terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O preço do republicanismo ingênuo - o caso da Polícia Federal

símbolo da PF
Nos últimos anos da política brasileira, a Polícia Federal (PF) está no centro dos holofotes. Protagonista de grandes operações policiais de ampla cobertura midiática e ator político central desde o golpe jurídico-parlamentar que destituiu a presidenta Dilma, as ações da PF ganham novos ares de controvérsia com sua ofensiva contra as universidades públicas. Primeiro, na Universidade Federal de Santa Catarina, realizou uma operação policial extravagante com base em provas duvidosas que teve como resultado o suicídio do ex-reitor desmoralizado publicamente (o ex-reitor sofreu o mesmo tratamento que as milhares de vítimas diárias do aparato repressivo do Estado burguês).

Recentemente foi a vez da Universidade Federal de Minas Gerais ser alvo de uma operação igualmente espetaculosa com ares de operação de guerra e com base em provas também frágeis para dizer o mínimo (isso considerando, é claro, as provas até agora apresentadas). O sentido político das ações da PF é bastante evidente: desmoralizar as universidades públicas taxando-as como antros de corrupção num momento de brutal ofensiva contra essas instituições por parte do Governo Federal com intento de realizar privatizações em benefício dos grandes monopólios da educação.

Se o sentido político das iniciativas da PF é bastante evidentemente, o processo histórico e político de sua subida ao primeiro plano do aparato do Estado, ao ponto de ter um papel central no golpe de 2016, é bem menos conhecido. Aliás, a partir de 2016, como que um despertar de um sono profundo, as organizações do campo democrático-popular, especialmente o PT e a Consulta Popular, passam a relembrar a existência do... imperialismo. Como durante anos o termo/conceito imperialismo era proibido, preferindo ideologias como “cenário internacional” ou “atores globais”, o processo de transformação da PF num aparelho com amplas ramificações com o Estados Unidos simplesmente não foi debatido como um problema e combatido.

Nosso objetivo nesse texto não é traçar um amplo histórico da estruturação da PF e buscar explicar, ainda que minimamente, como e por que ela tomou esse papel no aparato do Estado na atual cena política. Buscamos algo bem menos ousado: queremos tão somente lembrar dos sinais gritantes de interferência/controle do imperialismo estadunidense sobre a PF nos anos dos governos petistas e como esse processo foi ignorado a partir da ideologia do republicanismo ingênuo que dominou os setores majoritários da esquerda brasileira nos últimos anos – e que mostra uma incrível persistência.

O PT, ainda antes de chegar ao governo, embora esse processo tenha se acelerado com a primeira vitória de Lula, abandonou o marxismo e o socialismo como referência estratégica e concepção de mundo. Luta de classe, imperialismo, relações de produção, superexploração da força de trabalho, Estado burguês e outros conceitos críticos foram trocados pelas ideologias da moda.

As mudanças que se verificam não se operam aleatoriamente, mas no sentido de recolocar a consciência que se emancipava de volta nos trilhos da ideologia. Não é, em absoluto, certas palavras-chaves vão substituindo, pouco a pouco, alguns dos termos centrais das formulações: ruptura revolucionária por rupturas, depois por democratização radical, depois por democratização e finalmente chegamos aos “alargamento das esferas de consenso”; socialismo por socialismo democrático, depois por democracia sem socialismo; socialização dos meios de produção por um controle social do mercado; classe trabalhadora, por trabalhadores, por povo, por cidadãos; e eis que palavras como revolução, socialismo, capitalismo, classes, vão dando lugar cada vez mais marcante para democracia, liberdade, igualdade, justiça, cidadania, desenvolvimento com distribuição de renda. A consciência só expressa em sua reacomodação no universo ideológico burguês, nas relações sociais dominantes convertidas em ideias, a acomodação de fato que se operava no ser mesmo da classe no interior destas relações por meio da reestruturação produtiva e o momento geral de defensiva na dinâmica da luta de classe [1]

Nesse processo o PT adotou o republicanismo ingênuo como mote ideológico de ação e prática. O republicanismo ingênuo é a ideologia que afirma existir o funcionamento de um Estado pautado nos interesses públicos sem contaminações privatistas onde as instituições desse Estado atuam em equilibro na divisão de poderes e competências baseadas em critérios técnicos e legais e que os agentes, isto é, os sujeitos dessas instituições, devem pautar-se pela isonomia e neutralidade político-ideológica – normalmente os países centrais do capitalismo, como os EUA, são apontados como o exemplo de republicanismo, e o Brasil, pobre diabo, sofre porque ainda não conseguiu chegar lá por culpa do patrimonialismo, populismo, nacionalismo ou qualquer outra invenção da ideologia dominante.

Nos anos do petismo, enquanto projeto de conciliação de classe e gestão da ordem, todas as medidas de aprofundamento da dependência e da dominação imperialista legadas pelos governos anteriores foram mantidas e/ou aprofundadas. Na questão da PF a tônica não foi diferente. Segundo reportagem do Jornal Folha de São Paulo, aparelho ideológico insuspeito de “esquerdismo”, em 2004 (primeiro Governo Lula) a CIA participou da Operação Vampiro da PF que “desmantelou uma quadrilha que atuava em fraudes contra o Ministério da Saúde na compra de medicamentos” [2].

A participação da CIA junto a PF nessa operação não foi um raio em céu azul. Mantendo a tradição legada por FHC, a CIA, DEA e FBI, continuaram podendo atuar livremente no Brasil nos anos do PT e estabelecer várias “parcerias” com a PF. Em 7 de janeiro de 2003, segundo o jornal Estadão, causava polêmica entre os policiais federais o valor de 10 milhões de reais vindos dos EUA para a PF, metade repassado pela DEA (o único critério seria usar esse dinheiro no combate às drogas que teriam os EUA como destino). O presidente na época da Federação Nacional de Policiais Federais (Fenapef), Francisco Garisto, afirmou ao Estadão que é “um dinheiro maldito que causa muita discórdia na PF” [3].

Aparentemente, a “discórdia” não impediu a continuidade das parcerias. Em 2010 (primeiro governo Dilma) foi formalizado um acordo entre PF e Embaixada dos EUA no Brasil. O “acordo”, na época, foi duramente criticado por Walter Maierovitch (jurista e ex-secretário nacional antidrogas). Segundo Maierovitch – personalidade insuspeita de falta de simpatia com o petismo -, “Opinei pela não oficialização do convênio, em relação às drogas, porque era um acobertamento para a espionagem desenfreada, sem limites” [4]. Ainda em 2010, Alexandre Ferreira, presidente da Fenapef, afirmou “O que mais tem é americano travestido de diplomata fazendo investigação no Brasil”.

Ainda segundo a reportagem da Folha de São Paulo que estamos citando, cinco bases da PF funcionam no combate ao terrorismo (uma ameaça iminente ao Brasil, não é mesmo?!): Rio, São Paulo, Foz do Iguaçu e São Gabriel da Cachoeira. Todas contam com tecnologia e equipamentos da CIA e há “agentes americanos atuando em parceria com os brasileiros” – uma pesquisa rápida no google mostra que era tema de conhecimento nacional divulgado em praticamente todos os jornais da grande mídia que agentes da CIA atuavam livremente e sem qualquer controle no Brasil.

As denúncias reveladas por Edward Snowden não foram suficientes para a presidente Dilma tomar uma postura concreta contra a livre ações dos órgãos do imperialismo. Além de um discurso firme, nenhuma medida concreta, muito menos revogar todas as parcerias da embaixada dos EUA com a PF, foi tomada. O Governo brasileiro aceitou a espionagem da CIA e NSA como um fato e parecia lamentar, apenas, a descoberta pública. Foram mais de 13 anos de petismo e absolutamente nenhum combate à interferência dos EUA em aparelhos repressivos estratégicos como a PF.

Durante todos esses anos o petismo sustentou um discurso ingênuo baseado num republicanismo vira-lata de que agora a PF tinha autonomia para atuar e a política não interferia nas suas operações. Citando sempre as ações do Governo FHC para impedir investigações (denúncia verdadeira), o petismo orgulhava-se da finalmente conquistada “autonomia profissional” da PF. A situação ficou constrangedora quando a PF, aquela finalmente profissionalizada, passou a ser um claro instrumento de derrubada do PT do governo: nesse momento, e só nesse, as vozes petistas lembraram-se de indagar sobre as forças políticas presentes no seio da PF – era tarde.

Se essa conjuntura valer de algo, creio que a primeira coisa deve ser destruir de vez todas as ilusões do republicanismo ingênuo. Nenhuma instituição é neutra e técnica destituída de sentido político e de disputas políticas em seu seio. Na política não existe espaço vazio. Resta, nesse momento, além de combater as ações policialescas da PF, tentar o mais rápido possível entender no que a instituição se transformou nesses últimos anos e a quais interesses [e como] responde.


[1] - Mauro Luis Iasi. As metamorfose da consciência de classe – o PT entre a negação e o consentimento. Expressão Popular.
[1] – http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/09/1342289-agentes-da-cia-conseguem-atuar-livremente-no-brasil.shtml
[2] – http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,policial-confirma-que-pf-recebe-dinheiro-da-cia-e-fbi,20040413p12606
[4] - http://www.apn.org.br/w3/index.php/america-latina-brasil/5828-policia-federal-da-cobertura-espioes-da-cia-no-brasil


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Quem conhece Sverdlov? Reflexão sobre o que é ser um bom militante

Escrito em homenagem ao meu camarada Paulo, o Sverdlov de Pernambuco!

a criação de uma digital influencer
O francês Louis Althusser, em famosa polêmica com o hoje esquecido John Lewis, afirmou que “as massas fazem a história”. O debate entre Althusser e Lewis, dentre outros aspectos, abordou o papel do sujeito na história. Criticado por seu estruturalismo, que só analisava a eficácia das estruturas sobre os processos, o filósofo francês criou uma interessante (embora confusa e problemática) teoria da história, onde o agir histórico ou -usando um termo clássico da sociologia da ordem- a mudança social, era produto das massas em sua atuação política. Embora discordando de Althusser na formulação teórica e no seu significado político, um aspecto desse debate muito me agrada: a tentativa de fundamentar uma teoria da história, e consequentemente uma historiografia, onde o sujeito coletivo, e não as grandes personalidades, é o único protagonista. 

Na produção teórica do conhecimento histórico, no jornalismo, no cinema, teatro... Enfim, nas artes de uma forma geral, e até em nosso cotidiano, tendemos sempre buscar o protagonista dos processos. A imprensa na cobertura de uma greve ou manifestação, não consegue conceber uma dinâmica coletiva que não tenha um líder no papel de personificação-direção do movimento. Nas artes, há sempre um protagonista e uma série de personagens secundários que existem para dar sentido à história daquele que é realmente importante.

Mesmo na historiografia de esquerda, pioneira de uma história social centrada no fazer-se da classe trabalhadora e dos explorados numa maneira geral (lembrem-se, por exemplo, do clássico “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra” de Engels), buscamos de maneira viciante entender a personalidade, a história, as teorias etc. dos líderes. Um bom exemplo é que ao falar de revolução russa, sabemos mais sobre Lênin, Trotski e Stálin que acerca do modo como os camponeses, soldados e operários se organizaram e atuaram no processo da revolução.

Essa tendência é um reflexo próprio das formas sociais burguesas. Portanto, não é apenas um erro ideológico que será sanado quando a orientação teórica correta for suficientemente consagrada e dominar o campo intelectual. Pois, enquanto produto indissociável do ser social burguês (nos limites desse texto, não é o espaço de desenvolver as bases teóricas da relação de determinação entre ser social burguês e essa particular forma de consciência), tal tendência será sempre uma constante nas formas ideológicas vivenciadas. Contudo, essa dimensão ontológica da questão não deve nos furtar o empenho na compreensão do problema e formulação de estratégias para combatê-lo.

Sem qualquer pretensão de esgotar o tema nessa curta e assistemática reflexão, gostaria de delinear alguns pontos.  Primeiro, o papel da internet na potencialização dessa tendência de idolatria das grandes personalidades. Ao falar da internet refletindo sobre a política, o tema corrente é a função das redes na batalha das ideias ou a utopia, hoje em baixa, de que a internet seria o paraíso prometido da democracia direta e do “controle social”. Um tema pouco abordado é como a internet criou uma dinâmica de projetar personalidades formadoras de opinião política, seres dotados de uma forte influência sem qualquer base social de militância e atuação real.

Com um conhecimento razoável de comunicação e marketing, através da produção de bons textos e vídeos -no sentido da facilidade de leitura e capacidade de diálogo com vários tipos de público- atrelada a outros elementos, a exemplo da sorte, é possível tornar-se uma referência em vários setores da esquerda atual sem nunca ter pisado no movimento estudantil, sindical, comunitário, cultural ou camponês. Vamos tentar visualizar isso através de um exemplo hipotético.

Imagine uma figura que passe a publicar os típicos “textões de lacração” no facebook acerca do feminismo e racismo. Essa mesma pessoa começa a receber atenção acima do comum e transforma seu perfil numa página alvo de muitos acessos e seguidores. Percebendo tal dinâmica, logo passa a comentar, de mesmo modo superficial, todo tema genérico em destaque no momento, enquanto sua visibilidade cresce num ritmo cada vez mais acelerado. Consequentemente, acaba sendo convidada para várias mesas e palestras; a partir disso, já como um ícone, vira colunista de revistas e blogs de esquerda. Por fim, coroa sua carreira de “militância” assumindo cargos públicos – como alguma secretaria num governo social-liberal. Assim, temos a referência política criada sem qualquer lastro de atuação coletiva e o famoso “trabalho de base”.

Essa tendência à consagração de referências políticas através da internet, sem uma base real do exercício coletivo, influencia a militância das pessoas organizadas (especialmente os jovens). A busca por ser o formulador teórico, a personalidade pública, a pessoa que fala nos atos e assembleias, acaba configurando ao militante uma função autônoma frente ao necessário: a figura pública de uma organização como apenas o militante destacado para verbalizar e defender em situações de massa o programa político da organização. De modo contrário, a figura pública projeta-se como sinônimo de status, prestígio, reconhecimento e, nos setores moderados ou social-liberais da esquerda, fonte de muito dinheiro.

Esse tipo de “cultura política” sempre tende a ver o bom militante como a figura pública. Desse modo, especialmente na juventude, coisas estranhas se consolidam: como o sujeito se preocupar mais com a interação em polêmicas de visibilidade nas redes sociais, que nos seus espaços cotidianos. Tal prática política, além de ser porta aberta para carreirismo de todos os tipos, estimula formas de consciência burguesa individualista e hedonista, fomentando uma militância crivada de desvios liberais onde o mais importante não é atuar de acordo com a tática coletiva, mas estar nos espaços com mais visibilidade.

Ser bom militante é tomado como sinônimo de ser famoso e figura pública. Essa concepção totalmente errada do que é ser um bom militante, além de reproduzir uma forma de consciência burguesa da história feita pelas grandes personalidades, acaba tomando uma compreensão errada (diria mais: horrível) da dinâmica de funcionamento de uma organização comunista.

O título desse texto é “Quem conhece Sverdlov?” Referindo-se ao grande revolucionário bolchevique Iakov Mikailovich Sverdlov, que foi um dos homens fortes do partido, considerado por todos um organizador brilhante. Lênin, em telegrama enviado a Zinoviev em 1918, questionava se Bukharin e Sverdlov estariam prontos para assumir o partido caso ele e Trotski morressem. Sverdlov é o tipo de homem que não aparece com foco nos livros de história. Não foi um teórico que deixou livros e mais livros, não tinha como característica ser um grande orador público e estava longe de ser uma figura carismática. Entretanto, foi o tipo de comunista que organizava o partido, garantia seu funcionamento, recrutava trabalhadores, montava sindicatos, garantia a operacionalização do jornal, cuidava do fluxo de caixa das finanças etc. É como se o partido fosse um time de futebol: todas as atenções estão voltadas para os meio-campo e atacantes, mas sem uma boa zaga, nada funciona e nenhum título é ganho.

São as qualidades essenciais, mas que não trazem glamour e fama, como disciplina na cotização militante, comparecimento assíduo nas reuniões de núcleo, feitura das atividades, atuação prática no seu local de inserção, acompanhamento sistemático da linha política da organização etc. que constituem um bom militante. Todo militante comunista para ser um bom comunista deve ter um pouco de Sverdlov. Isso não significa, é claro, negar a divisão de tarefas. Alguns serão figuras públicas, outros têm mais um perfil de formulação teórica, outros são agitadores de massa, outros dirigentes de entidades de massa, outros grandes organizadores, entre outras funções. A divisão e especialização de tarefas é um princípio leninista plenamente correto.

Contudo, um princípio – também leninista – nos ensina que todo militante deve se esforçar para sempre melhorar o máximo possível a disciplina interna na construção de sua organização enquanto um operador político revolucionário. Essa construção faz-se no dia a dia, cumprindo o fundamental. Uma organização onde a maioria dos seus militantes cumprem o básico – cotização, regularidade das atividades, bom fluxo de informações, garantia das instâncias e demais atividades – cria as condições para realizar o extraordinário. Fazer o básico é revolucionário!

Todos os debates sobre a grande política, a estratégia revolucionária, se não estão aparados numa atuação cotidiana na base – seja na universidade, no sindicato, na associação de moradores, no coletivo cultural e assim por diante – tornam-se debates escolásticos, controvérsia de intelectual pedante que disputa para ver quem vende mais livros. A estratégia revolucionária terá base de massa com lastro de organização social. Não é uma livre disputa de ideias onde a estratégia com melhores argumentos será a vencedora. Estar nas entidades de massa, fazer política de massa, é o que garante uma real capilaridade social da estratégia.

Essa capilaridade social é a síntese da atuação de milhares de núcleos de base em diversas frentes, onde os militantes realizam o básico de sua atuação política. Ou seja, a fito de exemplo, mais vale 100 militantes atuando organicamente nas suas entidades sindicais que 200 digital influencer com peso midiático compondo debates superficiais na internet – eu não quero, evidentemente, afirmar que a agitação e propaganda nas redes não são importantes; o foco do debate em questão é outro.

O resumo do debate é que o militante, para construir um projeto revolucionário, deve combater o culto das grandes personalidades e as ideias equivocadas de que ser “bom militante” significa ser uma grande figura pública. O bom militante é aquele que é organizado, disciplinado, atuante e dedicado na função que cumpre, trabalhando como uma célula viva da organização. O bom militante busca não ser o Lênin da revolução, mas sim inspirar-se no exemplo de Sverdlov e entender que a nossa missão não é entrar para história e almejar estátuas próprias erguidas, mas criar as condições para que as massas façam sua história!


“”Há homens, chefes do proletariado, dos quais pouco se fala na imprensa, talvez porque eles mesmos não gostem que se fale sobre a sua pessoa, mas que são, não obstante, seiva vital e verdadeiros dirigentes do movimento revolucionário.  Sverdlov era um desses chefes. Organizador até a medula, organizador por natureza, por hábito, por educação revolucionária, por instinto, organizador por toda a sua fervorosa atividade: tal é a figura de Sverdlov”” -- Josef Stálin, 1924

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A "grande fome" na Ucrânia (Holodomor): um dos maiores mitos do século XX

marcha neonazista na Ucrânia, foto de 2016
Os aparelhos ideológicos e intelectuais da burguesia estão em trabalho frenético para nos 100 anos da Revolução Russa difamar como podem a primeira experiência de poder operário consolidada da história - não sem contribuição fundamental, como sempre, de setores expressivos da esquerda. Um dos maiores mitos, isto é, uma construção historiográfica sem qualquer base factual e referencial em pesquisa histórica séria, mas que se sustenta de acordo com sua função política-ideológica na luta de classes, é a da grande fome ucraniana ou Holodomor. É afirmado que o Estado soviético através de uma política de fome planejada operou o extermínio de 6 ou 10 milhões (o número depende do grau de anticomunismo do autor) de ucranianos numa quadro de opressão nacional. Evidentemente, esse suposto episódio serve para equiparar o socialismo soviético com o nazismo: os ucranianos teriam sido o equivalente aos judeus no Holocausto e como “mito fundador” dos grupos neonazistas atualmente no poder na Ucrânia. Vejamos com breves comentários como esse mito não tem qualquer base factual.


- Os documentos secretos da alta administração e dos serviços de inteligência dos EUA, França, Inglaterra e Itália já estão disponíveis há anos para consulta e pesquisa. Nenhum desses país, nos seus documentos da época, retrata uma política de fome provocada em escala industrial tendo como resultado o extermínio de milhões. Nenhum! Na época do alegado auge da fome, ou seja, em 1932-1933, existia uma grande guerra pelo poder no seio do PCUS (Partido Comunista da URSS) e ninguém da oposição ao grupo majoritário, Leon Trotski há frente, fala de qualquer genocídio na Ucrânia. Os grandes jornais burgueses da época, como The Economist, também não citam esse suposto episódio. Também não existe fotos e registros desse "extermínio em massa" - Robert Conquest, historiador ligado a CIA e um dos grandes defensores da existência do "Holodomor", não apresenta qualquer prova material desse suposto massacre. Será esse episódio o primeiro da história da humanidade onde supostamente uma grande máquina industrial de genocídio em massa foi montado sem que ninguém - inclusive os serviços secretos dos países mais poderosos do mundo! - tenha tomado conhecimento (compare, por exemplo, com o número de provas que temos da existência do Holocausto).


- Entre 1931-32 houve sim uma redução da oferta de alimentos com aumento da fome, mas não uma escalada industrial de fome matando milhões. As duas principais razões que explicam essa redução de alimentos são de ordem econômica-climática e sociopolítica. A URSS, no período 1930-33, ainda não tinha operado sua industrialização, desenvolvimento tecnológico e se recuperado totalmente dos estragos da Primeira Guerra Mundial e da Guerra Civil. Os eventos naturais acabavam tendo um impacto muito maior. Tivemos em 1932 uma seca catastrófica que reduziu e muito a produtividade das colheitas e havia um intenso e forte conflito político entre o Estado soviético e os camponeses ricos em luta contra a coletivização da agricultura; nesse confronto, como forma de resistência, muitos camponeses ricos queimavam colheitas e matavam animais, o que reduziu a oferta de alimentos. A questão, contudo, é que essa fome não atingiu especialmente a Ucrânia, mas foi algo de todo território soviético, e no segundo semestre de 1933, como mostra qualquer pesquisa básica, a colheita teve alta produtividade e os efeitos mais noviços da fome já tinham sido contornados. Basta estudar a história da agricultura soviética para ver que na época (1933) que os anticomunistas dizem que milhões estavam morrendo por fome tínhamos uma das melhores colheitas da história soviética depois da Primeira Guerra – qualquer pesquisa demográfica básica também mostraram um crescimento populacional soviético nos anos 30. Como se imagina um crescimento populacional com a suposta morte de 6, 10 ou 20 milhões de pessoas?


- Os “nacionalistas” ucranianos e os historiadores anticomunistas que defendem a existência do “Holodomor” como símbolo de “resistência nacional” gostam de esconder que o grande promotor da suposta existência de uma opressão nacional soviética sobre a Ucrânia nos anos 30 foi a Alemanha Nazista. Devido a posição estratégica de Kiev, seus recursos naturais e a fertilidade de sua terra, era central para o Reich em seus planos de guerra conquistar essa região. Para isso o nazismo buscou criar uma associação com os “nacionalistas” visando combater o socialismo soviético. É notório a colaboração dos grupos independentistas ucranianos com os nazistas. Nos anos 60 em diante, com foco maior nos anos 90, a lenda da opressão nacional contra a Ucrânia ganhou cada vez mais peso, ocultando, é claro, as origens nazistas da difusão desse mito histórico – hoje os liberais e conservadores de toda ordem com ajuda não desprezível de setores da esquerda continuam o “trabalho” dos nazistas.


- No Brasil, como vivo dizendo, o melhor da historiografia soviética simplesmente não chega – e é curioso que quanto maior é nossa ignorância da história soviética mais organizações e militantes gostam de colocar-se como entendedores dessa realidade. Os trabalhos dos especialistas em história soviética R.W. Davies e S. Wheatcroft simplesmente não são traduzidos para o português e não causam qualquer repercussão nas universidades brasileiras. O mesmo pode ser dito das pesquisas da historiadora francesa Annie Lacroix-Riz. Esses três historiadores citados, em suas pesquisas, derrubam os mitos em torno de um suposto “Holodomor”. O único trabalho bom que conheço traduzido para o português que mostra a completa falsidade da história do “Holodomor” é o livro do Domenico Losurdo “Stálin – uma história crítica de uma lenda negra”. No meio da ignorância e da preguiça o anticomunismo prospera fácil – inclusive, nessa “nova historiografia” sobre a União Soviética, a questão da fome nos anos 30 é produto de grande controvérsia e debates muito ricos, porém, esses debates também não chegam ao Brasil.  


- Por fim, mas não menos importante, é interessante mostrar como os historiadores que falam em “grande fome ucraniana” fazem seus cálculos do número de mortos. O francês Alain Blum defende que o “Holodomor” provocou 6 milhões de mortes. Como ele chega a esse cálculo? A URSS só realizou sensos gerais em todas as repúblicas em 1926 e 1939. A partir disso o sujeito compara o resultado do senso de 1926 e 1939 para a região da Ucrânia e o “déficit demográfico” é considerado automaticamente como o correspondente ao número de mortos. Blum desconsiderou, é claro, questões básicas como a gigantesca migração ocasionadas pelo crescimento das cidades e a industrialização acelerada. Para se ter uma ideia da lógica do procedimento. É como eu comparar o crescimento demográfico de São Paulo e do interior de Pernambuco entre os anos 50 e 60. Pelas migrações e a própria dinâmica de vários fatores (como menor mortalidade infantil em SP) a população cresceu mais em SP que no interior de PE; aí eu pego os números de “déficit demográfico” de PE em relação a SP e transformo sem qualquer prova em número de mortes. Preciso falar o quanto esse tipo de procedimento não é sério?


Por tudo isso, reafirmo: o “Holodomor” é um dos maiores mitos historiográficos do século XX sem qualquer base factual e seus defensores não consegue articular os critérios básicos de uma pesquisa histórica séria.


Ao seu publicado no Facebook, esse texto gerou intensa polêmica e um rico debate com várias contribuições. Quem quiser conferir o debate está aqui: https://www.facebook.com/jones.makaveli/posts/1361305447311143?notif_id=1509315931737917&notif_t=like



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A organização leninista e a Revolução Brasileira: apontamentos contra um senso comum

protesto do KKE
Recentemente, assisti todos os vídeos do seminário da Boitempo sobre os 100 anos da Revolução Russa. Nos vídeos, alguns bons e outros horríveis, um dos elementos bastante presente, foi a crítica a concepção leninista de partido. Adjetivos como “ultrapassado”, “mecânico”, “superado” etc. foram muito evocados nessas críticas. No mais das vezes, a concepção leninista de partido era resumido à questão do centralismo-democrático – sempre dito como essencialmente autoritário. Em nenhuma das “críticas” foi minimamente debatido algo central: o que é a concepção leninista de partido que se pretende superada?

Nos próximos meses, se o tempo não me faltar, pretendo escrever uma série de reflexões sobre a questão organizativa e a luta política nas condições concretas da realidade brasileira. Como uma espécie de introdução, e uma exposição mais geral de algumas ideias, buscarei nessas linhas mostrar, ainda que basicamente, o que é a concepção leninista de partido e porque ela é atual como forma-organizativa do operador político da Revolução Brasileira. Esse texto, como uma introdução geral e na forma de ensaio, não recorrerá a referências, citações e confrontações com outros autores; isso será feito nos próximos escritos. Tomem essas linhas como um início de um debate mais amplo.

Ano passado, no acampamento de formação política da UJC, tive a responsabilidade de falar sobre a estratégia socialista defendida pelo PCB. Nas perguntas um camarada me questionou se a concepção leninista de partido, formulada nas condições específicas e históricas da Rússia, era atual para o Brasil de 2016. A minha resposta assim se delineou.

Primeiro, o partido político em Lênin é um produto histórico, organizativo e político de uma compreensão da dinâmica da sociedade capitalista em cada realidade nacional – sem nunca perder de vista o processo mundial de acumulação capitalista – visando a conquista do poder. Logo, a primeira coisa a ser dita, é que antes de escrever sobre a teoria do partido, Lênin analisou o capitalismo russo (seu famoso livro “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia) e as condições da luta de classe naquela situação histórica. Ao compreender a dinâmica das classes em luta em seus aspectos econômicos, políticos, sociais, culturais e organizativos, é que a forma-partido expressa no clássico “Que Fazer?” foi materializada. O pressuposto de toda reflexão é que essa forma-partido tem como objetivo último, estratégico, tomar o poder político para realizar a transição socialista. O partido não substitui a classe, ele é a classe (isso não significa, em absoluto, unipartidarismo, o plural aqui pode ser usado sem problemas) em sua ação revolucionária.

Analisar concretamente a situação política e formar uma organização que consiga dentro dessa situação concreta atuar como operador político revolucionário dos explorados e oprimidos. Em poucas palavras, essa é a concepção leninista de partido! Não é preciso dizer que essa “definição” opera numa altíssimo nível de abstração e que a concretização das formas organizativas, em cada realidade e momento histórico, é variada, mas, ao mesmo tempo, há elementos de universalidade na obra de Lênin que se mantém atuais até hoje e enquanto existir capitalismo, assim vão se manter. Nesse ponto, me parece, é necessário uma explicação teórico-metodológica melhor.

Marx, ao escrever o Capital, procurou apreender a dinâmica da sociedade capitalista. O fundador do materialismo-histórico não analisou o capitalismo inglês, mas tomou essa formação social como concreção histórica da universalidade da acumulação capitalista. A partir de O Capital temos uma crítica da economia política que desnuda os meandros da lógica do capital. Contudo, só com a obra de Marx não é possível, por exemplo, compreender em sua riqueza de determinações a acumulação capitalista na América Latina. É necessário percorrer um nível de abstração menor saturando de determinações o objetivo de estudo até reconstruir o concreto como um todo pensado. Em poucas palavras: só com Marx não se entende a América Latina, mas sem ele muito menos. Nesse sentido, a Teoria Marxista da Dependência, é a crítica da economia política da acumulação capitalista dependente que não nega O Capital de Marx, mas, é a continuidade da análise em níveis de abstração menor dentro de um processo de concretização histórica maior.

Voltando à concepção leninista de partido. A despeito da gigantesca variedade de dinâmicas de classe, correlação de forças, formas-políticas e processos organizativos das classes em luta, há na reflexão leninista sobre o partido elementos de universalidades sempre atuais, mas essas universalidades, ao tomar a forma organizativa particular, isto é, concreção histórica, não são engessadas ou mecânicas. Vamos começar com os exemplos que, a partir da ilustração, as ideias devem ficar de mais fácil compreensão.

Um dos elementos de universalidade da concepção leninista de Partido é que a institucionalidade burguesa, a despeito de seu nível maior ou menor de democratização, tem como essência a conservação da ordem burguesa. O Estado burguês e seu sistema político são sempre a materialização das relações de produção dominantes. Isso significa que o partido que busca se constituir enquanto operador político revolucionário não deve ser nunca um gestor da ordem burguesa, mas ser o instrumento de destruição dessas estruturas de poder buscando a criação do poder popular ou Estado proletário. Como isso se expressará em cada conjuntura? Tal questão não é um dado a priori. Se o partido revolucionário irá ou não participar das eleições, que peso jogará, sua prioridade de atuação tática será o legislativo ou o executivo etc. é uma questão de conjuntura política e não de estratégia. O que é estratégico, e universal, é que o Partido revolucionário, para ser revolucionário, não será um gestor da ordem, mas seu antagonista por essência – Lênin, no seu clássico “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, explicou de maneira suficientemente clara, que o partido revolucionário não nega por princípio a atuação parlamentar, mas nega ser um partido parlamentar.

Não ser um partido da ordem, isto é, atuar no sistema político não sendo orgânico ao sistema político, pressupõe a organização revolucionária desenvolver a capacidade de atuar dentro e fora da institucionalidade. Como latino-americanos, me parece, não é preciso lembrar o quanto na história do movimento operário as nossas organizações foram perseguidas e postas na ilegalidade nos momentos mais acirrados da luta de classe. Quebrar os limites da legalidade ou avançar no Estado de Exceção dentro da legalidade é um princípio básico da ação burguesa em momentos de acirramento de classe confirmado por todas as experiências históricas até hoje conhecidas. Garantir, portanto, essa dupla capacidade, atuação legal e ilegal, é outro elemento de universalidade da concepção leninista de organização.

A organização revolucionária, para garantir não ser um gestor da ordem e conseguir atuar mesmo estando marginal ou fora da legalidade, precisa garantir sua independência de classe nos aspectos organizativos: finanças, comunicação, estrutura etc. Ou seja, a organização revolucionária não pode depender financeira e organizativamente do Estado e muito menos da classe dominante. É um partido onde seu funcionamento orgânico é garantido por sua militância através de meios que historicamente são muito variados. O partido revolucionário pode receber financiamento do fundo partidário, por exemplo, mas esse fundo nunca, sob hipótese alguma, pode ser seu núcleo de estruturação. A questão, nesse aspecto, é bem clara: a independência política exige um correlato (para ser real) organizativo. Quem paga a banda escolhe a música – a organização que depende do Estado burguês ou de “doações” privadas nunca poderá operar uma real política proletária.

Garantir a independência de classe em seus aspectos materiais impõe um nível de profissionalização altíssimo da atividade política. Não é possível, por exemplo, nas condições do Brasil, um país continental, manter um partido de âmbito nacional funcionando com “ativistas” – pessoas que tomam a ação política como uma dimensão secundária ou complementar de suas vidas. O partido revolucionário, para funcionar como tal, exige militantes profissionais e semiprofissionais. O revolucionário profissional é uma exigência universal da prática política revolucionária. Qual será a forma de profissionalização? Em que ramos de atuação? Qual a forma de seleção e controle da atuação dos militantes profissionais? Essas questões, como já disse em outro exemplo, dependem de situações históricas específicas e assumem as mais diversas formas organizativas, contudo, a forma, não muda o conteúdo: a profissionalização de revolucionários é uma necessidade intransponível.

Esse partido revolucionário negador da ordem com capacidade de atuar legal e ilegalmente sempre em busca de sua independência de classe e profissionalização da atuação política, precisa, para ser um operador político nacional, atuar como um sujeito coletivo, um estado-maior do proletariado. Sem negar as especificidades regionais, para o processo revolucionário, é necessário que o partido (aqui, de novo, o plural pode ser usado sem problemas!) consiga congregar todas as particularidades num programa político revolucionário que vai ser a expressão do universal: desde o trabalhador precarizado do centro de São Paulo, até o ambulante de Recife e o trabalhador agrícola do Rio Grande do Sul, todos, sem nunca esquecer as mediações, vão atuar e defender o mesmo programa (sem falar das categorias sociais oprimidas, como as LGBTs). Em suma, sem unidade na ação, especialmente nos momentos de acirramento da luta de classes, é impossível a revolução.

Historicamente, a forma de garantir a unidade na ação, a constituição de um sujeito político coletivo e coeso, foi a forma do centralismo-democrático. Nesse ponto, o cuidado com as caricaturas deve ser bem maior. A nossa memória histórica esqueceu que a forma do centralismo-democrático é infinitamente mais variada que se imagina. O centralismo no PCUS nunca foi o mesmo que no Partido Comunista Cubano, no Partido Comunista Chinês ou no Partido do Trabalho da Coreia. Aliás, o Partido Comunista Italiano, o PCI, no auge do eurocomunismo e sua consequente negação do leninismo, manteve o centralismo-democrático!

Outro ponto importante, qualquer conhecedor mínimo do movimento comunista sabe que a concepção de centralismo-democrático do Partido Comunista Grego (KKE), Partido Comunista Sírio e do Partido Comunista Brasileiro não é a mesma, por exemplo. Só o reducionismo anticomunista pode tratar o centralismo-democrático como “tudo a mesma coisa”. O objetivo da atuação coesa e unitária na ação pode ser conseguida fora da estrutura do centralismo-democrático a despeito da própria variedade de formas desse último? Nunca neguei que sim! A questão, e indo direto ao ponto, é que até hoje a única forma eficiente encontrada para essa tarefa é o centralismo-democrático – o que não impede de daqui há algum tempo encontrarmos outra.

Para se contrapor aos aparelhos ideológicos da burguesia, afinal, a classe que detém o poder material controla o poder espiritual [cultural], a organização revolucionária deve manter um robusto aparato de agitação e propaganda do seu programa político. Esse aparato de agitação e propaganda é o que vai viabilizar que em cada luta particular, imediata, limitada, o ponto de vista geral, revolucionário, seja colocado, garantindo que a prática política será pedagógica no avanço da consciência de classe. Ou seja, o partido revolucionário é o formulador e divulgador do projeto revolucionário e o vetor de propagação de uma nova cultura, negando os valores e a ideologia dominante. A comunicação é um ponto nodal, crítico, no partido revolucionário: ela precisa garantir capacidade de agitação e propaganda para e com a classe e ao mesmo tempo garantir o funcionamento orgânico de todas as instâncias do partido, desde as bases nos rincões mais afastados do país até o comitê central.

Como garantir, por exemplo, uma atuação ilegal sem uma eficiente comunicação externa e interna? E como garantir essa comunicação sem revolucionários que se especializem nisso e capacidade financeira própria para montar essa aparato de agitação, propaganda e comunicação? No sistema político burguês, por mais democrático que seja, a contestação aberta da ordem, isto é, o debate sobre o programa revolucionário, nunca será feito! Cabe ao partido, em sua atuação concreta, criar as condições materiais para tornar esse debate – sempre em condições históricas particulares – um movimento de massa.

Podemos resumir tudo que falamos na seguinte questão: o Estado burguês, a despeito de sua múltipla variabilidade institucional, é um instrumento de conservação da ordem; a burguesia, nos processos de luta de classe, nunca abrirá mão de quebrar a legalidade ou potencializar a repressão dentro da legalidade quando necessário; o sistema político e sua lógica de financiamento são estruturados de tal forma para que os partidos organicamente integrados como defensores da ordem, sendo de esquerda ou direita; a sociedade burguesa, em sua reprodução, conta com complexos e ramificados aparelhos repressivos, ideológicos e de controle que para serem enfrentados necessitam de estruturas igualmente complexas e sólidas; os meios de comunicação e produção cultural são monopólios da classe dominante e as classes dominadas, para fazer política, precisam buscar quebrar esse monopólio desenvolvendo seus próprios instrumentos hegemônicos.

O parágrafo acima resume alguns dos principais desafios que todo revolucionário tem de enfrentar na sua realidade nacional. A concepção leninista de organização, em seus elementos de universalidade, é uma resposta política a esses desafios. Por isso que no título desse texto eu afirmei que é um senso comum essa ideia amplamente difundida que a concepção leninista de organização está superada. Façam o teste: busque aprofundar o debate com os que defendem isso apontando os elementos acima tratados. Garanto por experiência própria que a maioria ficará sem resposta.


Nos próximos escritos vamos desenvolver de forma mais aprofundada apontamentos realizados de maneira telegráfica nesse escrito. Mas antes disso, não podemos terminar sem apontar uma importante provocação: nos últimos 40 anos a concepção leninista de organização foi expurgada da maioria das organizações de esquerda do mundo; o senso comum do “novo”, “novidade”, “a nova coisa” tomou a esquerda. Desconheço nesse período qualquer experiência exitosa de revolução conduzida por essas “novas concepções” organizativas. As ideias sobre as formas de ativismo em rede e integração horizontal de organização tem como principal mérito vender muitos livros na Livraria Cultura.  

terça-feira, 10 de outubro de 2017

A demonização de Che Guevara e a reabilitação do colonialismo

09 de outubro marca os 50 anos do assassinato de Ernesto “Che” Guevara. O argentino protagonista da Revolução Cubana e das lutas anticoloniais e socialistas é um dos nomes mais conhecidos do mundo. Figura emblemática, nos quatro cantos do mundo, onde houver um protesto dos explorados e oprimidos, é possível achar uma blusa, bandeira ou cartaz com o rosto de Che. Nos últimos anos, porém, a biografia de Che é atacada de todos os lados por uma historiografia revisionista que pretende encaixá-lo em rótulos como racista, homofóbico, machista, autoritário, sádico, assassino, ditador etc. Essa operação revisionista obteve, ao menos no Brasil, um relativo sucesso (não sem contribuição significativa de setores da esquerda) e hoje disputa a perspectiva dominante sobre quem foi Ernesto Guevara. Mais do que mostrar a falsidade dessa ideologia, algo indispensável, quero nessas poucas linhas apontar o significado histórico-político desse combate pela escrita da história. Em poucas palavras, e adiantando a tese, a demonização de Che Guevara é parte indissociável da ofensiva neocolonial do imperialismo iniciada nos anos 70, vitoriosa nos anos 90 (com a destruição da URSS e do movimento terceiro-mundista) e que continua com força nos dias atuais. Vejamos.


- O mundo antes de Outubro.

homenagem da UJC a CHE
Vamos imaginar que estamos em outubro de 1917. Como estava o mundo nessa data? A imensa maioria da população humana estava submetida a regimes de dominação colonial (onde foi criado, dentre outras coisas, os campos de concentração) pautados na dominação política total e na exploração econômica em suas formas mais brutais e desumanizantes. A maioria dos países e territórios de África, Ásia, Europa Oriental, América Central e América do Sul eram dominados por um punhado de Estados imperialistas que mantinham genocídios sistemáticos como forma de dominação, instituições como o apartheid e destruição de povos e culturas inteiras.
A grande Revolução de Outubro foi uma revolução socialista de dimensão anticolonial que conclamou os escravos das colônias a quebrarem suas correntes e lutar pela sua liberdade. Com o tempo, num processo difícil e contraditório, o movimento comunista, dirigido pela Terceira Internacional junto com a URSS, passou a atuar como o partido mundial da luta anticolonial e anti-imperialista. Vários povos em África, Ásia e América Latina a partir da Revolução de Outubro e da criação da Terceira Internacional organizaram seus partidos comunistas que atuavam num perspectiva de libertação nacional com projeto socialista no horizonte. Líderes como Ho Chi Minh (Vietnã) Kim il Sung (Coreia) , Amilcar Cabral (Guiné-Bissau), Mao Tse Tung (China) expressam essa fusão entre luta anticolonial de libertação nacional e luta socialista: a “questão social” assume uma forma primeira radicalmente nacional nesses países.
O confronto entre colonialismo imperialista e o movimento comunista teve seu grande episódio, a batalha decisiva, na Segunda Guerra Mundial. O italiano Domenico Losurdo, acertadamente, afirma que o segundo grande conflito mundial é motivado por outra explosão das contradições capitalistas onde na disputa pela repartição do mundo o nazifascismo representa uma radicalização extrema da tradição colonial constitutiva do desenvolvimento capitalista. Em poucas palavras: o nazifascismo busca realizar na Europa, notadamente na parte Oriental, o que Inglaterra, França, Bélgica etc. faziam em África e Ásia. A radicalização do colonialismo foi derrotado pelo seu maior adversário: o movimento comunista dirigido pela União Soviética. Na batalha de Stalingrado a sorte do mundo foi jogada: a vitória dos nazistas significava o reestabelecimento em larga escala da escravidão racial no seu sentido moderno e a consolidação do colonialismo como padrão de organização mundial.
Como bem sabemos, os soviéticos venceram!


- O século da luta anticolonial.


O final da Segunda Guerra Mundial, especialmente de 1950 a 1980, marcou, talvez, a maior época revolucionária da história da humanidade. O tradicional sistema colonial estava sendo destruído em África, Ásia e fortemente questionado na América Latina e Central. É claro que novas formas de dominação imperialistas buscavam se consolidar, o que passou a história como neocolonialismo, mas o fato é que tivemos centenas de processos revolucionários de libertação nacional com conteúdo socialista ou no mínimo tendências igualitaristas. A união entre movimento comunista e movimento terceiro-mundistas foi uma das maiores ameaças que o capitalismo global conheceu. Não me parece um exagero afirmar, afinal, são os próprios ideólogos do imperialismo que dizem isso, que se houve um momento onde o capitalismo esteve ameaçado globalmente, esse foi na época gloriosa dos anos 60: os quatro cantos do mundo respiravam revolução.
O século XX pode ser lido como o século das lutas anticoloniais e socialistas contra o domínio do capital. Dentro desse processo é que podemos entender a importância da figura de Ernesto Che Guevara. A América Latina era (continua sendo, na verdade) o principal símbolo e modelo da dominação neocolonial da potência capitalista líder do planeta: os EUA. A Revolução Cubana representou a primeira tentativa vitoriosa de um projeto revolucionário no país que até então era considerado o quintal dos EUA. Como um dos principais líderes da Revolução Cubana, Che, de pronto, tornou-se uma figura de projeção mundial, e passou a encarnar a fusão do movimento terceiro-mundista e do movimento comunista. Esse líder revolucionário e estatista assumiu o lugar de principal símbolo político dos povos do terceiro mundo. A CIA considerou Che Guevara o homem mais perigoso da América Latina!
Sartre, Fanon, Marcuse, Lumumba, Neruda, Brizola, Kim il Sung e muitos outros grandes nomes das lutas anti-imperialistas tinham Che como uma referência incontestável. Se houve um homem que personificou o espírito de rebeldia do seu tempo, esse foi Ernesto Guevara. Os povos coloniais em luta por libertação, os operários dos países centrais do capitalismo, os estudantes, as camponesas, os povos originários, todos olhavam para El Che como símbolo e referência.


- Neoliberalismo e renovada ofensiva do colonialismo.

Por motivos impossíveis de explicar nesse curto texto, o movimento comunista e terceiro-mundista foi derrotado. O neoliberalismo é não apenas uma ofensiva do capital sobre os trabalhadores num momento de crise estrutural do capitalismo para garantir uma taxa de lucro satisfatória aprofundando a dominação política e a exploração. O neoliberalismo também pressupõe uma ofensiva neocolonial de brutal recrudescimento do domínio global do centro hegemônico do imperialismo, os EUA, e dos seus centros regionais, como Alemanha, destruindo ou buscando destruir a soberania nacional, a independência política e econômica e as conquistas dos processos revolucionários nos países dependentes. As invasões militares, o controle direto das riquezas naturais, a reprimarização das economias dependentes, o reforçamento do monopólio tecnológico, o aterrador aumento da pobreza, miséria, fome, desemprego e precariedade no terceiro mundo, hoje chamado de Sul global, são expressões dessa nova ofensiva neocolonial.
Essa derrota política e ideológica engendrou uma onda de reabilitação teórica e cultural do colonialismo. Karl Popper disse tranquilamente que os povos africanos foram libertos cedo demais, afinal, eles são como crianças num berçário sem um adulto supervisionando. Niall Ferguson pode reafirmar com sem alarde o paradigma civilização vs barbárie colocando, como sempre, a civilização no seio do capitalismo ocidental. A temática do imperialismo é banida dos debates políticos e acadêmicos. A esquerda do capital, normalmente socialdemocratas, e as novidades do momento, como Syriza, recusam o internacionalismo proletário e a importância da luta anticolonial na agenda política. O silêncio aterrador da maioria da esquerda mundial na defesa na Coreia Popular frente aos ataques do imperialismo é a prova cabal que a ordem dominante venceu a batalha em todas as instâncias.
A demonização de Che, assim como o apagamento ou pós-modernização de figuras como Fanon e Sartre, é parte de um processo mais amplo de vitória do imperialismo no século XX e combate, uma verdadeira guerra pela escrita da história, aos fantasmas da luta anticolonial dirigida pelos comunistas. Com formas diferentes, a demonização de Che é constitutiva do mesmo processo de legitimação das invasões imperialistas em países como Síria, Coreia Popular ou Líbia.
Destruir a biografia de Che é reabilitar o colonialismo, o domínio global do imperialismo, em suas formas mais belicistas e desumanas. É anticomunismo, mas é também, um pouco mais que isso: é o aflorar dos desejos nazifascistas derrotados em Stalingrado de um mundo não só com extração de mais-valor, mas com escravidão racial aberta em benefício do povo dos senhores [Herrenvolk democracy] - seguindo as reflexões novamente de Domenico Losurdo. Defender a memória e o legado de Ernesto Che Guevara é imprescindível na difícil missão de conter e derrotar a ofensiva neocolonial do capitalismo cada vez mais destrutivo. Temos que defender o legado desse grande argentino e sermos a geração que vai realizar o seu sonho: uma revolução latino-americana em direção ao fim do domínio mundial do imperialismo.

Venceremos, El Che!


domingo, 8 de outubro de 2017

A América Latina que não será televisionada

América Latina contra o império
Existe no seio da esquerda uma certa compreensão simplista do papel da mídia na luta política. A mídia será responsável apenas por manipular a informação “mentindo” ou mostrando o “fato jornalístico” de maneira parcial e distorcido. Embora capte um elemento do papel das mídias na luta de classes, essa compreensão perde de vista um componente essencial: um dos principais poderes dos monopólios de mídia é pautar o debate no que se refere ao tema e as categorias de compreensão, ocultando temas, dizendo o que merece ou não ser noticiado.

Ou seja, para além do mentir e distorcer, algo mais que real, nunca podemos perder de vista o não dito, ocultado, não tematizado pela mídia, parte essencial da formatação de uma chamada “opinião pública” dócil aos interesses da ordem dominante e ao imperialismo. Um exemplo gritante desse papel dos monopólios de mídia na luta de classes pode ser dado através da cobertura midiática sobre a América Latina.

A Venezuela passou os últimos três meses sendo foco dos noticiários brasileiros e mundiais. O motivo foi uma renovada ofensiva da direita associada ao imperialismo com objetivo de derrubar o Governo Bolivariano. As notícias sobre a crise econômica, desabastecimento, suposta violência governamental extrema, “prisões políticas” de opositores, cerceamento da liberdade de expressão eram abundantes na TV, rádio, jornais e portais da internet. A maioria dos brasileiros médios devem achar que a Venezuela vive uma ditadura e não fazem ideia do nome do presidente do Peru ou México, mas com certeza já ouviram falar em Nicolás Maduro.

Depois da proposta de nova constituição aprovada por mais de 8 milhões de venezuelanos e com o retomar do protagonismo popular e bolivariano das ruas, esvaziando as iniciativas da direita associada ao imperialismo, a Venezuela sumiu dos noticiários. Numa estranha lógica jornalística antes o país era considerado digno de prioridade no “noticiário internacional” e agora é escondido. É fundamental que na cabeça do brasileiro médio a imagem que fique é que o país continua um caos ardendo em chamas devido ao domínio de um ditador maluco.

O curioso e perceptível num olhar mais atento é que para os monopólios de mídia existem partes da América Latina que devem ser sistematicamente excluídas de qualquer noticiário. Os países latino-americanos comandados por governos de direita subordinados ao imperialismo que atuam como vassalas do departamento de Estado dos EUA são blindados de qualquer crítica ou avaliação negativa. Só merece atenção (sempre pejorativa e criminalizante) Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador e a Argentina na época da presidência de Cristina Kirchner. Por falar em Argentina, vamos pegar o exemplo desse último país.

Quando Cristina Kirchner era governante na Argentina, a mídia brasileira, de forma religiosa e mais disciplinada que quartel militar, repetia como um mantra as notícias sobre o “caos econômico” no país. Inflação alta, aumento da pobreza, suposta escassez de produtos, redução das taxas de investimento, baixo crescimento da economia etc. De manhã, tarde e noite, no mínimo uma vez na semana, tínhamos uma notícia criticando o governo de Cristina em todas as emissoras do Brasil – para não falar dos jornais, sites e emissoras de rádios.

Mas Maurício Macri, devoto fanático do liberalismo econômico e filho bastardo do Tio Sam, foi eleito presidente e a onipresente Argentina dos noticiários tornou-se uma espécie de tia distante: nunca mais ouvimos falar. Dizia-se que a Argentina tinha muita inflação devido ao intervencionismo estatal; hoje a inflação é a maior em 14 anos: 46%. Era dito que a pobreza estava aumentando, com Macri temos 1, 4 milhões a mais de pobres e mais de 200 mil trabalhadores perderam seus empregos desde que ele assumiu. O preço da água, luz e gás subiu entre 300% ou 2000% para regular os preços “pelo livre mercado”, mas o mercado, esse sujeito cheio de exigências, mesmo assim não reagiu bem: o consumou caiu 6,4%, o gasto médio por compra 26,3% e a taxa de investimentos (públicos e privados) também não cresceu!

Em Buenos Aires acontecem protestos diários, o presidente só sai agora de carro blindado e o nível das lutas sociais na Argentina é gigantesco. Até as camadas médias de pequenos e médios empresários, que caindo no conto do liberalismo econômico votaram em Macri, colhem os frutos amargos de um governo puro sangue dos monopólios e do imperialismo estadunidense. Se o governo de Cristina tinha pouca popularidade em sua fase final, o de Macri é mais que isso: é um governo totalmente impopular.

O mesmo pode ser dito da Colômbia, México, Peru e Paraguai. O que esses países têm de semelhante? São governados por partidos e políticos de direita, adeptos da ilusão liberal dos tratados de livre comércio (uma hábil forma de aprofundar a dependência e o subdesenvolvimento), totalmente subserviente aos interesses do imperialismo (contribuindo, inclusive, com a instalação de bases militares dos EUA no continente) e inimigos de qualquer projeto de integração latino-americana de bases populares e socialistas.

Quando esses países são noticiados, normalmente em períodos eleitorais ou quando acontece alguma tragédia natural ou criminal, nunca é tematizado o histórico político e econômico recente com algum grau de profundidade. A degradação mexicana, por exemplo, com o narcotráfico associado ao Estado formando o narcopoder, e provocando recordes no número de assassinatos e desaparecimentos, não será nunca relacionado com a ortodoxia neoliberal que domina o México há décadas. Esse país é o modelo perfeito das consequências dos famosos tratados de livre-comércio com os EUA: sem soberania alimentar ao ponto de está importando milho (!!!), cada vez mais pobre e desigual, serviços públicos destruídos, indústria em frangalhos, ciência e tecnologia zero, ausência quase total de soberania nacional e fim da tradicional política externa mexicana com certa independência e processos de destruição do tecido social com o poder sempre crescente dos grupos de narcotráfico associados à classe dominante e ao Estado.

A clássica “obsessão” pelos direitos humanos em Cuba, é lógico, não se repete na Colômbia. Esse país tem um dos históricos mais pronunciados do mundo em terrorismo de Estado. Há um ditado popular colombiano que diz que é mais fácil “montar uma guerrilha que um sindicato” no país. O número de ativistas dos direitos humanos, jornalistas, sindicalistas e militantes no geral assassinados no país são recordes. O paramilitarismo, isto é, a formação de grupos armados privados com conveniência ou associado do poder público, é à décadas responsável por milhares de morte e deslocamento forçado de camponeses. O brasileiro médio orientado pelos monopólios de mídia nunca ouviu falar do paramilitarismo, mas, com certeza, “sabe” que As Farc-EP (recentemente desmilitarizada e transformada em partido político) é supostamente um grupo de traficantes que praticam sequestro, a encarnação do maior mal colombiano.

Enquanto aparato ideológico reprodutor do colonialismo cultural, complexo ideológico intrínseco as relações de produção capitalistas dependentes que dominam o Brasil, o papel da mídia é sempre inferiorizar tudo que é latino-americano e mostrar que as “luzes” vêm da Europa e EUA. Os projetos políticos e países que desafiam o domínio do imperialismo são vítimas sistemáticas de uma permanente campanha de difamação ao nível do ridículo. Os países e projetos que se mantém como base de sustentação da ordem burguesa dependente e do imperialismo são ocultados e quando tratados, a extrema superficialidade é o que reina. Não é apenas a revolução que não será televisionada. É a tragédia burguesa potencializada na forma capitalista dependente também.