terça-feira, 10 de outubro de 2017

A demonização de Che Guevara e a reabilitação do colonialismo

09 de outubro marca os 50 anos do assassinato de Ernesto “Che” Guevara. O argentino protagonista da Revolução Cubana e das lutas anticoloniais e socialistas é um dos nomes mais conhecidos do mundo. Figura emblemática, nos quatro cantos do mundo, onde houver um protesto dos explorados e oprimidos, é possível achar uma blusa, bandeira ou cartaz com o rosto de Che. Nos últimos anos, porém, a biografia de Che é atacada de todos os lados por uma historiografia revisionista que pretende encaixá-lo em rótulos como racista, homofóbico, machista, autoritário, sádico, assassino, ditador etc. Essa operação revisionista obteve, ao menos no Brasil, um relativo sucesso (não sem contribuição significativa de setores da esquerda) e hoje disputa a perspectiva dominante sobre quem foi Ernesto Guevara. Mais do que mostrar a falsidade dessa ideologia, algo indispensável, quero nessas poucas linhas apontar o significado histórico-político desse combate pela escrita da história. Em poucas palavras, e adiantando a tese, a demonização de Che Guevara é parte indissociável da ofensiva neocolonial do imperialismo iniciada nos anos 70, vitoriosa nos anos 90 (com a destruição da URSS e do movimento terceiro-mundista) e que continua com força nos dias atuais. Vejamos.


- O mundo antes de Outubro.

homenagem da UJC a CHE
Vamos imaginar que estamos em outubro de 1917. Como estava o mundo nessa data? A imensa maioria da população humana estava submetida a regimes de dominação colonial (onde foi criado, dentre outras coisas, os campos de concentração) pautados na dominação política total e na exploração econômica em suas formas mais brutais e desumanizantes. A maioria dos países e territórios de África, Ásia, Europa Oriental, América Central e América do Sul eram dominados por um punhado de Estados imperialistas que mantinham genocídios sistemáticos como forma de dominação, instituições como o apartheid e destruição de povos e culturas inteiras.
A grande Revolução de Outubro foi uma revolução socialista de dimensão anticolonial que conclamou os escravos das colônias a quebrarem suas correntes e lutar pela sua liberdade. Com o tempo, num processo difícil e contraditório, o movimento comunista, dirigido pela Terceira Internacional junto com a URSS, passou a atuar como o partido mundial da luta anticolonial e anti-imperialista. Vários povos em África, Ásia e América Latina a partir da Revolução de Outubro e da criação da Terceira Internacional organizaram seus partidos comunistas que atuavam num perspectiva de libertação nacional com projeto socialista no horizonte. Líderes como Ho Chi Minh (Vietnã) Kim il Sung (Coreia) , Amilcar Cabral (Guiné-Bissau), Mao Tse Tung (China) expressam essa fusão entre luta anticolonial de libertação nacional e luta socialista: a “questão social” assume uma forma primeira radicalmente nacional nesses países.
O confronto entre colonialismo imperialista e o movimento comunista teve seu grande episódio, a batalha decisiva, na Segunda Guerra Mundial. O italiano Domenico Losurdo, acertadamente, afirma que o segundo grande conflito mundial é motivado por outra explosão das contradições capitalistas onde na disputa pela repartição do mundo o nazifascismo representa uma radicalização extrema da tradição colonial constitutiva do desenvolvimento capitalista. Em poucas palavras: o nazifascismo busca realizar na Europa, notadamente na parte Oriental, o que Inglaterra, França, Bélgica etc. faziam em África e Ásia. A radicalização do colonialismo foi derrotado pelo seu maior adversário: o movimento comunista dirigido pela União Soviética. Na batalha de Stalingrado a sorte do mundo foi jogada: a vitória dos nazistas significava o reestabelecimento em larga escala da escravidão racial no seu sentido moderno e a consolidação do colonialismo como padrão de organização mundial.
Como bem sabemos, os soviéticos venceram!


- O século da luta anticolonial.


O final da Segunda Guerra Mundial, especialmente de 1950 a 1980, marcou, talvez, a maior época revolucionária da história da humanidade. O tradicional sistema colonial estava sendo destruído em África, Ásia e fortemente questionado na América Latina e Central. É claro que novas formas de dominação imperialistas buscavam se consolidar, o que passou a história como neocolonialismo, mas o fato é que tivemos centenas de processos revolucionários de libertação nacional com conteúdo socialista ou no mínimo tendências igualitaristas. A união entre movimento comunista e movimento terceiro-mundistas foi uma das maiores ameaças que o capitalismo global conheceu. Não me parece um exagero afirmar, afinal, são os próprios ideólogos do imperialismo que dizem isso, que se houve um momento onde o capitalismo esteve ameaçado globalmente, esse foi na época gloriosa dos anos 60: os quatro cantos do mundo respiravam revolução.
O século XX pode ser lido como o século das lutas anticoloniais e socialistas contra o domínio do capital. Dentro desse processo é que podemos entender a importância da figura de Ernesto Che Guevara. A América Latina era (continua sendo, na verdade) o principal símbolo e modelo da dominação neocolonial da potência capitalista líder do planeta: os EUA. A Revolução Cubana representou a primeira tentativa vitoriosa de um projeto revolucionário no país que até então era considerado o quintal dos EUA. Como um dos principais líderes da Revolução Cubana, Che, de pronto, tornou-se uma figura de projeção mundial, e passou a encarnar a fusão do movimento terceiro-mundista e do movimento comunista. Esse líder revolucionário e estatista assumiu o lugar de principal símbolo político dos povos do terceiro mundo. A CIA considerou Che Guevara o homem mais perigoso da América Latina!
Sartre, Fanon, Marcuse, Lumumba, Neruda, Brizola, Kim il Sung e muitos outros grandes nomes das lutas anti-imperialistas tinham Che como uma referência incontestável. Se houve um homem que personificou o espírito de rebeldia do seu tempo, esse foi Ernesto Guevara. Os povos coloniais em luta por libertação, os operários dos países centrais do capitalismo, os estudantes, as camponesas, os povos originários, todos olhavam para El Che como símbolo e referência.


- Neoliberalismo e renovada ofensiva do colonialismo.

Por motivos impossíveis de explicar nesse curto texto, o movimento comunista e terceiro-mundista foi derrotado. O neoliberalismo é não apenas uma ofensiva do capital sobre os trabalhadores num momento de crise estrutural do capitalismo para garantir uma taxa de lucro satisfatória aprofundando a dominação política e a exploração. O neoliberalismo também pressupõe uma ofensiva neocolonial de brutal recrudescimento do domínio global do centro hegemônico do imperialismo, os EUA, e dos seus centros regionais, como Alemanha, destruindo ou buscando destruir a soberania nacional, a independência política e econômica e as conquistas dos processos revolucionários nos países dependentes. As invasões militares, o controle direto das riquezas naturais, a reprimarização das economias dependentes, o reforçamento do monopólio tecnológico, o aterrador aumento da pobreza, miséria, fome, desemprego e precariedade no terceiro mundo, hoje chamado de Sul global, são expressões dessa nova ofensiva neocolonial.
Essa derrota política e ideológica engendrou uma onda de reabilitação teórica e cultural do colonialismo. Karl Popper disse tranquilamente que os povos africanos foram libertos cedo demais, afinal, eles são como crianças num berçário sem um adulto supervisionando. Niall Ferguson pode reafirmar com sem alarde o paradigma civilização vs barbárie colocando, como sempre, a civilização no seio do capitalismo ocidental. A temática do imperialismo é banida dos debates políticos e acadêmicos. A esquerda do capital, normalmente socialdemocratas, e as novidades do momento, como Syriza, recusam o internacionalismo proletário e a importância da luta anticolonial na agenda política. O silêncio aterrador da maioria da esquerda mundial na defesa na Coreia Popular frente aos ataques do imperialismo é a prova cabal que a ordem dominante venceu a batalha em todas as instâncias.
A demonização de Che, assim como o apagamento ou pós-modernização de figuras como Fanon e Sartre, é parte de um processo mais amplo de vitória do imperialismo no século XX e combate, uma verdadeira guerra pela escrita da história, aos fantasmas da luta anticolonial dirigida pelos comunistas. Com formas diferentes, a demonização de Che é constitutiva do mesmo processo de legitimação das invasões imperialistas em países como Síria, Coreia Popular ou Líbia.
Destruir a biografia de Che é reabilitar o colonialismo, o domínio global do imperialismo, em suas formas mais belicistas e desumanas. É anticomunismo, mas é também, um pouco mais que isso: é o aflorar dos desejos nazifascistas derrotados em Stalingrado de um mundo não só com extração de mais-valor, mas com escravidão racial aberta em benefício do povo dos senhores [Herrenvolk democracy] - seguindo as reflexões novamente de Domenico Losurdo. Defender a memória e o legado de Ernesto Che Guevara é imprescindível na difícil missão de conter e derrotar a ofensiva neocolonial do capitalismo cada vez mais destrutivo. Temos que defender o legado desse grande argentino e sermos a geração que vai realizar o seu sonho: uma revolução latino-americana em direção ao fim do domínio mundial do imperialismo.

Venceremos, El Che!


domingo, 8 de outubro de 2017

A América Latina que não será televisionada

América Latina contra o império
Existe no seio da esquerda uma certa compreensão simplista do papel da mídia na luta política. A mídia será responsável apenas por manipular a informação “mentindo” ou mostrando o “fato jornalístico” de maneira parcial e distorcido. Embora capte um elemento do papel das mídias na luta de classes, essa compreensão perde de vista um componente essencial: um dos principais poderes dos monopólios de mídia é pautar o debate no que se refere ao tema e as categorias de compreensão, ocultando temas, dizendo o que merece ou não ser noticiado.

Ou seja, para além do mentir e distorcer, algo mais que real, nunca podemos perder de vista o não dito, ocultado, não tematizado pela mídia, parte essencial da formatação de uma chamada “opinião pública” dócil aos interesses da ordem dominante e ao imperialismo. Um exemplo gritante desse papel dos monopólios de mídia na luta de classes pode ser dado através da cobertura midiática sobre a América Latina.

A Venezuela passou os últimos três meses sendo foco dos noticiários brasileiros e mundiais. O motivo foi uma renovada ofensiva da direita associada ao imperialismo com objetivo de derrubar o Governo Bolivariano. As notícias sobre a crise econômica, desabastecimento, suposta violência governamental extrema, “prisões políticas” de opositores, cerceamento da liberdade de expressão eram abundantes na TV, rádio, jornais e portais da internet. A maioria dos brasileiros médios devem achar que a Venezuela vive uma ditadura e não fazem ideia do nome do presidente do Peru ou México, mas com certeza já ouviram falar em Nicolás Maduro.

Depois da proposta de nova constituição aprovada por mais de 8 milhões de venezuelanos e com o retomar do protagonismo popular e bolivariano das ruas, esvaziando as iniciativas da direita associada ao imperialismo, a Venezuela sumiu dos noticiários. Numa estranha lógica jornalística antes o país era considerado digno de prioridade no “noticiário internacional” e agora é escondido. É fundamental que na cabeça do brasileiro médio a imagem que fique é que o país continua um caos ardendo em chamas devido ao domínio de um ditador maluco.

O curioso e perceptível num olhar mais atento é que para os monopólios de mídia existem partes da América Latina que devem ser sistematicamente excluídas de qualquer noticiário. Os países latino-americanos comandados por governos de direita subordinados ao imperialismo que atuam como vassalas do departamento de Estado dos EUA são blindados de qualquer crítica ou avaliação negativa. Só merece atenção (sempre pejorativa e criminalizante) Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e a Argentina na época da presidência de Cristina Kirchner. Por falar em Argentina, vamos pegar o exemplo desse último país.

Quando Cristina Kirchner era governante na Argentina, a mídia brasileira, de forma religiosa e mais disciplinada que quartel militar, repetia como um mantra as notícias sobre o “caos econômico” no país. Inflação alta, aumento da pobreza, suposta escassez de produtos, redução das taxas de investimento, baixo crescimento da economia etc. De manhã, tarde e noite, no mínimo uma vez na semana, tínhamos uma notícia criticando o governo de Cristina em todas as emissoras do Brasil – para não falar dos jornais, sites e emissoras de rádios.

Mas Maurício Macri, devoto fanático do liberalismo econômico e filho bastardo do Tio Sam, foi eleito presidente e a onipresente Argentina dos noticiários tornou-se uma espécie de tia distante: nunca mais ouvimos falar. Dizia-se que a Argentina tinha muita inflação devido ao intervencionismo estatal; hoje a inflação é a maior em 14 anos: 46%. Era dito que a pobreza estava aumentando, com Macri temos 1, 4 milhões a mais de pobres e mais de 200 mil trabalhadores perderam seus empregos desde que ele assumiu. O preço da água, luz e gás subiu entre 300% ou 2000% para regular os preços “pelo livre mercado”, mas o mercado, esse sujeito cheio de exigências, mesmo assim não reagiu bem: o consumou caiu 6,4%, o gasto médio por compra 26,3% e a taxa de investimentos (públicos e privados) também não cresceu!

Em Buenos Aires acontecem protestos diários, o presidente só sai agora de carro blindado e o nível das lutas sociais na Argentina é gigantesco. Até as camadas médias de pequenos e médios empresários, que caindo no conto do liberalismo econômico votaram em Macri, colhem os frutos amargos de um governo puro sangue dos monopólios e do imperialismo estadunidense. Se o governo de Cristina tinha pouca popularidade em sua fase final, o de Macri é mais que isso: é um governo totalmente impopular.

O mesmo pode ser dito da Colômbia, México, Peru e Paraguai. O que esses países têm de semelhante? São governados por partidos e políticos de direita, adeptos da ilusão liberal dos tratados de livre comércio (uma hábil forma de aprofundar a dependência e o subdesenvolvimento), totalmente subserviente aos interesses do imperialismo (contribuindo, inclusive, com a instalação de bases militares dos EUA no continente) e inimigos de qualquer projeto de integração latino-americana de bases populares e socialistas.

Quando esses países são noticiados, normalmente em períodos eleitorais ou quando acontece alguma tragédia natural ou criminal, nunca é tematizado o histórico político e econômico recente com algum grau de profundidade. A degradação mexicana, por exemplo, com o narcotráfico associado ao Estado formando o narcopoder, e provocando recordes no número de assassinatos e desaparecimentos, não será nunca relacionado com a ortodoxia neoliberal que domina o México há décadas. Esse país é o modelo perfeito das consequências dos famosos tratados de livre-comércio com os EUA: sem soberania alimentar ao ponto de está importando milho (!!!), cada vez mais pobre e desigual, serviços públicos destruídos, indústria em frangalhos, ciência e tecnologia zero, ausência quase total de soberania nacional e fim da tradicional política externa mexicana com certa independência e processos de destruição do tecido social com o poder sempre crescente dos grupos de narcotráfico associados à classe dominante e ao Estado.

A clássica “obsessão” pelos direitos humanos em Cuba, é lógico, não se repete na Colômbia. Esse país tem um dos históricos mais pronunciados do mundo em terrorismo de Estado. Há um ditado popular colombiano que diz que é mais fácil “montar uma guerrilha que um sindicato” no país. O número de ativistas dos direitos humanos, jornalistas, sindicalistas e militantes no geral assassinados no país são recordes. O paramilitarismo, isto é, a formação de grupos armados privados com conveniência ou associado do poder público, é à décadas responsável por milhares de morte e deslocamento forçado de camponeses. O brasileiro médio orientado pelos monopólios de mídia nunca ouviu falar do paramilitarismo, mas, com certeza, “sabe” que As Farc-EP (recentemente desmilitarizada e transformada em partido político) é supostamente um grupo de traficantes que praticam sequestro, a encarnação do maior mal colombiano.

Enquanto aparato ideológico reprodutor do colonialismo cultural, complexo ideológico intrínseco as relações de produção capitalistas dependentes que dominam o Brasil, o papel da mídia é sempre inferiorizar tudo que é latino-americano e mostrar que as “luzes” vêm da Europa e EUA. Os projetos políticos e países que desafiam o domínio do imperialismo são vítimas sistemáticas de uma permanente campanha de difamação ao nível do ridículo. Os países e projetos que se mantém como base de sustentação da ordem burguesa dependente e do imperialismo são ocultados e quando tratados, a extrema superficialidade é o que reina. Não é apenas a revolução que não será televisionada. É a tragédia burguesa potencializada na forma capitalista dependente também.



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

'O jovem Karl Marx' de Raoul Peck (2017): o homem que mudou o mundo

“Os homens fazem sua própria história” Karl Marx
“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores.” Karl Marx

Autor: Heribaldo Maia (Graduando em História Licenciatura pela UFPE e militante da União da Juventude Comunista)

Poderia começar esse texto problematizando as formas do capitalismo censurar o filme recém lançado: O jovem Karl Marx (2017), do diretor haitiano Raoul Peck. Ou entrar num debate sobre o pensamento marxiano. Porém o filme – que expôs de forma didática pontos centrais da obra do jovem Marx (e Engels), inseriu importantes momentos da história da luta dos trabalhadores e envolveu diversos personagens da história como Proudhon, Bakunin, Bauer, etc –, apontou outro aspecto que é fundamental e que me chamou atenção (principalmente num momento em que o nome de Marx é imediatamente associado ao de um “demônio mítico que criou um exército de doutrinadores): o homem por trás do gigante pensador que foi Karl Marx.
            Dessa forma não buscarei trazer nenhum debate social, político, filosófico ou econômico. Também não irei expor o método marxiano ou suas categorias. Serão apenas reflexos de quem foi afetado pelo filme.
            Raoul Peck que já é famoso por sua militância no mundo da cultura, em específico no cinema visto seus diversos filmes como o premiado: Eu não sou seu negro (2016); mas também: Lumumba (2000), Abril Sangrento (2005), entre outros, encarou a difícil missão de sintetizar a vida do jovem Marx para o cinema. Peck, mais uma vez, mostrou todo seu talento ao não transformar “O jovem Karl Marx” em um filme panfletário ou numa mera propaganda marxista. Contudo isso não retirou do filme seu caráter político firme, sendo muito mais profundo e contundente que qualquer propaganda típica do realismo soviético. Esse foi o ponto alto do filme.
            Apesar dos diálogos não terem sido dos mais empolgantes, creio eu que Peck prezou pela didática e em tornar o filme acessível, aliou uma sensibilidade, delicadeza e uma beleza estética. Assim que Peck, se apoiando em intensa pesquisa, nos trouxe o homem Karl Marx: o gênio temperamental, o estudioso compulsivo, o marido amoroso (porém falho como todo humano), o pai preocupado, o político agressivo e o amigo de difícil trato.
            O filme mostra como foi o fato de Marx se revoltar diante da injustiça sofrida pelos mais pobres, pela desumanização promovida pelo capital, que o moveram a estudar, pesquisar e lutar por um novo mundo. Não foi coincidência o início do filme remeter ao famoso caso do “roubo de lenha”, mostrando de como esse fato de sua juventude o marcou para toda a vida. O profundo senso humanista e amor a emancipação deve ter levado o jovem Marx a se perguntar: que mundo era esse que uma pessoa não tinha o direito de se esquentar no inverno? A resposta: o mundo do capital.
            O homem genial, conforme sempre constatou em seus estudos o caráter social do homem – ao contrário do individualismo burguês –, só foi o que foi, e ainda é, porque não viveu como “uma mônada isolada”, mas se deixou construir pelas pessoas que o rodearam, em especial Engels e jenny. O filme mostra com perfeição isso. Jenny, sempre ao seu lado, o influenciou em tudo: os debates, a escolha dos títulos e o incentivo a persistir. Engels, que se Marx não tivesse conhecido talvez nunca tivesse sido quem foi, lhe indicou textos e autores, caminhos de pesquisa e políticos e o apresentou a classe trabalhadora, mas, antes de tudo, Engels também foi o amigo que o socorreu financeiramente e emocionalmente nos momento de cansaço.
            Dessa forma o filme se distanciou dos clichês propagandísticos. Peck não transformou Marx em mito, e isso é fundamental, isso que tornou “O jovem Karl Marx” um filme grandioso.
            Na época em que vivemos (principalmente no Brasil) uma miséria política enorme, rodeados por “mitos”, Marx retornou nas lentes de Peck grandioso em sua humanidade e não como um ídolo ou um mito a ser seguido cegamente. Por isso, essa radical humanidade, que Marx é perigoso, por isso o filme é uma lição política. A lição de Marx, que Peck apreendeu e reproduziu tão bem, é: os homens não precisam de mitos para se libertarem, nós precisamos de homens que sonhem o novo, amem a liberdade humana e lutem por isso.
            Ao contrário dos humanos, o mito olha para os demais com distanciamento visto que sua posição o torna maior que os demais. Do alto de sua posição está sempre a cima de todos. Assim sendo, o mito nos aparece como uma espécie de “salvador” de “messias” da qual devemos entregar nossos destinos e esperar a redenção. Marx, humanizado no filme, aparece sentindo as dores que sentimos, amando como amamos, vendo de perto a exploração que vivemos, vacilando como qualquer um vacila, cheio de defeitos como todos nós, ou seja: humano em sua completude e concretude. Marx, o homem que mudou o mundo era apenas um homem que queria mudar o mundo. Por isso foi tão grande, por isso sempre será grande.

domingo, 1 de outubro de 2017

É sem partido? Reflexões não sistemáticas sobre um discurso simplista

"black blocs"
O objetivo dessas linhas não é uma reflexão aprofundada e sistemática sobre os limites, possibilidades e a lógica da negação da forma-partido na atuação política nos seus objetivos imediatos e limitados ou mais ambiciosos de transformação total da nossa atual forma de sociedade. Quero, quando muito, colocar no “papel” (no caso no Word) algumas inquietações que tenho quando me defronto com a ‘lógica’ do “sem partido”, buscando, no melhor dos casos, estimular algumas reflexões, e no pior, apenas esvaziar ideias da minha mente a serem futuramente esquecidas.

É comum militantes organizados na forma-partido ao serem criticados com o discurso dos “sem partido” lembrar que historicamente as forças conservadoras – incluído o liberalismo e o fascismo – foram inimigos mortais dos partidos de massa. Esse tipo de argumento não é falso. O modelo clássico de partido político da burguesia é uma espécie de corrente de opinião expressando um ajuntamento de interesses políticos e econômicos a partir de classes e frações de classe e que tem na ocupação de funções diretivas no aparato do Estado seu principal objetivo. É o chamado partido dos notáveis: modelo de partido burguês dominante desde a primeira revolução burguesa vitoriosa, na Inglaterra, até o começo do século XX.

Já o modelo clássico de partido operário, ou em sentido menos restritivo de partido organicamente estruturado às classes dominadas, é constituído pelo Partido Social Democrata Alemão. Um partido com militantes ativos e constante que monta um aparato de propaganda própria – jornais, boletins, escolas de formação política etc. -, busca disputar espaços no seio da sociedade (como conquistar sindicatos e grêmios estudantis) e vive organicamente de sua classe  e não do Estado. O modelo clássico de partido operário inicialmente, como sabemos, foi proibido em todos os Estados burgueses do mundo. Só na virada do século XIX para o XX é que os partidos operários são legalizados na maioria dos países burgueses, mas essa legalização não exclui, pelo contrário, mecanismos de repressão, controle, vigilância e engrenagens institucionais, como cláusulas de barreira e restrição do direito ao voto de analfabetos, como forma de reduzir a capacidade de atuação institucional dos partidos operários.

Em todas as experiências de reação burguesa, como o fascismo e o ciclo de ditaduras militares do grande capital na América Latina, os partidos foram proibidos e/ou violentamente restringidos e o máximo permitido era o modelo clássico de partido burguês: o partido de opinião. Então, sim, é verdade: o direito de organização partidária enquanto partido de massa é uma conquista histórica das classes exploradas e a firme oposição à essa forma-partido é um cavalo de batalha da classe dominante há mais de 200 anos que continua até hoje – a burguesia através de seus aparelhos políticos, intelectuais e quadros sempre busca esvaziar os partidos e o sistema político de qualquer conteúdo programático ou papel politizador, resumindo o debate institucional ao carisma e características pessoais dos candidatos.

Porém, a história não acaba aí. Se é verdade que o repúdio puro e simples a forma-partido, na prática, se configura como um repúdio aos partidos populares de massa, a desconfiança com a forma-partido tem uma razão bem concreta de ser: nos últimos 40 anos temos uma experiência atrás da outra de aburguesamento de partidos antes operários e que tornam-se gerentes da ordem burguesa, muitas vezes, gerentes mais fanáticos que os tradicionais partidos da ordem.

Pense num sujeito brasileiro com 27 anos que milita a sete. Começou sua militância no movimento estudantil e teve que se deparar com todo tipo de escrotice praticada pela UJS, JPT e seus satélites. Teve o desprazer de ver entidades históricas de combate, como DCE’s, UEE’s e a própria UNE, transformadas em máquinas cartoriais que têm como único objetivo fazer dinheiro. Depois do movimento estudantil, esse sujeito, já mais ou menos desiludido, vai para o movimento sindical. Lá encontra seu sindicato dominado pelo CUT em associação com a CTB e a oposição é constituída pela Força Sindical. A raiva, repulsa e revolta desse sujeito “aos partidos” não é um imperativo categórico kantiano: é algo bem concreto com razões de ser. Ou seja, é algo compreensível, mas compreender não significa concordar.

Saber as razões históricas do desgaste e em muitos países do esgotamento de uma certa forma-partido, normalmente partidos socialdemocratas ultra aburguesados, não legitima ninguém, sem uma profunda e séria discussão teórica e demonstração de prática histórica, a descartar como inegavelmente maculada a forma-partido em si. Afinal, não deixamos de usar a medicina por causa de um médico ruim, ou de compreender a importância de sindicatos, associação de moradores ou movimentos sociais por causa dos trágicos exemplos que existem no mundo, como os casos aqui citados.

Alguém pode dizer que essa analogia é simplista. De fato, ela é. Porém, mas simplista ainda são os “argumentos” dos “sem partidos”. Das experiências que tive até agora, diria que em 95% dos casos, o que temos é uma negação emocional da forma-partido sem estar fundamentada em qualquer análise teórica e histórica minimamente séria e sem ter ao menos uma vaga ideia de uma proposta alternativa factível. Normalmente, e especialmente no movimento estudantil, a ideia é que o partido é essencialmente aparelhador e burocratizado, e tudo que ele toca é corrompido. No polo oposto o “partido dos independentes” seria a encarnação da virtude anti-aparelhadora, anti-burocrática e combativa. 

Creio que não é necessário refletir muito para perceber a falsidade dessa lógica. De início, a definição de partido político se reduz ao quem tem ou não registro no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e disputa eleição. Com um primarismo que mataria Antônio Gramsci se o fascismo (que também proibia os partidos políticos) já não o tivesse feito, os “independentes” não percebem que em várias situações eles agem como um partido: tem reuniões prévias a espaços, atuam em bloco como sujeito coletivo, constituem elementos de solidariedade de grupo, possuem concepções ideológicas, bandeiras, formas de ação e símbolos semelhantes e atuam criando antagonistas que se define por contraste com seu bloco. O “partido dos independentes” é muitas vezes mais leninista que muitos partidos leninistas. Além disso, cabe pontuar os exemplos paradigmáticos onde o “partido dos independentes” é na verdade um partido político sem registro no TSE e critica o “aparelhamento dos partidos” apenas como forma de legitimar o seu próprio aparelhamento, como no caso clássico da atuação do MEPR no movimento nacional de pedagogia.

Além disso, a turma dos “sem partido” raramente fazem uma reflexão séria sobre os limites de sua ação que de praxe, especialmente no M.E, toma a forma de coletivo com arco de atuação apenas local. Imagine que sou militante do M.E atuando num coletivo e estou brigando contra a precarização da assistência estudantil. Para garantir uma vitória duradoura em minha demanda preciso influir na política nacional de educação e na política econômica. A atuação local, embora fundamental, não é suficiente para reestruturar a política de assistência estudantil do país. Como garantir uma luta nacional fora da forma-partido com prioridade de atuação em coletivos locais ou aparelhos estudantis como D.A’s?

Outro elemento fundamental é a escala de atuação política. Vivemos numa sociedade burguesa onde o nível de precarização das relações de trabalho, monopolização da informação e da produção cultural e a sofisticação dos mecanismos de controle e repressão do Estado burguês exigem cada vez mais organizações com estruturas mais sólidas e robustas com capacidade material sempre crescente de agitação e propaganda e atuação. Ou dizendo de maneira mais simples: o partido político de massas tem ou busca ter um aparato de agitação e propaganda e ação forte com jornais distribuídos aos milhares, site, escolas de formação, núcleos de cultura, atuação cotidiana em diversos cantos do país etc. Como sem a forma-partido ou movimento sociais de grande porte, tal como MTST e MST que contém muitos elementos da forma-partido, vai se conseguir tal efeito?

Uma questão basilar a ser também refletida é que alguns espaços de militância, como luta pela terra e movimento sindical, sem um vigoroso e bem estruturado aparelho de militância, é impossível ou muito difícil conseguir conquistar qualquer coisa. Na luta pela terra é necessário capacidade de retirar militantes ameaçados de morte de territórios, garantir assessoria jurídica, estrutura de acampamentos, articulações de apoios para ocupação e o próprio mapeamento dos terrenos ocupados, capacidade de disputar o fundo público enfrentamento às burocracias do Estado etc. O mesmo para o movimento sindical. Só quem disputou uma eleição contra  CUT ou Força Sindical sabe como sem uma ampla cobertura – dinheiro, capacidade de rodar material, deslocamento de militância, proteção contra ameaças e atentados etc. – não é possível superar essas centrais em sindicatos, categorias ou até no Estado como um todo.

É raro, quase uma espécie em extinção, encontrar alguém no grupo dos “sem partido” que já tenha feito qualquer reflexão sobre alguns desses elementos. A coisa transita sempre no âmbito do discurso vazio e simplista e do binarismo: “partidários” como encarnação do mal vs “sem partido” como expressão da pureza. Como um bom apreciador que sou de debates teóricos e políticos, gostaria muito de refletir essas questões com algum defensor da necessidade de superar ou negar a forma-partido na luta pelo socialismo. Infelizmente, nunca tive oportunidade de conhecer nos meus cinco anos de militância alguém que faça esse debate com qualidade.

E se esse texto servir para alguma coisa, espero que quando surgir um debate sobre “com partido ou não”, essa discussão não seja um moralismo binário, mas uma séria reflexão sobre os objetivos imediatos e de longo prazo da luta, como realizá-los e a partir de que forma organizativa. É pedir demais? Com certeza, mas é isso: sou um partidário (uma confissão!) do bom debate.



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Lula e a política de alianças

Lula com os Calheiros em Alagoas
Num vídeo de pouco mais de nove minutos, Lula “explica” porquê precisa fazer alianças com Sarney, Renan Calheiros, Katia Abreu etc. No vídeo Lula usa dois argumentos fundamentais. O primeiro, citando a experiência do Partido Comunista Italiano (PCI), afirma que esse partido ficou eternamente preso nos 30% de votos e isso seria devido – raciocínio implícito – a política de alianças “estreita”, impedindo o partido de ser governo. O segundo argumento é que infelizmente, para governar e não necessariamente para ganhar a eleição, é preciso fazer alianças para ter maioria no Congresso, dado que os movimentos sociais, partidos políticos de esquerda e sindicato não conseguem fazer a maioria dos deputados e senadores. Nesse caso, Lula e o PT, são vítimas de uma insuficiente capacidade eleitoral da esquerda, e por isso, as alianças são necessárias. Perceba a falsidade dos argumentos.


A primeira coisa a ser dita é que a compreensão de Lula da história do PCI está errada. O PCI desde o final da segunda guerra até seu fim desenvolveu uma política de alianças bastante ampla – com o Partido Socialista e a esquerda católica – e paulatinamente foi rebaixando o programa e o horizonte de ação como forma de ampliar sua capacidade eleitoral. O PCI foi percursor do eurocomunismo e seu secretário-geral na época, Enrico Berlinguer, como forma de se mostrar responsável ao capital chegou a declarar que se “sentia mais protegido sob a OTAN que sob o Pacto de Varsóvia”. O PCI de tanto “ampliar” seu programa morreu transformando-se no Partido Democrata de Esquerda (uma espécie de PPS da Itália).


No segundo argumento é perceptível que Lula exclui do jogo político a intervenção sistemática das ruas (sindicatos, movimentos sociais etc.) no jogo institucional. Considerar não ser possível realizar um governo de esquerda sem maioria no Congresso é uma forma sutil de dizer: não tenho qualquer intenção de governar através de uma “governabilidade popular” sendo vetor de mobilização social constante contra o Congresso e o sistema político buscando aprovar as pautas de interesse dos trabalhadores. Em resumo, Lula finge que nunca existiu a experiência governativa de João Goulart e a luta pelas reformas de bases e as experiências do primeiro ciclo de prefeituras do PT. No último exemplo, o PT assumiu prefeituras com minoria nas assembleias – como em Porto Alegre – e usou as prefeituras como elemento dinâmico de mobilização dos movimentos sociais contra o legislativo, os monopólios de mídia, o judiciário etc. Ainda cabe pontuar a experiência do bolivarianismo venezuelano que na primeira eleição de Chávez estava em minoria parlamentar e mesmo assim, chamando o povo às ruas, e em longos combates, conseguiu reformar o sistema político e enfrentar o poder dos gerentes da política burguesa. A questão não é desconsiderar a “correlação de forças institucional” – ela existe e é bem real -, mas saber que luta de rua muda essa correlação. Mas Lula mantém a essência do petismo inalterada: só chamar o povo trabalhador para política em momentos eleitorais e nos demais realizar grandes acordões por cima.


Logo, Lula não é vítima de uma insuficiente capacidade eleitoral da esquerda, mas produto de uma opção política – cabe pontuar ainda como é trágico perceber que nesse ponto o Messias consegue ficar à direita de uma figura como Ciro Gomes. Até o ex-tucano defende que a capacidade de governar não se resume ao número de deputados e partidos na composição governamental.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Querelas do social-liberalismo: frente ampla ou frente popular?

duas expressões do social-liberalismo brasileiro
Está rodando na internet um debate entre Breno Altman (PT) e Aldo Arantes (PCdoB) sobre qual forma-movimento de atuação, na atual conjuntura, seria a mais adequada: a frente ampla ou a frente popular? Na polêmica entre os dois companheiros a diferença entre os conceitos é que a frente popular terá como baliza uma articulação estratégica das forças progressistas e pelas reformas estruturais (num sentido popular) e no enfrentamento ao golpismo; O critério de adesão a essa frente popular é a atitude em relação ao golpe e as contrarreformas neoliberais. Na visão do dirigente do PCdoB, a frente ampla não tem como norte a conquista de reformas estruturais populares – não há correlação de forças para isso, na visão de Aldo – e sim barrar os retrocessos sociais, democráticos e nacionais, numa espécie de resposta imediata, curto-prazista, à ofensiva “golpista” e nessa resposta, pactuar com setores do “campo golpista” seria sinal de inteligência política, pois enfraqueceria e isolaria mais o campo inimigo.

No âmbito dessa “polêmica” entre as duas expressões do social-liberalismo, devemos chamar atenção ao não dito, mas explícito, e que mostra o quanto as duas “alternativas”, são mais do mesmo. Primeiro, Breno e Aldo, pautam a política de alianças e as mediações táticas pelo calendário eleitoral de 2018. É tragicômico como os setores do campo democrático-popular veem outubro de 2018 como na próxima esquina. 2017 foi marcada por importantes jornadas de lutas e uma ascensão expressiva do movimento de massa – com protagonismo da juventude, num primeiro momento, e do movimento sindical, no segundo – nas resistências à ofensiva da burguesia. Essa ascensão de massa, infelizmente, sofreu um recuo, e deve ser dito com todas as letras que PT, PCdoB, CUT, CTB etc. estão entre os responsáveis por esse recuo com suas políticas de aliança, burocratismo e prioridade da “luta” parlamentar sobre a luta de rua – ninguém deve esquecer que depois do sucesso da greve geral de 28 de abril, CUT e CTB, no âmbito da reunião das centrais, defenderam uma jornada de “pressão parlamentar” (!!!) e na última greve geral que tivemos, em Recife, CUT e CTB apoiaram não fazer atos de rua (!!!).

O esperado de qualquer organização de esquerda realmente comprometida com o longo e imprescindível processo de rearmamento teórico, político e organizativo da classe trabalhadora é pensar como reativar a ascensão das lutas populares com foco na luta de massa através dos locais de estudo, moradia e trabalho. Dentre as várias lições que tivemos nos últimos meses, uma delas é que a “pressão parlamentar” é inútil para barrar qualquer uma das contrarreformas operadas pelo Governo Temer em aliança com o Congresso. No debate sobre tática entre Breno e Aldo, contudo, o recuo da luta de massa na cena política é fato dado – evidentemente, para quem almeja apenas voltar ao governo, manter Temer numa situação de extremo desgaste político e impopularidade, mas sem radicalidade dos explorados, é o melhor dos cenários possíveis.

Essa perspectiva se explica pelas campanhas eleitorais já em curso. Lula está em caravana pelo Nordeste. Haddad, a versão “fofa” do petismo, segue andando pelo Brasil, especialmente em universidades, divulgando as grandes “novidades teóricas” do patrimonialismo, ausência de republicanismo, “jeitinho brasileiro” e defendendo o legado de Lula. Ciro Gomes está em campanha há muito tempo e segue firme suas peregrinações neo-neo-desenvolvimentistas. Marina Silva, seguindo a tradição, segue morta politicamente e de vez em quando, na eleição, é ressuscitada para morrer na praia. Bolsonaro e Dória, cada um ao seu modo, buscam seduzir as diferentes frações da classe dominante e se apresentar como “o cara” do bloco no poder agora que Aécio e Alckmin estão numa situação no mínimo complicada.

Qual o papel da esquerda socialista nessa situação de “campanha eleitoral” de 12 meses? Bem, primeiro, é lutar contra essa tendência de reduzir o momento político de luta ao processo eleitoral e ao mesmo tempo, promover uma politização do debate, apontando para as questões estruturais, combatendo ilusões institucionalistas, tratar do aprofundamento da dependência e do subdesenvolvimento etc. Em suma, colocar a “grande política” – no sentido gramsciano – em seu protagonismo devido.

O leitor desse texto deve se perguntar nesse momento: mas Jones, Breno Altman, ao falar de “reformas estruturais” não defende a mesma coisa que você? Na realidade, Aldo e Breno, tal como os alemães que Marx e Engels combateram em tempos longínquos, substituem a realidade pela ideia. Lula, poucos dias atrás, declarou que não pretende reverter todas as contrarreformas aprovadas no Governo Temer e condicionou essa luta ao peso no Congresso de seu futuro governo – ou seja, de pronto, a luta pela anulação das contrarreformas não tem nada a ver com a “rua” e fica restrita apenas ao Congresso, onde, provavelmente, um possível Governo Lula passará longe de ter a maioria.

Depois Lula e Dilma, em visita ao Tocantins, anunciam o apoio do PT à senadora Katia Abreu para o cargo de governadora do estado. Em seguida, Lula em sua caravana pelo Nordeste deixar praticamente fechado sua aliança com o PMDB de Alagoas da Família Calheiros e o PMDB de Sergipe. Ainda falando da caravana de Lula, o ex-presidente e atual presidencial, não vem defendendo nenhuma “reforma estrutural” e muito menos colocando ênfase na reversão nas propostas aprovadas pelo bloco Temer-Congresso: o centro do discurso de Lula é comparar o atual governo com o seu, destacar “seus feitos” e propor a volta do “projeto” que guiou o país entre 2003-2010. Onde está o mínimo sinal de frente popular? Única e exclusivamente na cabeça de Breno Altman – aliás, Ciro Gomes está conseguindo ficar à esquerda de Lula na sua campanha.

Aldo, evidentemente, também sabe disso. Esse simulacro de debate tático esconde o essencial: a única coisa que o petismo oferece é uma reedição do “ciclo Lula” na presidência. Podemos, didaticamente, dizer que existe três características essenciais do petismo (que inclui o PCdoB) no período de governo: a) desmobilização total das bases sociais (com consequente burocratização e cooptação para o aparato do Estado) e adequação ao modus operante do sistema político burguês; b) manutenção e promoção de todos os interesses fundamentais das frações do capital e busca de “ganhos” aos de baixo sem enfrentar esses interesses; c) Gestão do desenvolvimento capitalista “humanizado” como horizonte intransponível de ação política. A consequência desses três elementos é operar um projeto político que promete produzir ganhos para todos, mas, as condições internacionais favoráveis de 2003-2008 (alta do preço das matérias primas e crédito abundante no mercado mundial) não existem mais e ainda temos a vigência da PEC do FIM DO MUNDO, crise econômica mundial, altíssimo endividamento das famílias, desmonte de estatais importantes, estrangulamento das finanças do estado, retirada de direitos trabalhistas em ritmo acelerado etc.

Lula, PT (em suas tendências hegemônicas, quem realmente manda no partido), PCdoB e cia não consideram abandonar nenhum desses três pilares do petismo no governo. Ao contrário. A maior prova disso, é o dirigente do PCdoB, no seu texto, afirmar com todas as letras a necessidade de alianças com partidos da ordem – a consequência desse tipo de aliança, por suposto, é manter todos e cada dos interesses burgueses que esses partidos defendem, evitar qualquer radicalismo político e manter inalterado a lógica de funcionamento do sistema político burguês.


O debate sobre frente ampla e frente popular é uma querela cosmética que não considera a necessidade de superar a estratégia derrotada totalmente em 2016. Todo e qualquer socialista sério, caso queria realmente reverter todos os ataques do bloco Temer-Congresso e em breve passar à ofensiva, deve ter como norte fundamental o seguinte: como rearmar a classe trabalhadora desde um ponto de vista teórico, político e organizativo a partir e através da luta de massa com independência de classe e com horizonte socialista? Tendo esse fio condutor, as mediações táticas em cada cena política, são pensadas de forma coerente e sistemáticas, não considerando a eleição como o “momento do vale tudo”. Fora disso, temos mais do velho-novo-desenvolvimentismo. 


Confere os textos de Breno e Aldo aqui: http://operamundi.uol.com.br/brenoaltman/2017/08/18/frente-ampla-ou-frente-popular/#.WZbqrpyEPFo.facebook
http://www.m.vermelho.org.br/noticia/300982-1