana em direção ao fim do domínio mundial do imperialismo.

Venceremos, El Che!


domingo, 8 de outubro de 2017

A América Latina que não será televisionada

América Latina contra o império
Existe no seio da esquerda uma certa compreensão simplista do papel da mídia na luta política. A mídia será responsável apenas por manipular a informação “mentindo” ou mostrando o “fato jornalístico” de maneira parcial e distorcido. Embora capte um elemento do papel das mídias na luta de classes, essa compreensão perde de vista um componente essencial: um dos principais poderes dos monopólios de mídia é pautar o debate no que se refere ao tema e as categorias de compreensão, ocultando temas, dizendo o que merece ou não ser noticiado.

Ou seja, para além do mentir e distorcer, algo mais que real, nunca podemos perder de vista o não dito, ocultado, não tematizado pela mídia, parte essencial da formatação de uma chamada “opinião pública” dócil aos interesses da ordem dominante e ao imperialismo. Um exemplo gritante desse papel dos monopólios de mídia na luta de classes pode ser dado através da cobertura midiática sobre a América Latina.

A Venezuela passou os últimos três meses sendo foco dos noticiários brasileiros e mundiais. O motivo foi uma renovada ofensiva da direita associada ao imperialismo com objetivo de derrubar o Governo Bolivariano. As notícias sobre a crise econômica, desabastecimento, suposta violência governamental extrema, “prisões políticas” de opositores, cerceamento da liberdade de expressão eram abundantes na TV, rádio, jornais e portais da internet. A maioria dos brasileiros médios devem achar que a Venezuela vive uma ditadura e não fazem ideia do nome do presidente do Peru ou México, mas com certeza já ouviram falar em Nicolás Maduro.

Depois da proposta de nova constituição aprovada por mais de 8 milhões de venezuelanos e com o retomar do protagonismo popular e bolivariano das ruas, esvaziando as iniciativas da direita associada ao imperialismo, a Venezuela sumiu dos noticiários. Numa estranha lógica jornalística antes o país era considerado digno de prioridade no “noticiário internacional” e agora é escondido. É fundamental que na cabeça do brasileiro médio a imagem que fique é que o país continua um caos ardendo em chamas devido ao domínio de um ditador maluco.

O curioso e perceptível num olhar mais atento é que para os monopólios de mídia existem partes da América Latina que devem ser sistematicamente excluídas de qualquer noticiário. Os países latino-americanos comandados por governos de direita subordinados ao imperialismo que atuam como vassalas do departamento de Estado dos EUA são blindados de qualquer crítica ou avaliação negativa. Só merece atenção (sempre pejorativa e criminalizante) Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e a Argentina na época da presidência de Cristina Kirchner. Por falar em Argentina, vamos pegar o exemplo desse último país.

Quando Cristina Kirchner era governante na Argentina, a mídia brasileira, de forma religiosa e mais disciplinada que quartel militar, repetia como um mantra as notícias sobre o “caos econômico” no país. Inflação alta, aumento da pobreza, suposta escassez de produtos, redução das taxas de investimento, baixo crescimento da economia etc. De manhã, tarde e noite, no mínimo uma vez na semana, tínhamos uma notícia criticando o governo de Cristina em todas as emissoras do Brasil – para não falar dos jornais, sites e emissoras de rádios.

Mas Maurício Macri, devoto fanático do liberalismo econômico e filho bastardo do Tio Sam, foi eleito presidente e a onipresente Argentina dos noticiários tornou-se uma espécie de tia distante: nunca mais ouvimos falar. Dizia-se que a Argentina tinha muita inflação devido ao intervencionismo estatal; hoje a inflação é a maior em 14 anos: 46%. Era dito que a pobreza estava aumentando, com Macri temos 1, 4 milhões a mais de pobres e mais de 200 mil trabalhadores perderam seus empregos desde que ele assumiu. O preço da água, luz e gás subiu entre 300% ou 2000% para regular os preços “pelo livre mercado”, mas o mercado, esse sujeito cheio de exigências, mesmo assim não reagiu bem: o consumou caiu 6,4%, o gasto médio por compra 26,3% e a taxa de investimentos (públicos e privados) também não cresceu!

Em Buenos Aires acontecem protestos diários, o presidente só sai agora de carro blindado e o nível das lutas sociais na Argentina é gigantesco. Até as camadas médias de pequenos e médios empresários, que caindo no conto do liberalismo econômico votaram em Macri, colhem os frutos amargos de um governo puro sangue dos monopólios e do imperialismo estadunidense. Se o governo de Cristina tinha pouca popularidade em sua fase final, o de Macri é mais que isso: é um governo totalmente impopular.

O mesmo pode ser dito da Colômbia, México, Peru e Paraguai. O que esses países têm de semelhante? São governados por partidos e políticos de direita, adeptos da ilusão liberal dos tratados de livre comércio (uma hábil forma de aprofundar a dependência e o subdesenvolvimento), totalmente subserviente aos interesses do imperialismo (contribuindo, inclusive, com a instalação de bases militares dos EUA no continente) e inimigos de qualquer projeto de integração latino-americana de bases populares e socialistas.

Quando esses países são noticiados, normalmente em períodos eleitorais ou quando acontece alguma tragédia natural ou criminal, nunca é tematizado o histórico político e econômico recente com algum grau de profundidade. A degradação mexicana, por exemplo, com o narcotráfico associado ao Estado formando o narcopoder, e provocando recordes no número de assassinatos e desaparecimentos, não será nunca relacionado com a ortodoxia neoliberal que domina o México há décadas. Esse país é o modelo perfeito das consequências dos famosos tratados de livre-comércio com os EUA: sem soberania alimentar ao ponto de está importando milho (!!!), cada vez mais pobre e desigual, serviços públicos destruídos, indústria em frangalhos, ciência e tecnologia zero, ausência quase total de soberania nacional e fim da tradicional política externa mexicana com certa independência e processos de destruição do tecido social com o poder sempre crescente dos grupos de narcotráfico associados à classe dominante e ao Estado.

A clássica “obsessão” pelos direitos humanos em Cuba, é lógico, não se repete na Colômbia. Esse país tem um dos históricos mais pronunciados do mundo em terrorismo de Estado. Há um ditado popular colombiano que diz que é mais fácil “montar uma guerrilha que um sindicato” no país. O número de ativistas dos direitos humanos, jornalistas, sindicalistas e militantes no geral assassinados no país são recordes. O paramilitarismo, isto é, a formação de grupos armados privados com conveniência ou associado do poder público, é à décadas responsável por milhares de morte e deslocamento forçado de camponeses. O brasileiro médio orientado pelos monopólios de mídia nunca ouviu falar do paramilitarismo, mas, com certeza, “sabe” que As Farc-EP (recentemente desmilitarizada e transformada em partido político) é supostamente um grupo de traficantes que praticam sequestro, a encarnação do maior mal colombiano.

Enquanto aparato ideológico reprodutor do colonialismo cultural, complexo ideológico intrínseco as relações de produção capitalistas dependentes que dominam o Brasil, o papel da mídia é sempre inferiorizar tudo que é latino-americano e mostrar que as “luzes” vêm da Europa e EUA. Os projetos políticos e países que desafiam o domínio do imperialismo são vítimas sistemáticas de uma permanente campanha de difamação ao nível do ridículo. Os países e projetos que se mantém como base de sustentação da ordem burguesa dependente e do imperialismo são ocultados e quando tratados, a extrema superficialidade é o que reina. Não é apenas a revolução que não será televisionada. É a tragédia burguesa potencializada na forma capitalista dependente também.



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

'O jovem Karl Marx' de Raoul Peck (2017): o homem que mudou o mundo

“Os homens fazem sua própria história” Karl Marx
“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” Karl Marx

Autor: Heribaldo Maia (Graduando em História Licenciatura pela UFPE e militante da União da Juventude Comunista)

Poderia começar esse texto problematizando as formas do capitalismo censurar o filme recém lançado: O jovem Karl Marx (2017), do diretor haitiano Raoul Peck. Ou entrar num debate sobre o pensamento marxiano. Porém o filme – que expôs de forma didática pontos centrais da obra do jovem Marx (e Engels), inseriu importantes momentos da história da luta dos trabalhadores e envolveu diversos personagens da história como Proudhon, Bakunin, Bauer, etc –, apontou outro aspecto que é fundamental e que me chamou atenção (principalmente num momento em que o nome de Marx é imediatamente associado ao de um “demônio mítico que criou um exército de doutrinadores): o homem por trás do gigante pensador que foi Karl Marx.
            Dessa forma não buscarei trazer nenhum debate social, político, filosófico ou econômico. Também não irei expor o método marxiano ou suas categorias. Serão apenas reflexos de quem foi afetado pelo filme.
            Raoul Peck que já é famoso por sua militância no mundo da cultura, em específico no cinema visto seus diversos filmes como o premiado: Eu não sou seu negro (2016); mas também: Lumumba (2000), Abril Sangrento (2005), entre outros, encarou a difícil missão de sintetizar a vida do jovem Marx para o cinema. Peck, mais uma vez, mostrou todo seu talento ao não transformar “O jovem Karl Marx” em um filme panfletário ou numa mera propaganda marxista. Contudo isso não retirou do filme seu caráter político firme, sendo muito mais profundo e contundente que qualquer propaganda típica do realismo soviético. Esse foi o ponto alto do filme.
            Apesar dos diálogos não terem sido dos mais empolgantes, creio eu que Peck prezou pela didática e em tornar o filme acessível, aliou uma sensibilidade, delicadeza e uma beleza estética. Assim que Peck, se apoiando em intensa pesquisa, nos trouxe o homem Karl Marx: o gênio temperamental, o estudioso compulsivo, o marido amoroso (porém falho como todo humano), o pai preocupado, o político agressivo e o amigo de difícil trato.
            O filme mostra como foi o fato de Marx se revoltar diante da injustiça sofrida pelos mais pobres, pela desumanização promovida pelo capital, que o moveram a estudar, pesquisar e lutar por um novo mundo. Não foi coincidência o início do filme remeter ao famoso caso do “roubo de lenha”, mostrando de como esse fato de sua juventude o marcou para toda a vida. O profundo senso humanista e amor a emancipação deve ter levado o jovem Marx a se perguntar: que mundo era esse que uma pessoa não tinha o direito de se esquentar no inverno? A resposta: o mundo do capital.
            O homem genial, conforme sempre constatou em seus estudos o caráter social do homem – ao contrário do individualismo burguês –, só foi o que foi, e ainda é, porque não viveu como “uma mônada isolada”, mas se deixou construir pelas pessoas que o rodearam, em especial Engels e jenny. O filme mostra com perfeição isso. Jenny, sempre ao seu lado, o influenciou em tudo: os debates, a escolha dos títulos e o incentivo a persistir. Engels, que se Marx não tivesse conhecido talvez nunca tivesse sido quem foi, lhe indicou textos e autores, caminhos de pesquisa e políticos e o apresentou a classe trabalhadora, mas, antes de tudo, Engels também foi o amigo que o socorreu financeiramente e emocionalmente nos momento de cansaço.
            Dessa forma o filme se distanciou dos clichês propagandísticos. Peck não transformou Marx em mito, e isso é fundamental, isso que tornou “O jovem Karl Marx” um filme grandioso.
            Na época em que vivemos (principalmente no Brasil) uma miséria política enorme, rodeados por “mitos”, Marx retornou nas lentes de Peck grandioso em sua humanidade e não como um ídolo ou um mito a ser seguido cegamente. Por isso, essa radical humanidade, que Marx é perigoso, por isso o filme é uma lição política. A lição de Marx, que Peck apreendeu e reproduziu tão bem, é: os homens não precisam de mitos para se libertarem, nós precisamos de homens que sonhem o novo, amem a liberdade humana e lutem por isso.
            Ao contrário dos humanos, o mito olha para os demais com distanciamento visto que sua posição o torna maior que os demais. Do alto de sua posição está sempre a cima de todos. Assim sendo, o mito nos aparece como uma espécie de “salvador” de “messias” da qual devemos entregar nossos destinos e esperar a redenção. Marx, humanizado no filme, aparece sentindo as dores que sentimos, amando como amamos, vendo de perto a exploração que vivemos, vacilando como qualquer um vacila, cheio de defeitos como todos nós, ou seja: humano em sua completude e concretude. Marx, o homem que mudou o mundo era apenas um homem que queria mudar o mundo. Por isso foi tão grande, por isso sempre será grande.

domingo, 1 de outubro de 2017

É sem partido? Reflexões não sistemáticas sobre um discurso simplista

"black blocs"
O objetivo dessas linhas não é uma reflexão aprofundada e sistemática sobre os limites, possibilidades e a lógica da negação da forma-partido na atuação política nos seus objetivos imediatos e limitados ou mais ambiciosos de transformação total da nossa atual forma de sociedade. Quero, quando muito, colocar no “papel” (no caso no Word) algumas inquietações que tenho quando me defronto com a ‘lógica’ do “sem partido”, buscando, no melhor dos casos, estimular algumas reflexões, e no pior, apenas esvaziar ideias da minha mente a serem futuramente esquecidas.

É comum militantes organizados na forma-partido ao serem criticados com o discurso dos “sem partido” lembrar que historicamente as forças conservadoras – incluído o liberalismo e o fascismo – foram inimigos mortais dos partidos de massa. Esse tipo de argumento não é falso. O modelo clássico de partido político da burguesia é uma espécie de corrente de opinião expressando um ajuntamento de interesses políticos e econômicos a partir de classes e frações de classe e que tem na ocupação de funções diretivas no aparato do Estado seu principal objetivo. É o chamado partido dos notáveis: modelo de partido burguês dominante desde a primeira revolução burguesa vitoriosa, na Inglaterra, até o começo do século XX.

Já o modelo clássico de partido operário, ou em sentido menos restritivo de partido organicamente estruturado às classes dominadas, é constituído pelo Partido Social Democrata Alemão. Um partido com militantes ativos e constante que monta um aparato de propaganda própria – jornais, boletins, escolas de formação política etc. -, busca disputar espaços no seio da sociedade (como conquistar sindicatos e grêmios estudantis) e vive organicamente de sua classe  e não do Estado. O modelo clássico de partido operário inicialmente, como sabemos, foi proibido em todos os Estados burgueses do mundo. Só na virada do século XIX para o XX é que os partidos operários são legalizados na maioria dos países burgueses, mas essa legalização não exclui, pelo contrário, mecanismos de repressão, controle, vigilância e engrenagens institucionais, como cláusulas de barreira e restrição do direito ao voto de analfabetos, como forma de reduzir a capacidade de atuação institucional dos partidos operários.

Em todas as experiências de reação burguesa, como o fascismo e o ciclo de ditaduras militares do grande capital na América Latina, os partidos foram proibidos e/ou violentamente restringidos e o máximo permitido era o modelo clássico de partido burguês: o partido de opinião. Então, sim, é verdade: o direito de organização partidária enquanto partido de massa é uma conquista histórica das classes exploradas e a firme oposição à essa forma-partido é um cavalo de batalha da classe dominante há mais de 200 anos que continua até hoje – a burguesia através de seus aparelhos políticos, intelectuais e quadros sempre busca esvaziar os partidos e o sistema político de qualquer conteúdo programático ou papel politizador, resumindo o debate institucional ao carisma e características pessoais dos candidatos.

Porém, a história não acaba aí. Se é verdade que o repúdio puro e simples a forma-partido, na prática, se configura como um repúdio aos partidos populares de massa, a desconfiança com a forma-partido tem uma razão bem concreta de ser: nos últimos 40 anos temos uma experiência atrás da outra de aburguesamento de partidos antes operários e que tornam-se gerentes da ordem burguesa, muitas vezes, gerentes mais fanáticos que os tradicionais partidos da ordem.

Pense num sujeito brasileiro com 27 anos que milita a sete. Começou sua militância no movimento estudantil e teve que se deparar com todo tipo de escrotice praticada pela UJS, JPT e seus satélites. Teve o desprazer de ver entidades históricas de combate, como DCE’s, UEE’s e a própria UNE, transformadas em máquinas cartoriais que têm como único objetivo fazer dinheiro. Depois do movimento estudantil, esse sujeito, já mais ou menos desiludido, vai para o movimento sindical. Lá encontra seu sindicato dominado pelo CUT em associação com a CTB e a oposição é constituída pela Força Sindical. A raiva, repulsa e revolta desse sujeito “aos partidos” não é um imperativo categórico kantiano: é algo bem concreto com razões de ser. Ou seja, é algo compreensível, mas compreender não significa concordar.

Saber as razões históricas do desgaste e em muitos países do esgotamento de uma certa forma-partido, normalmente partidos socialdemocratas ultra aburguesados, não legitima ninguém, sem uma profunda e séria discussão teórica e demonstração de prática histórica, a descartar como inegavelmente maculada a forma-partido em si. Afinal, não deixamos de usar a medicina por causa de um médico ruim, ou de compreender a importância de sindicatos, associação de moradores ou movimentos sociais por causa dos trágicos exemplos que existem no mundo, como os casos aqui citados.

Alguém pode dizer que essa analogia é simplista. De fato, ela é. Porém, mas simplista ainda são os “argumentos” dos “sem partidos”. Das experiências que tive até agora, diria que em 95% dos casos, o que temos é uma negação emocional da forma-partido sem estar fundamentada em qualquer análise teórica e histórica minimamente séria e sem ter ao menos uma vaga ideia de uma proposta alternativa factível. Normalmente, e especialmente no movimento estudantil, a ideia é que o partido é essencialmente aparelhador e burocratizado, e tudo que ele toca é corrompido. No polo oposto o “partido dos independentes” seria a encarnação da virtude anti-aparelhadora, anti-burocrática e combativa. 

Creio que não é necessário refletir muito para perceber a falsidade dessa lógica. De início, a definição de partido político se reduz ao quem tem ou não registro no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e disputa eleição. Com um primarismo que mataria Antônio Gramsci se o fascismo (que também proibia os partidos políticos) já não o tivesse feito, os “independentes” não percebem que em várias situações eles agem como um partido: tem reuniões prévias a espaços, atuam em bloco como sujeito coletivo, constituem elementos de solidariedade de grupo, possuem concepções ideológicas, bandeiras, formas de ação e símbolos semelhantes e atuam criando antagonistas que se define por contraste com seu bloco. O “partido dos independentes” é muitas vezes mais leninista que muitos partidos leninistas. Além disso, cabe pontuar os exemplos paradigmáticos onde o “partido dos independentes” é na verdade um partido político sem registro no TSE e critica o “aparelhamento dos partidos” apenas como forma de legitimar o seu próprio aparelhamento, como no caso clássico da atuação do MEPR no movimento nacional de pedagogia.

Além disso, a turma dos “sem partido” raramente fazem uma reflexão séria sobre os limites de sua ação que de praxe, especialmente no M.E, toma a forma de coletivo com arco de atuação apenas local. Imagine que sou militante do M.E atuando num coletivo e estou brigando contra a precarização da assistência estudantil. Para garantir uma vitória duradoura em minha demanda preciso influir na política nacional de educação e na política econômica. A atuação local, embora fundamental, não é suficiente para reestruturar a política de assistência estudantil do país. Como garantir uma luta nacional fora da forma-partido com prioridade de atuação em coletivos locais ou aparelhos estudantis como D.A’s?

Outro elemento fundamental é a escala de atuação política. Vivemos numa sociedade burguesa onde o nível de precarização das relações de trabalho, monopolização da informação e da produção cultural e a sofisticação dos mecanismos de controle e repressão do Estado burguês exigem cada vez mais organizações com estruturas mais sólidas e robustas com capacidade material sempre crescente de agitação e propaganda e atuação. Ou dizendo de maneira mais simples: o partido político de massas tem ou busca ter um aparato de agitação e propaganda e ação forte com jornais distribuídos aos milhares, site, escolas de formação, núcleos de cultura, atuação cotidiana em diversos cantos do país etc. Como sem a forma-partido ou movimento sociais de grande porte, tal como MTST e MST que contém muitos elementos da forma-partido, vai se conseguir tal efeito?

Uma questão basilar a ser também refletida é que alguns espaços de militância, como luta pela terra e movimento sindical, sem um vigoroso e bem estruturado aparelho de militância, é impossível ou muito difícil conseguir conquistar qualquer coisa. Na luta pela terra é necessário capacidade de retirar militantes ameaçados de morte de territórios, garantir assessoria jurídica, estrutura de acampamentos, articulações de apoios para ocupação e o próprio mapeamento dos terrenos ocupados, capacidade de disputar o fundo público enfrentamento às burocracias do Estado etc. O mesmo para o movimento sindical. Só quem disputou uma eleição contra  CUT ou Força Sindical sabe como sem uma ampla cobertura – dinheiro, capacidade de rodar material, deslocamento de militância, proteção contra ameaças e atentados etc. – não é possível superar essas centrais em sindicatos, categorias ou até no Estado como um todo.

É raro, quase uma espécie em extinção, encontrar alguém no grupo dos “sem partido” que já tenha feito qualquer reflexão sobre alguns desses elementos. A coisa transita sempre no âmbito do discurso vazio e simplista e do binarismo: “partidários” como encarnação do mal vs “sem partido” como expressão da pureza. Como um bom apreciador que sou de debates teóricos e políticos, gostaria muito de refletir essas questões com algum defensor da necessidade de superar ou negar a forma-partido na luta pelo socialismo. Infelizmente, nunca tive oportunidade de conhecer nos meus cinco anos de militância alguém que faça esse debate com qualidade.

E se esse texto servir para alguma coisa, espero que quando surgir um debate sobre “com partido ou não”, essa discussão não seja um moralismo binário, mas uma séria reflexão sobre os objetivos imediatos e de longo prazo da luta, como realizá-los e a partir de que forma organizativa. É pedir demais? Com certeza, mas é isso: sou um partidário (uma confissão!) do bom debate.