sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013


Quando o atraso e a dominação viram “identidades culturais”.

Pretendemos no âmbito desse pequeno texto traçar uma critica a construções discursivas idílicas da classe dominante que mostram aspectos de dominação e atraso como parte da nossa “cultura popular”, da nossa “identidade”.
Como esse não é um artigo acadêmico, não estamos dispostos a esgotar o tema, dar o tratamento que merece ou ser profundos na abordagem. Será um texto rápido, com poucas citações, praticamente sem bibliografia – com único e genuíno intuito de gerar uma reflexão por parte do leitor.


Hegemonia como dominação.
          
        É importante para introduzir o assunto falar do filósofo italiano Antônio Gramsci (1891-1937). Gramsci dentro da teoria marxista do estado promove a “ampliação” de tal teoria. Ele, diferentemente de Marx, Engels e Lênin, não aborda o estado focando apenas seu elemento coercitivo – que ele chama de sociedade política ou estado estrito senso – trás também em sua teoria a questão do consentimento do dominados frente aos dominadores. Para explicar tal consentimento Gramsci afirma que nas sociedades capitalistas avançadas (que ele chama de sociedades ocidentais) o desenvolvimento do capitalismo, com sua correspondente socialização da produção, gera também a socialização da política, ou seja, o desenvolvimento de diversas classes, facções de classes, grupos políticos que tentam exercer a dominação e o consenso na sociedade através do “aparelho privados de hegemonia” – tais aparelhos seriam escolas, igrejas, jornais, TVs, partidos políticos, universidades e etc. Esses “aparelhos privados de hegemonia” seriam responsáveis por gerar o consenso, fazer com que uma classe ou facção de classe seja a classe dirigente da nação; que seus interesses sejam colocados como interesses universais.
          Ao contrário do quê alguns vulgares falam de Gramsci ele não escamoteia em sua obra o papel da violência estatal e de repressão, “apenas” mostra, de maneira brilhante, que a dominação política não pode ser explica apenas pensada enquanto uso da força. Nesse sentido toda classe dominante nacional ou local vai tentar colocar o seu modo de vida, seus valores, seus interesses como universais, como de todos, para assim justificar e naturalizar a situação dos dominados.
          Pensar em exemplo dessa postura política é demasiado fácil. Basta ver como todo dia a imprensa diária, principalmente a TV, criminalizar a pobreza e os movimentos sociais. A grande mídia é o principal veiculo de hegemonia da classe dominante, mas não só ela. Músicas, poesias, livros acadêmicos, filmes, peças de teatro também fazem parte dessa construção. Nesse sentido, a construção de uma hegemonia dominante não se faz só na justificativa do atual, mas também na leitura que fazemos do passado. A disputa pelo passado é uma luta política importante entre setores populares e dominantes. O fato de Tiradentes ser mais conhecido que Zumbi dos Palmes, os movimentos sociais como as ligas camponesas serem pouco conhecidos e tendência de leitura idílicas da história como das correntes gilbertianas sobre a escravidão não são coincidência..., fazem parte da construção de uma cultura e identidades que sustenta a classe dominante no poder. A sesta tese sobre o conceito de história do alemão Walter Benjamin (1892-1940) é esclarecedora sobre a questão: Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

        A luta de classe não é só um fenômeno político ou econômico é, e com muita força, um fenômeno também cultural, onde a luta na consolidação de estas ou aquelas leituras do passado acarreta diferenças gritante na revolta ou passividade do povo. É sempre bom lembrar o velho Marx nessa questão:  

As relações jurídicas, bem como as formas de estado, não podem ser explicadas por si mesmas, nem pela chamada evolução geral do espírito humano; essas relações têm, ao contrário, suas raízes nas condições estas que Hegel, a exemplo dos ingleses e dos franceses do século XVIII, compreendia sob o nome de “sociedade civil” (MARX, 2008, p. 47).5
       
      A questão colocada acima por Marx sobre as relações jurídicas e formas de estado servem também para as formas de consciência ou hegemonias culturais. Agora que já expomos de maneira geral o problema podemos passar a um exemplo prático. Como o sociólogo Pernambuco Gilberto Freyre atuou como intelectual orgânico da classe dominante senhoria nordestina (o conceito de intelectual orgânico é de Gramsci também, em resumo o intelectual orgânico seria o responsável por fundamentar, divulgar, produzir e propagar uma ideologia de classe, ele seria o momento “catártico” da ideologia arbitraria à orgânica) Usaremos para tal exemplificação um ensaio do professor e cientista político Michel Zaidan.

Gilberto Freyre e a classe dominante.
     
       Como falamos anteriormente Gilberto Freyre é um exemplo “clássico” de intelectual orgânico das classes dominantes. Sua obra constrói um conceito de brasilidade nordestina que justifica o atraso e a exploração da região. Além disso, é famoso, por sua obra máxima Casa Grande & Senzala, que traça um quadro fantasioso, doce, cordial e idílico da escravidão. Vejamos o que o professor Zaidan fala dessa construção discursiva de Freyre:

Não obstante, o principal interesse pela figura do ilustre sociólogo de Apipucos reside na construção (de sua autoria) de uma das mais duradouras e difundidas produções “discursivas” da cultura brasileira no século XX: a brasilidade nordestina. Obra de um verdadeiro intelectual orgânico da classe senhorial nordestina, destinada a garantir uma sobrevida – no plano da economia simbólico-cultural – para as oligarquias decadentes da região, alijadas do Poder pela revolução de 30. A ninguém mais do que a Gilberto Freyre devem essas oligarquias uma verdadeira epopeia civilizatória, baseada na tese da miscigenação racial brasileira e do caráter mais ou menos idílico, doce, cordial das relações entre negros e brancos no país. Aliás, vem dessa poderosa tese a variante do socialismo ‘monárquico’ ou ‘sertanejo’ de conhecido mandarim da cultura popular do nordeste (ZAIDAN, 2013, p. 12).

Essa construção de uma pseudo-identidade nordestina que naturaliza os aspectos perversos da vida sobre a exploração semi-patriarcal latifundiária é uma das estratégias de dominação que exemplifica como a cultura está impregnada pela luta de classes (e sua consequente disputa por hegemonias). E continua brilhantemente a critica do Professor Zaidan:

Esta astuta operação produziu um curioso resultado: a invenção e a difusão de uma das mais bem-sucedidas “identidades culturais”, festejada nacional e internacionalmente como característica da maneira de ser brasileira; e ao mesmo tempo o reforço, a justificativa (para não dizer, a racionalização) de aspectos conservadores, oligárquicos e tradicionalistas de nossa cultura. A consequência disso é que a estetização do nosso atraso (vide a dialética da malandragem, na obra de Antônio Cândido e Roberto Schwarz) permite mil e uma utilidades da obra freyriana: desde sua utilização pelos grupos de direita para a produção do consenso e unidade nacionais até a sua adaptação como entretenimento de massa pela indústria cultural moderna (ZAIDAN, 2013, p. 12).
          
       Não é nada estranho que movimentos como o “manguebeat”, que expirado na obra critica do geógrafo Josué de Castro, tenha sido tão hostilizado pelos baluartes de uma pseudo-cultura popular autêntica que se mantém estática e conservadora..., que tem que ser refratária a qualquer tentativa de colocar o excluído na cena cultural (como foi o manguebeat). E para terminar e não deixar nenhuma ilusão de a quem serve produções culturais como as de Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Miriam Leitão e etc.:

Já caminhamos muito para saber quem lucra e quem perde com as consequências desse historicismo cultural freyriano, principalmente numa época em que a globalização financeira dos mercados – destruindo a soberania do Estado-Nação – enaltece o ‘charme’ (o valor de troca) das culturas regionais ou locais. Do que precisamos com urgência é de utopias e valores que resgatem da marginalidade política, econômica e social milhares de brasileiros para que, como disse um outro ilustre pernambucano, eles deixem de ser como caranguejos vivendo nos mangues do entorno das Casas Grandes (ZAIDAN, 2013, p. 12).

Bibliografia.
Karl Marx – contribuição à critica da economia política. Editora expressão popular, 2008, São Paulo.

Michel Zaidan – história e literatura: uma olhar intersimiótico. Editora NEEP-UFPE, 2013, Recife.

Walter Benjamin. Sobre o conceito de história. A citação usada foi tirada da internet, porém nas obras escolhidas do autor publicadas pela editora brasiliense é possível encontrar tal conteúdo.

Elementos empíricos para uma analise da construção da hegemonia política.

Entrevista do cientista político Atilo Boron sobre o papel político dos monopólios midiáticos na América Latina: http://www.brasildefato.com.br/node/10995

Pesquisa que mostra de maneira inquestionável que a grande mídia, controlada pelo grande capital, criminaliza movimentos sociais – nesse caso especifico o MST: http://www.advivo.com.br/node/1264289