sábado, 30 de maio de 2015

Apontamentos críticos sobre o Programa de Transição de Leon Trotsky


De todos os textos fundamentais da extensa obra de Leon Trotsky, faltava-me estudar o famoso “Programa de Transição”. Comecei a ler o documento e terminei em dois dias. É um texto curto e de leitura fácil. Ao mesmo tempo, tive uma infeliz surpresa: a qualidade do texto é péssima. Os erros teóricos, o esquerdismo e voluntarismo nas análises de conjuntura geopolítica me impressionaram.

Que fique claro: não iremos traçar uma análise detalhada e profunda do Programa de Transição. Queremos tão somente apontar os erros mais latentes e problematizar esse documento fundamental na criação de uma tradição teórico-política dentro do marxismo: o trotskysmo.

sábado, 23 de maio de 2015

Um bancário brasileiro na Tchecoslováquia: relato de viagem


O texto que reproduzo abaixo é um relato histórico do bancário de Pernambuco Asdrubral A. de Assis que representando o sindicato dos bancários de Pernambuco, em 1962, viajou à Tchecoslováquia e produziu um amplo relatório histórico de sua viagem que abarca aspectos do cotidiano, ideologia nacional, organização dos sindicatos, relações de produção, vida cultural, etc. O relato da viagem foi publicado no Jornal dos Bancários, órgão sindical de imprensa à época. Optamos por publicar o documento sendo fiel a linguagem da época, com todas as peculiaridades do português (o realizador desse blog teve acesso ao documento pelo fato de está trabalhando no arquivo do Sindicato dos Bancários de Pernambuco)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Duas teses sobre a transição socialista


Tese I: Socialismo não é modo de produção. É comum em certa esquerda idealista afirmar que as experiências do século XX não foram socialistas por manterem “aspectos capitalistas” ou não estar de acordo com o cânone de determinado “texto sagrado” (o texto é mais importante que a realidade). É importante esclarecer: a teoria clássica da transição socialista, sintetizada no livro O Estado e a Revolução, de Lênin, defende que um bloco das classes oprimidas liderado pelo proletariado deve tomar o poder de estado e a partir daí começar o processo de transformação revolucionária da sociedade. O sentido dessa transformação revolucionária é: socialização da riqueza, do poder e da cultura. Na economia a propriedade pública dos meios de produção, a planificação econômica e a riqueza produzida é para atender as necessidades plenas de toda sociedade; na política a democracia participativa, de base e a autogestão em várias esferas são ampliadas ao máximo, e a cultura é socializada de uma forma onde saber científico, técnico e filosófico deixa de ser privilégio de uma pequena classe de exploradores e a produção cultural e ideológica é pautada na solidariedade, internacionalismo, senso coletivo e combate às formas de opressão.

Logo, se socialismo não é modo de produção, mas uma fase de transição entre a sociedade antiga (capitalista) e a nova (comunista), manter relações da antiga sociedade não é só “aceitável”, como normal. Os ritmos de transformação, os avanços e recusou, são ditados por uma síntese dialética entre condições objetivas e subjetivas; ou seja, as próprias condições socioeconômicas onde começa a experiência de transição, a correlação de forças e a dinâmica da luta de classes interna e externa (na geopolítica) e toda tradição ídeocultural do povo. Logo, constatar que em certas experiências, como a URSS, mantiveram relações sociais típicas do capitalismo, como o fordismo nos processos de trabalho, e depois disso afirmar que a URSS nunca foi socialista, mas sim “capitalismo de estado” ou qualquer outro conceito obtuso, é negar a perspectiva da totalidade e da processualidade do socialismo. É achar que a tomada do poder cria automaticamente a transformação de todas as relações sociais da sociedade capitalista e desconsiderar as condições objetivas - isso é algo da tradição anarquista e não marxista (como Lênin tão bem demonstrou nas usas obras, em especial, de novo, no O Estado e a Revolução).

Dando um exemplo concreto. A Rússia pós-revolução estava numa situação de miséria extrema (resultado do próprio subdesenvolvimento do país, da primeira guerra mundial e da guerra civil) e fome epidêmica. Nessa conjuntura concreta a direção revolucionária tomou como prioridade o desenvolvimento das forças produtivas ao máximo como forma de garantir a sobrevivência material (biológica) do povo e garantir a defesa militar contra agressões imperialistas. Nessa conjuntura, onde a prioridade absoluta era criar uma indústria de base e conseguir produzir comida, roupas, medicamentos, etc. para todos, afirmar que por não ter autogestão completa nas fábricas a URSS traiu o socialismo e tornou-se “capitalismo de estado” nos anos 30, como faz Alysson Leandro Mascaro e Marcio Bilharinho Naves (dois grandes juristas marxistas), é achar que é possível construir relações de produção comunistas ignorando a situação material imediata, e transformar tudo ao bel prazer da “vontade política”.

Tese II: a transição socialista é relacional. Se o socialismo não é um modo de produção, mas toda uma época histórica de duração variada na transformação da sociedade e na criação da sociedade comunista; deveria ser claro, mas infelizmente não é, que o ritmo e as formas de transformação dependente das formas que um país (ou bloco de países) está inserido no mercado mundial e no sistema geopolítico (imperialista). Lênin, de novo, nos ajudar a pensar a questão. O líder bolchevique afirmou que é possível o proletariado conquistar o poder político num país subdesenvolvido e começar a transição socialista, mas o sucesso dessa transição, ao mesmo tempo, depende dos ritmos do movimento revolucionário mundial. Parece uma antinomia, mas não é. A questão é simples. Um país atacado de todas as formas pelo imperialismo com bloqueios econômicos, sabotagens, terrorismo, pressões diplomáticas, guerra de desinformação, invasões militares (as pessoas esquecem que Cuba, Rússia, Vietnã, Angola e Coréia do Norte são experiências socialistas invadidas militarmente pela ação do imperialismo), etc. terá, é lógico, dificuldades de desenvolver plenamente a democracia operária de base e autogestionária. Não existe nenhuma experiência histórica que mostre o desenvolvimento da democracia numa situação de estado de guerra permanente (até os teóricos liberais sabiam disso).  Logo, por exemplo, o enfrentamento geopolítico com o imperialismo vai condicionar de forma negativa o sistema político socialista (é claro, porém, que as decisões do grupo dirigente revolucionário podem ampliar esse “fechamento” necessário ou combatê-lo dentro do possível: na URSS decisões erradas ampliaram esse “fechamento” necessário, em Cuba ao contrário, mesmo em estado de guerra permanente a democracia operária conseguiu-se manter em bom termo).

Podemos dizer o mesmo da economia. Se um país socialista não tem capacidade de produzir todo alimento – por exemplo - que necessita ele precisará necessariamente importar. Para importar são necessários dólares. Para ter dólares a economia socialista terá que manter um setor de exportação que consiga esse capital e isso fará com que a economia socialista tenha que criar setores ou de mercado ou ainda atrelados à lógica de mercado e sujeitos às vicissitudes do mercado mundial. Como nenhum país é auto-suficiente em tudo (principalmente os pequenos como Cuba) e o mundo ainda é, infelizmente, capitalista e dominado pela hegemonia norte-americana, relações comerciais com o capital internacional são necessárias e importantes. Caso contrário o país fica isolado do mundo e sofrendo escassez de vários produtos (como aconteceu com Cuba e Coréia do Norte pós-derrubada da URSS e com a própria URSS durante os anos 20 e 30). Logo, é um truísmo dizer que a revolução tem que ser mundial. Todo mundo sabe disso. Essa afirmação não diz nada dos desafios que um país específico terá ao iniciar sua transição socialista.


À guisa de conclusão: se socialismo não é modo de produção, mas toda uma longa época histórica de transformações revolucionárias e se essas próprias transformações são relacionais, ou seja, dependem de condições concretas e objetivas que ditam limites e possibilidades, desconsiderar as experiências concretas de transição socialista comparando de forma mecânica os desafios histórico-concretos da realidade com trechos de livros de Marx e Engels (que não foram escritos levando em conta essa realidade histórico-concreta) é idealismo. Ficar horrorizado com recuos táticos nas experiências de transição socialista, como a NEP na Rússia e as reformas em curso em Cuba, e clamar pela pureza de um socialismo já perfeito aqui e agora também é idealismo. E como todas e todos sabem: idealismo é antagônico ao marxismo. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Luciana Genro e a Coréia do Norte: reprodução do senso comum e eleitoralismo de "esquerda"


Luciana Genro deixa claro mais uma vez o quão trágicas são suas concepções geopolíticas. Primeiro “nossa” ex-candidata à presidência pelo PSOL apoiou os mercenários fundamentalistas e a OTAN na invasão neocolonialista na Líbia afirmando tratar-se de uma “revolta popular”. Depois declarou apoio aos nazistas da Ucrânia que queimavam comunistas por esporte. De novo, a alegação é que se tratava de uma “revolta popular” (é lógico que não aconteceu autocrítica em nenhum dos dois casos). Não satisfeita, ela afirma numa entrevista dada à Folha de São Paulo, pouco antes do início da campanha eleitoral, que Cuba não é uma democracia por não ser “multipartidária”, explicitando ignorância sobre o sistema político de Cuba e sua concepção liberal-conservadora de democracia. 

Agora a vítima da vez é a Coréia do Norte. Sabemos que a Coréia é um dos países mais agredidos do mundo e que sofre uma sistêmica campanha de difamação, pressões militares, econômicas, diplomáticas e institucionais. Nessa conjuntura, não existe duas opções: ou apoiasse o direito da Coréia à sua autodeterminação, a decidir seu destino; ou apoia ainda que veladamente os ataques imperialistas dos EUA e dos seus aparelhos ideológicos. Dizer que é contra as agressões imperialistas dos EUA à Coréia e não combater, por exemplo, a campanha mundial de desinformação, é soltar palavras vazias para tentar disfarçar a ausência de qualquer traço de internacionalismo. E que fique claro: a questão aqui não é achar exemplar ou não o modelo político-econômico da Coréia. É simplesmente mostrar que toda campanha de difamação contra o país têm objetivos militares neocoloniais e que é dever de todo comunista e socialista defender a autodeterminação dos povos (e não reproduzir o discurso sobre o "eixo do mal" do imperialismo). 

De resto, cabe destacar a concepção confusa de socialismo que Genro apresenta no seu ataque à Coréia. Ela diz, por exemplo, que esse “seu socialismo” no econômico garantirá: “um modelo que não coloque o lucro acima da vida e do bem estar das pessoas. Um sistema que garanta moradia, saúde, educação, cultura para todos e todas”. Educação, moradia, saúde e cultura a URSS garantiu para todos e todas por décadas. Cuba garante até hoje. Esse “novo modelo” da Genro é bem velho. Além disso, esses direitos sociais podem existir em modelos socialistas ou social-democratas, como a Finlândia. O “socialismo” de Genro não fala em socializar os meios de produção e nem em planificar a economia. Mas não para por aí. Na política ela quer “democracia real”. O que, na boa, não sabemos o que é. Ela não diz (talvez os nazistas na Ucrânia nos expliquem) 

O texto é uma mistura de palavras que não dizem nada. Dialoga bastante com um senso comum forjado pelos aparelhos ideológicos da classe dominante e demonstra como preocupação central: deixar claro que não tenho nada haver com a Coréia do Norte. Se minha atitude contribui de alguma forma para acontecer com a Coréia o que aconteceu com a Líbia, Iraque ou Afeganistão, na lógica da Genro, isso não importa. Importante mesmo é deixar “limpa” a imagem para a próxima eleição. 

A nota de Genro sobre a Coréia do Norte: https://www.facebook.com/LucianaGenroPSOL/posts/954429997935235?fref=nf

sábado, 16 de maio de 2015

A Coréia do Norte, as notícias sobre o país e o racismo.



Os monopólios de mídia divulgam mais notícias bizarras sobre a Coréia do Norte. Agora Kim Jong-un teria mandado envenenar a sua tia e matado seu general com bateria antiaérea por dormir numa reunião. As notícias foram divulgadas pelo Jornal O Globo e todos os principais monopólios de mídia do país, que citam a CNN como fonte para o primeiro caso e a agência de inteligência sul-coreana para o segundo. Em ambas as notícias não temos qualquer prova concreta [1].

A primeira coisa que deve ser esclarecida é de onde vem às notícias sobre a Coréia do Norte. A imensa maioria delas é produzida na Coréia do Sul que, ao contrário do que fala os monopólios de mídia, é uma ditadura ferrenha e sem liberdades mínimas. Na Coréia do Sul existe uma Lei de Segurança Nacional - semelhante a que existia durante a ditadura militar brasileira - que proibi qualquer pessoa (professor, jornalistas, escritor, etc.) de elogiar a Coréia do Norte. Qualquer informação considerada elogio é passível de prisão (como um rapaz que foi preso por causa de um post no twitter e foi condenado a um ano de prisão [2]). Pouco tempo atrás uma professora dos EUA foi expulsa da Coréia do Sul porque numa aula fez comentários considerados positivos sobre a Coréia do Norte [3]. Um grande partido de esquerda também foi posto na ilegalidade acusado de defender o socialismo e a Coréia do Norte [4]. Não precisa nem dizer que militantes, jornalistas e professores universitários de esquerda são extremamente perseguidos no país.

Logo, além da tendenciosidade clássica dos monopólios de mídia e de sua necessidade de ataque sistêmico à Coréia do Norte por ser um país que controla nacionalmente suas riquezas e é um símbolo da luta antiimperialista na Ásia, temos a questão de que a fonte das notícias serem de péssima qualidade (para dizer o mínimo). Notícias como a de que Kim Jong-un teria matado seu tio, namorada e mandado todos do país cortar o cabelo igual ao seu surgiram na Coréia do Sul.

Ainda sobre essas notícias bizarras, outra coisa chama atenção. Elas são divulgadas e pouco tempo depois desmentidas. A notícia falsa recebe ampla e irrestrita divulgação e a notícia verdadeira não recebe nem ¼ da divulgação. A notícia de que Kim Jung-um teria mandado matar um general com bateria antiaérea, por exemplo, já foi comprovada como falsa. O sujeito apareceu vivo em evento oficial do governo. O Globo de maneira cretina diz “que a notícia não está confirmada” [5], depois de divulgar como se fosse uma verdade inquestionável.

Mas por que falar de racismo nesse caso? Historicamente, quando o imperialismo europeu dominou a Ásia, a ideologia dominante usou um discurso de que os asiáticos eram seres bárbaros, sem civilidade, sem ética, sem sentimentos, atrozes. Praticamente não-humanos. Usavam essa ideologia para justificar as brutais invasões imperialistas e todas as barbáries decorrentes. Essa “natureza subumana” dos asiáticos era mostrada como algo de caráter racial. As notícias sobre a Coréia do Norte têm o mesmo fundo e forma histórica, embora, na atualidade, o caráter racial não seja explícito. Mas notícias que falam de canibalismo em massa, pessoas sem cérebro hiper-controladas, comportamento sádico e lunático dos líderes, assassinatos bizarros e macabros, etc. tem o mesmo objetivo que o imperialismo do século XIX e XX: mostrar os asiáticos, nesse caso especifico os coreanos, como serem sem civilidade, subumanos. Se você reproduz essas notícias, você está sendo racista, mesmo sem saber.

[1] - http://oglobo.globo.com/mundo/kim-jong-un-mandou-envenenar-tia-apos-ela-reclamar-de-execucao-do-marido-alega-dissidente-16128060?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo
[2] - http://www.news.com.au/technology/s-korean-man-charged-after-praising-n-korea-on-twitter/story-e6frfrnr-1225985330397#ixzz1BFzv4GCM
[3] -http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/coreia-do-sul-deporta-americana-que-elogiou-coreia-do-norte
[4] -http://www.vermelho.org.br/noticia/255765-9
[5] - http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/05/noticia-de-execucao-de-ministro-norte-coreano-e-questionada.html


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Ainda sobre as cotas raciais: um debate sobre a posição da Esquerda Marxista.



                
No debate sobre cotas raciais, quando algum marxista se coloca contra a medida, a posição da Esquerda Marxista (EM) surge como referência. A EM é praticamente a única organização marxista de peso que coloca-se contra a política de cotas. A EM é uma organização marxista ligada a Corrente Marxista Internacional (CMI), de orientação trotskysta e estava no PT disputando o partido por dentro, mas acabou de aprovar sua saída há poucos dias (para ficar claro: a EM nunca foi governista, sempre teve posições críticas sobre o governo do PT). Pretendo, de forma breve, rebater os principais argumentos da EM sobre as cotas, sintetizados no texto “UMA CRÍTICA MARXISTA DA PROPOSTA DAS COTAS RACIAIS”, de 2014.
                
O texto da EM surgiu de um debate com Valério Arcary, intelectual do PSTU. O texto do Arcary não é de nosso interesse direto. Vamos resumir os argumentos da EM assim:
  •        O racismo é uma arma da burguesia para dividir a classe operária, superexplorar segmentos dessa classe, criar uma aristocracia operária que sirva de elemento apassivador.
  •      A política de cotas é reformista, de cunho liberal, não toca no essencial (propriedade privada dos meios de produção) e ainda estimula a divisão da classe operária.
  •    Além disso, as cotas são uma armadilha da burguesia para capturar as reivindicações dos trabalhadores negros, escondendo a contradição central entre capital e trabalho.

                 
   Evidentemente, esse quadro sumário não capta todos os meandros do texto. Mas achamos ser suficiente destacar só os argumentos centrais. O motivo é simples: o texto da EM destaca-se mais pelo não dito que pelo dito. Explicando. A EM consegue escrever um texto sobre cotas no Brasil sem citar, uma única vez, o desenvolvimento histórico do racismo no país, a história do movimento negro; o papel do movimento operário e a questão negra do ponto de vista histórico e atual; a tática e a estratégia do movimento negro e da classe operária nos enfrentamentos diários, etc. Em resumo: a EM falou de “tudo”, menos do que é importante.
                   
  Ainda temos outro elemento grave. Comparou de forma acrítica a realidade do racismo nos EUA e no Brasil. A EM afirma que nos EUA as cotas foram usadas como mecanismo compensatório de controle do movimento negro em ascensão para conter as tendências radicais como o Partido dos Panteras Negras. Depois disso, de forma sutil, induz a pensar que no Brasil as cotas teriam a mesma função. Bem, poucas palavras mostram o quanto essa comparação é esdrúxula. Os Panteras Negras foram uma partido de massa, marxista, com forte organização e consideradas pela CIA a maior ameaça ao capitalismo estadunidense no século XX! No Brasil, tivemos algo parecido? Melhorando o questionamento: as cotas raciais no país são implantadas para conter algo parecido com os Panteras (ou de mesmo peso político)? Sabemos que não. A comparação não faz sentido.
                   
Então vamos fazer, em linhas gerais, o que a EM não fez; a saber, tratar um pouco do racismo no Brasil. Afinal, divagar em abstrato não é algo da tradição marxista. No início do século XX, a classe dominante interna brasileira, assim como a da América Latina, absorve todo o racismo vigente na Europa (uma das principais ideologias do colonialismo imperialista), tratando de difundi-lo de várias formas. Até meados dos anos 30 do século XX, o Brasil era visto como um país condenado por sua mestiçagem, um país impuro, de raças inferiores (do ponto de vista físico, intelectual, etc.).
                 
A Revolução de 30, a concomitante reorganização do bloco no poder e o início da transição da sociedade agro-exportadora rural para a urbano-industrial obrigou as classes dominantes a forjar uma nova ideologia nacional: a constituição [ideológica] de uma pátria brasileira. Muitos intelectuais e instituições participaram dessa empreitada. O nome de Gilberto Freyre, contudo, merece um destaque especial.
                 
Freyre foi o homem que inverteu a ordem das coisas. Antes da miscigenação era fator de degeneração e atraso, agora era uma identidade nacional, parte de nossa história, cultura, modo de ser no mundo. A miscigenação é boa, a herança colonial portuguesa também, e a cultura popular (em versão estereotipada) é “valorizada”. Comparando com os EUA, Freyre conclui que o Brasil não tem o racismo que império tem; aqui vivemos na “unidade dos contrários” – que futuramente viria a ser chamada de democracia racial.
                    
O nosso mito de unidade nacional foi fundado na ideia de ausência de conflitos, de uma sociedade harmônica, integrada, sem opressão, sem racismo. Mesmo esse mito nacional sofrendo golpes, como o da Escola Paulista de Sociologia, como destaque para Florestan Fernandes; até hoje a nossa identidade nacional é profundamente freyreana. Nos monopólios de mídia, na universidade, nos discursos políticos, nas instituições estatais, etc. a ideologia criada por Freyre é dominante. E que fique claro: eles venceram. O Brasil, durante todo século XX, por vários motivos, nunca teve um movimento negro que ameaçasse a reprodução estrutural do racismo e questionasse suas bases (como os EUA teve os Panteras Negras).
                
Na história do movimento negro no Brasil, duas coisas saltam a vista: sua constante perspectiva culturalistas e institucionalista. Estamos falando de um movimento que sempre teve como foco de questionamento, e talvez até ação, as esferas culturais. O foco da atuação era: preservar aspectos da “cultura negra” ameaçados por poder público racialista ou por relações de dominação na mal chamada “sociedade civil” (ataques de comunidades cristãs a terreiros de religiões de matriz africana, por exemplo).
                  
O outro elemento é o institucionalismo (esse mais recente). O Movimento Negro no Brasil pensa sua atuação voltado para o estado ou formula sua pauta de atuação no estado. E não é na perspectiva de tomada do poder. Nada disso. É, no máximo, a formulação de uma política pública, o cargo em uma secretária, etc.
                
Quando entendemos a história do racismo através desses dois prismas- a vitória da ideologia negadora do racismo e a inexpressividade do movimento negro no Brasil - percebemos que os argumentos da EM de que as cotas atrasam a revolução, dividem a classe, ou fortalecem a hegemonia burguesa não fazem sentido. Historicamente a burguesia brasileira sempre teve como ideologia central negar o racismo de várias formas, se a EM diz que agora ela muda de estratégia e usa as cotas para confundir os trabalhadores; essa suposta mudança histórica deveria ser demonstrada.
                   
  Aliás, lembrar os argumentos de quem é contra as cotas também ajuda a esclarecer a questão. A maioria dos argumentos teoricamente mais elaborados – para além do senso comum liberal – argumentava que no Brasil todos somos mestiços, que não existe raça, que o governo está usando uma política racista e dividendo o povo por raças (mesmos argumentos da EM); que o racismo aqui é fraco ou inexistente (normalmente, nesse momento, comparam o Brasil com os EUA), ou que basta cotas sociais que o problema é a simples desigualdade material.
                    
  A EM chega ao cúmulo de questionar o critério de raça usado pelo o Estado brasileiro como argumento para deslegitimar a existência de raças. Oras, se raça existe ou não do ponto de vista biológico não é um importante do ponto de vista histórico-concreto. Uma pessoa negra sofrerá violência policial, será considerada esteticamente feia, será mais explorada no mercado de trabalho (com salários menores e postos de trabalho mais precarizados), terá menos oportunidade no acesso ao conhecimento, etc. E isso independente do que um intelectual acha sobre a existência ou não de “raças”. As relações sociais, a prática da cotidianidade, nos dizem que o racismo existe, e que dentro dos seus complexos estruturais, ele incide principalmente em um determinado tipo de fenótipo e certos complexos culturais. A discussão sobre os critérios do IBGE para definir quem é negro não muda em nada essa situação objetiva (embora as formas de atuação do estado, que podem ser influenciadas pelas pesquisas do IBGE, sejam tema fundamental de pesquisa).
                     
Então, depois do que foi dito acima, podemos passar para a questão das cotas em si. É necessário dizer que: as cotas partem de uma perspectiva liberal (“chances iguais” de ascensão social), não tocam na reprodução estrutural do racismo, podem estimular a ideia perigosa de que a questão do racismo pode ser resolvida em bom termo dentro do capitalismo com “políticas inclusivas” e ainda pode reduzir a combatividade do já pouco combativo movimento negro no Brasil. Oras, então por que apoiar criticamente as cotas?
                    
A questão é simples. As cotas tiveram um efeito extremamente positivo em nossa história: gera um debate nacional, talvez o maior que tivemos, sobre a existência do racismo. Com as cotas a ideologia freyreana secular da democracia racial foi abalada – mas ainda não derrubada – com força, e esse ganho tático é fundamental para os que lutam contra o racismo dentro de uma perspectiva comunista. Aliado a isso, diferente dos EUA, onde as cotas serviram para tentar apaziguar um movimento revolucionário, no Brasil as cotas deram um impulso ao movimento negro. Mas aqui temos que ter cuidado. O movimento negro continua politicamente fraco, culturalista, pós-moderno, institucionalista e atrelado ao Estado burguês. Dentro da correlação de forças, seria fugir da realidade – ou seja: esquerdismo – ser contra as cotas e brandir por um programa máximo desconsiderando a força real do movimento negro e do próprio movimento socialista.
                  
A União da Juventude Comunista (UJC), por exemplo, compreende que as cotas denunciam o nosso racismo secular, expõe o que a ideologia dominante quer encobrir e propicia o acesso de vários jovens negros a universidade; ao mesmo tempo, declara que seu apoio é crítico: entende todos os limites da medida e o risco de torná-la um instrumento de controle e atrelamento ao Estado burguês e não resolver o problema estrutural do racismo.
                    
  Podemos dizer, em resumo, que a questão das cotas é tática. Apoia-las quando se tem um movimento como os Panteras Negras é um erro brutal; contudo, na conjuntura brasileira, considerando a correlação de forças e quem estava e está contra as cotas, apoiar a medida é uma mediação tática acertada. Mas alguém pode dizer que apoiar uma medida paliativa usando como argumento a conjuntura e a correlação de forças faz dos comunistas reformistas. Isso é totalmente falso. A grande diferença dos comunistas para os que estão adaptados a ordem burguesa é que nós, em certas conjunturas, podemos apoiar medidas reformistas, mas sempre lutamos para mudar a conjuntura e conseguir transcender, avançar, a pauta reformista para uma revolucionária.
                


domingo, 10 de maio de 2015

Breve histórico da luta comunista contra o racismo nos EUA



                
Os negros e negras proletários estadunidenses entraram num novo e intenso clico de lutas. Depois da chamada “Revolução dos Direitos Civis”, a reação da burguesia foi brutal. Ronald Reagan, líder da contrarrevolução neoliberal, iniciou a “guerra às drogas” e a construção de um Estado Penal como nunca antes visto. A população afrodescendente passou a ter direitos civis, mas agora são encarcerados em massa, vigiados, agredidos e mortos pela polícia como nunca. Hoje, nos EUA, temos mais negros presos que na época da escravidão [1]. A reação despótica da classe burguesa engendrou novas regressões nos direitos civis e políticos. Os EUA, atualmente, não têm sufrágio universal, a maioria dos afro-americanos são impedidos de votar de várias formas [2].
                    
Nesse novo ciclo de lutas, vale à pena relembrar, ainda que brevemente, a participação dos comunistas na luta contra o racismo, pela democracia e justiça social. Vou centrar-me no século XX para deixar o texto mais conciso e breve. Não pretendo fazer um histórico detalhado, mas deixarei muitas fontes bibliográficas para quem quiser aprofundar-se.

Os sentidos do leninismo: o combate ao racismo e colonialismo.
                      
                 
 Depois do fim da escravidão, como forma de controlar os afro-americanos que agora formariam a camada mais explorada do proletariado do país, foi criado o regime de segregação racial, Jim Crow. Uma sinergia curiosa foi montada: o poder público burguês nos estados do Sul agia de todas as formas possíveis para marcar toda cotidianidade com a forte hierarquização racial e a “sociedade civil” atuava como poder de polícia matando e torturando livremente qualquer pessoa negra que questionasse o estado-sociedade racialista. No Norte, embora a segregação não fosse explicitamente institucionalizada, também era presente e demarcava, inclusive, até os espaços de ocupação geográfica (bairros só para negros, os mais precários é claro; e bairros para brancos).
                  
Embora desde o início do século vários movimentos sociais de direito dos afro-americanos tenham surgindo e estivessem atuando, o seu sucesso era quase nulo. As estruturas de reprodução do estado-sociedade racialista pareciam fortes demais. O movimento socialista da Segunda Internacional não se dedicava como deveria à causa da libertação dos negros. Vários lideres eram indiferentes à causa negra, alguns eram racistas e muitos não aceitavam negros nos sindicatos e no partido.

“O movimento socialista anterior, do qual o Partido Comunista surgiu, jamais reconheceu a necessidade de um programa especial sobre a questão do negro. Esta era considerada pura e simplesmente um problema econômico, uma parte da luta entre os operários e os capitalistas; a ideia era que não se podia fazer nada sobre os problemas especiais da discriminação e a desigualdade antes da chegada ao socialismo” [3]
                 
Essa atitude dos socialistas dos EUA não era fato isolado. O movimento operário socialista da Segunda Internacional, com nobres exceções (como o grupo de Rosa Luxemburgo e os Bolcheviques na Rússia), não tratou da questão do racismo, não lutou contra o colonialismo ou apoiou o colonialismo. Mas tivemos uma virada histórica.
               
A Revolução Russa é lembrada principalmente por seu conteúdo socialista. Contudo, para a emancipação dos trabalhadores, outra dimensão da Revolução Russa não pode ser esquecida: ela foi a primeira revolução anticolonial e antirracismo de proporções mundiais. O domínio da autocracia czarista sobre as minorias nacionais do território russo era revestido de uma dominação racista - além da Rússia também ser uma potência colonial. Quando os Bolcheviques tomam o poder, eles fazem um chamado para todos os povos coloniais do mundo: libertam-se, quebrem suas correntes!
                  
Com a consolidação do Poder Soviético e sob a liderança de Lênin, o movimento operário passa por um processo de reorganização. A Terceira Internacional ou Internacional Comunista é fruto disso. A Internacional Comunista traça uma virada fundamental com o movimento operário anterior: agora combater o colonialismo e o racismo é dever fundamental de todo comunista; é questão de estratégia e de princípio. O leninismo marca uma ruptura drástica com qualquer forma de chauvinismo imperialista e racismo velado ou explícito.

Em relação a este mundo, Lênin representa uma ruptura não só no plano político, mas também epistemológico: a democracia não pode ser definida independentemente dos excluídos, "o despotismo" exercido sobre "bárbaros" obrigados à "obediência absoluta" própria dos escravos e as infâmias da expansão e do domínio colonial lança uma luz inquietante sobre os Estados Liberais, e não só que respeita à sua política interna (Losurdo, 2006, p. 18).
                  
Todos os partidos que aderiram à Terceira Internacional tiveram que combater de verdade o racismo e o colonialismo. Esta era uma das 21 condições para aderir à IC. Esse novo rumo do movimento comunista causou um impacto político em todo o “terceiro mundo”. Na África, Ásia, América Latina e nos guetos negros dos EUA, os comunistas começaram a ganhar força. Uma ruptura com a prática política anterior e a melhor formulação teórica do problema do racismo trouxeram os negros e negras para a luta comunista [4].

"Depois de novembro de 1917, esta nova doutrina, com ênfase especial nos negros, começou a ser transmitida ao movimento comunista norte-americano com a autoridade da Revolução Russa. Os russos,  na Comintern [nome russo para Internacional Comunista], começaram a enfrentar os comunistas norte-americanos com a exigência brusca e insistente de que abandonassem seus próprios preconceitos não declarados, que dessem atenção aos problemas e queixas especiais dos negros norte-americanos, que trabalhassem entre eles e que se convertessem em campeões de sua causa dentro da população branca" [5].
                
   O resultado é que os anos 20 e 30 foram de crescimento dos comunistas e fortalecimento no combate ao racismo como nunca tivera acontecido até então. Um exemplo é necessário para exemplificar esse processo. Durante as primeiras três décadas do século XX, o linchamento brutal de pessoas negras era regra nos estados do Sul. As seções públicas de tortura eram praticadas tanto pelo poder público burguês como pela “sociedade civil” (com total cobertura do Estado). Se existe uma situação de repressão tão violenta que pode ser descrita como totalitarismo, essa era a situação dos negros no sul dos EUA. Para termos ideia do nível da barbárie:

Talvez o ato mais brutal tenha sido o ocorrido em Valdosta, no Estado da Geórgia, em 1918. Mary Turner, uma mulher negra grávida, foi enforcada numa árvore, embebida com gasolina e queimada. Quando se balançava na corda, um homem da multidão puxou uma faca e abriu seu ventre. Seu filho caiu. “Deu dois gemidos fracos – e recebeu como resposta um pontapé de um valentão, no momento em que a vida era triturada nessa forma tão minúscula” (Jones, 1973, p. 15).
                     
A aceitação pública desses linchamentos era tão grande, que os jornais divulgavam até os anos trinta quando os linchamentos iriam acontecer e convidavam as pessoas para assistirem. Isso só mudou com a atuação dos comunistas. O partido Comunista dos EUA e a Internacional Comunista passaram a desenvolver campanhas nacionais e internacionais contra os linchamentos e a organizar formas de autodefesa. Sintetizando a ação dos comunistas:

A URSS de Stalin influencia poderosamente a luta dos afro-americanos (e dos povos coloniais) contra o despotismo racial. No Sul dos EUA, se assiste a um fenômeno novo e preocupante do ponto de vista da casta dominante: é a crescente 'imprudência' dos jovens negros. Estes, graças aos comunistas, começam, de fato, a receber o que o poder teimosamente lhes negava, a saber, uma cultura que vai muito além da instrução elementar tradicionalmente transmitida aos que estão destinados a fornecer trabalho semiescravo à serviço da raça dos senhores. Agora, porém, nas escolas organizadas pelo partido comunista no norte dos Estados Unidos ou nas escolas de Moscou, na URSS de Stalin, os negros se empenham em estudar economia, política, história mundial; interrogam essas disciplinas para compreender também as razões da dura sorte reservada a eles num país que se comporta como campeão da liberdade. Aqueles que frequentam tais escolas passam por uma mudança profunda: a "imprudência" censurada a eles pelo regime de white supremacy é, na realidade, a autoestima deles até aquele momento impedida e espizinhada (Losurdo, 2010, p. 280-281)
E:

O CSITN [Comitê Sindical Internacional dos Trabalhadores Negros] se envolveu ainda em outra campanha de solidariedade internacional. Desta vez foi para libertar o ativista sindical negro estadunidense Angelo Herndon. Este havia liderado uma manifestação de trabalhadores desempregados (Marcha da Fome) em junho de 1932 na cidade sulista de Atlanta e, por isso, foi preso e acusado de tentativa de insurreição. Um júri o condenou a 20 anos de prisão. Houve denúncias e manifestações em todo o mundo, encabeçadas pela IC e pela ISV. Herndon foi libertado algum tempo depois. Os negros estadunidenses sabiam que não estavam mais lutando sozinhos, tinham o apoio de uma forte corrente política socialista internacional – fato que aumentou a influência dos comunistas junto a essas comunidades não somente na América” [6].
                 
Não à toa, depois da segunda metade dos anos 30, não é mais possível achar em jornais dos EUA anunciou públicos de linchamento. Eles, é lógico, não sumiram de vez. Contudo, houve uma redução substancial e sua aceitação pública foi diminuída. Ampliando esse quadro, como já tratei em outro texto, a própria URSS era um exemplo de relações étnico-raciais não opressivas e sem discriminação [7]. E isso influenciava muito a luta dos afro-americanos pôr direitos civis e políticos:

Uma negra, delegada no Congresso Internacional das mulheres contra a guerra e o fascismo, que se realiza em Paris em 1934, fica extraordinariamente impressionada com as relações de igualdade e fraternidade, apesar das diferenças de línguas e de raça, que se instauram entre os participantes dessa iniciativa promovida pelos comunistas: 'Era o paraíso na terra'. Aqueles que chegam a Moscou - observa um historiador estadunidense contemporâneo - 'experimentam um sentido de liberdade inaudito no sul'. Um negro se apaixona por uma branca soviética e se casam, mesmo se depois, ao voltar à Pátria, não pode levá-la consigo, sabendo o destino que o sul aguarda aos que se mancham com a culpa da miscegenation e do abastardamento racional (Losurdo, 2010, p. 280-281)
                 

Situação depois da Segunda Guerra Mundial.

                    
Há uma reversão no quadro no pós-Segunda Guerra. Com a vitória da URSS sobre o nazifascismo – que, não custa lembrar, foi à vitória do maior símbolo de combate ao colonialismo sob o maior símbolo do racismo e do colonialismo –, a popularidade do comunismo no mundo sofre outra grande explosão. Temos a segunda grande onda de propagação das ideias comunistas. A burguesia dos EUA percebendo isso, passa a adotar uma política sanguinária de repressão aos comunistas. Perseguição de artistas, fechamento de gráficas e sedes do partido comunista, assassinatos de líderes, prisões ilegais, torturas, desaparecimentos, proibição do funcionamento do partido comunista e de qualquer outra organização comunista e várias outras medidas repressivas são tomadas. O marxismo só foi permitido e, com muitas restrições, dentro da universidade, assim como na ditadura empresarial-militar brasileira.
                     
Toda essa repressão causou uma baixa tremenda no partido comunista, mas não apagou todo o seu trabalho histórico. Se nos anos 50 e 60 o PC praticamente não podia atuar, o seu legado continua atuando:

“Em 1951, a Suprema Corte dos EUA estava debatendo se a segregação racial era ou não constitucional. O Departamento de Estado enviou um relatório aos juízes defendendo a inconstitucionalidade, caso contrário, a decisão poderia “favorecer o crescimento de movimentos comunistas e revolucionários” dentro do próprio país. Mesmo essa emancipação modesta não foi decidida de forma espontânea pelas classes dominantes, mas por medo do movimento comunista, em resposta a uma grande revolução que se desenvolvia no mundo” [8]
                 
 Nos anos 60, com o fortalecimento do movimento pelos direitos civis, as tendências pacifistas passam a dominar. Martin Luther King acaba virando o maior símbolo de um movimento negro que queria direitos civis e políticos iguais e um capitalismo não racista, lutando através dos métodos da não violência. Embora o movimento liderado por King também tenha sofrido repressão, ficou notório como vários segmentos da burguesia preferiam dialogar com King ao invés de tendências radicais, à época, simbolizada por Malcolm X [9].
                   
O regime Jim Crow foi derrubado. Ao que parecia a igualdade formal tinha sido estabelecida, mas na prática os afro-americanos ainda eram os mais pobres, tinham menos direitos sociais e econômicos e continuavam sobre um regime despótico garantido pela onipresente violência policial. Com o assassinato de King – ao que tudo indica pelo FBI-, as tendências radicais ganham força.
                      
Na segunda metade dos anos 60,  o Partido dos Panteras Negras é fundado, na cidade de Oakland. Os Panteras tinham forte inspiração no maoísmo (tendência de grande sucesso mundial na época), defendiam a autodefesa e auto-organização do povo negro e compreendiam que o racismo estava imbricado com a exploração e dominação de classe - que o combate ao racismo passa necessariamente pelo combate ao capitalismo [9].
                       
 Com clareza ideológica e forte disciplina, os Panteras Negras cresceram de forma espetacular. Em pouco tempo, em quase todo gueto negro dos EUA, existe uma célula dos Panteras. O seu programa político tornou-se um manifesto nacional na luta contra a opressão e a exploração. A CIA chegou a classificar os Panteras como a “maior ameaça ao capitalismo que tivemos até hoje em nosso país”. Nas comunidades onde os Panteras eram hegemônicos eles não só organizaram o povo contra violência policial, mas criaram  creches, escolas, bibliotecas, cuidavam da alimentação das crianças e escolarizavam os analfabetos. Era uma forma completa de poder popular.
                    
Evidentemente que a burguesia não demorou para reagir. E a reação foi avassaladora . De novo, a terra que se proclama como bastião da liberdade, não hesitou em usar assassinatos em massa, prisões ilegais, tortura, incêndios criminosos, estupros etc. FBI, CIA e policia, atacaram os Panteras de todas as formas possíveis. O confronto foi sanguinário; as forças desiguais. A balança só pendeu para o lado do poder burguês quando ele em parceria com traficantes internacionais de drogas colocou o crack nas comunidades para acabar com a organização política do gueto [11].
                    
 Sim, o crack foi criado como instrumento político para desarticular os guetos negros e destruir os Panteras Negras. O crack combinado com a repressão e a brutal propaganda dominada por monopólios da comunicação conseguiu neutralizar a ascensão da organização dos trabalhadores negros. O poder burguês, com a contrarrevolução neoliberal, depois de derrotar os Panteras Negras, quis garantir que os afro-americanos não seriam mais uma ameaça ao capitalismo racista. A burguesia passou à ofensiva. Usou o crack para destruir a organização política do gueto e a “guerra às drogas” como justificativa ideológica para uma megaoperação de hiperencarceramento e criminalização das comunidades negras:

Aqui queremos simplesmente observar que um importante motor por detrás do crescimento carcerário nos Estados Unidos foi a “guerra às drogas” – política cujo nome não é adequado, uma vez que designa, na realidade, uma guerra de guerrilha à perseguição penal aos traficantes das calçadas e aos consumidores pobres -, dirigida primordialmente contra os jovens das áreas urbanas centrais decadentes, para quem o comércio de narcóticos no varejo fornecia a fonte mais acessível e confiável de emprego lucrativo na esteira do recuo duplo do mercado de trabalho e do Estado de bem-estar. Trata-se de uma “guerra” que as autoridades não tinham razão algum em declarar em 1983, considerando que o uso de maconha e da cocaína estavam em declínio progressivo desde 1977-79 e que a abordagem utilizada nas campanhas antidrogas voltadas para redução da oferta tinha uma longa e bem conhecida história de fracasso nos Estados Unidos. Era completamente previsível que essa política atingiria de forma desproporcional os afro-americanos das classes inferiores [dominadas], visto que apontada diretamente para os bairros despossuídos do centro urbano decadente (Wacquant, 2007, p. 114-115).


Conclusão.
                 
                   
 Nos anos 90 e 2000, o movimento negro nos EUA foi caracterizado por sua quase inexistência e falta de expressão política. Aconteciam vários levantes negros de forma esporádica, normalmente contra a violência policial, mas sem uma conseqüência política e organizativa. Os comunistas acabaram praticamente sumindo da cena política dos EUA.
                    
 Os últimos dois anos, contudo, nos dão motivo para voltarmos a ter esperança. O movimento negro combativo renasce nos EUA e os Panteras Negras aparecem cada vez mais como um símbolo de luta a ser seguido. Inclusive, organizações vêm surgindo e se denominando como os “novos Panteras Negras” [12]. Embora os negros e negras dos EUA estejam ainda acumulando experiência organizativa e teórica nessa nova fase, todo acúmulo histórico que for aprofundado terá grande serventia nessa luta. E que os afro-americanos da classe trabalhadora dos EUA descubram o que seus ancestrais lutadores descobriram no passado: só se destrói o racismo destruindo o capitalismo.

Notas
[1] –http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/30858/sem+tempo+para+sonhar+eua+tem+mais+negros+na+prisao+hoje+do+que+escravos+no+seculo+xix.shtml
[2] –http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1745.
[3] – https://www.marxists.org/portugues/cannon/1959/05/08.htm
[4] –http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo249artigo139artigo212artigo5.pdf
[5] –https://www.marxists.org/portugues/cannon/1959/05/08.htm
[6] - http://www.pagina13.org.br/historia-humanidades/a-internacional-comunista-e-a-questao-racial-2a-parte/
[7] –http://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/52622-ser-negro-na-uni%C3%A3o-sovi%C3%A9tica-e-nos-estados-unidos-uma-compara%C3%A7%C3%A3o-hist%C3%B3rica.html
[8] –http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/31615/losurdo+producao+das+emocoes+e+novo+estagio+do+controle+da+classe+dominante.shtml
[9] – http://www.adorocinema.com/filmes/filme-175581/
[10] – Sobre o nascimento dos Panteras Negras: https://www.youtube.com/watch?v=sKuyDdoo3NI
[11] –http://www.urutagua.uem.br/012/12jansen.htm
[12] - http://quoduniomystica.blogspot.com.br/2014/08/novo-grupo-de-autodefesa-inspirado-nos.html

Bibliografia.

Domenico Losurdo. Stalin: uma história crítica de uma lenda negra. Editora Revan. 2010.
Loic Wacquant. Punir os pobres. A nova gestão da miséria nos Estados Unidos [a onda punitiva]. 3° edição. Editora Revan. 2007.
James M. Jones. Racismo e preconceito. Editora Universidade de São Paulo. 1973.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

70 anos da derrota do nazifascismo: o papel esquecido da União Soviética e os sentidos da Segunda Guerra.




70 anos atrás a humanidade era liberta de uma das maiores ameaças de sua história: uma radicalização planetária da política racista e imperialista vigente na África e na Ásia. O nazismo era um projeto imperialista que desejava radicalizar a divisão do mundo entre humanos e subumanos (as raças inferiores) e fazer dos segundos os escravos econômicos eternos dos primeiros (como França, Inglaterra, Bélgica, EUA e Holanda já faziam no “Terceiro Mundo”). A grande novidade do nazismo é que essa política agora seria aplicada na própria Europa e que os brancos também seriam tomados como “raças inferiores”. Tudo isso, é claro, organicamente apoiado pelo grande capital alemão e estadunidense, afinal, o nazismo teve outra missão fundamental: conter a expansão do comunismo na Alemanha e na Europa.

Se o nazismo simbolizava a radicalização de uma longa tradição Ocidental-imperialista racista e colonialista, a União Soviética representa o contrário. A Revolução Russa teve um caráter anti-colonial e anti-racismo e o desenvolvimento da transição socialista na URSS, malgrado todos seus limites, trouxe um elemento fundamental: o apoio sistêmico e indispensável no combate ao colonialismo, racismo e apartheid no mundo e o desenvolvimento de relações étnico-raciais não opressivas na própria URSS. A União Soviética foi o primeiro país do mundo a criminalizar o racismo, criar um sistema político com direitos universais (independente de raça, gênero, nacionalidade, nível de renda etc.), garantir uma política democrática para as minorias nacionais, promover uma ampla política cultural e educacional de combate ao racismo (que perpassava desde a produção da arte até o sistema educacional) e estimular de várias formas possíveis a libertação dos povos coloniais. Sintetizando a política soviética de igualdade étnico-racial:

A União Soviética foi o primeiro império mundial fundado sobre a affirmative action. O novo governo revolucionário da Rússia foi o primeiro entre os velhos Estados europeus multiétnicos a enfrentar a onda crescente do nacionalismo a responder promovendo sistematicamente a consciência nacional das minorias étnicas e estabelecendo para elas muitas das formas institucionais características do Estado-nação. A estratégia bolchevique foi assumir a liderança daquele processo de descolonização que se apresentava como inevitável e levá-lo a cabo de modo tal que preservasse a integridade territorial do velho império russo. Para tal fim o Estado soviético criou não só uma dúzia de repúblicas de amplas dimensões, mas também dezenas de milhares de territórios nacionais espalhados por toda a extensão da União Soviética. Novas elites nacionais eram educadas e promovidas a posição de lideranças no governo, nas escolas, nas empresas industrias desses territórios recém-formados. Em muitos casos isso tornou necessário a criação de uma língua escrita lá onde antes não existia. O Estado soviético financiava a produção em massa nas línguas não russas de livros, jornais, diários, filmes, óperas, museus, orquestras de música popular e outros produtos culturais. Nada comparável existiria antes (Martin apud Losurdo, 2008, p. 171).

Quando a Alemanha Nazista invadiu a URSS, o mundo não tinha dúvidas do que significava esse confronto: era a batalha entre o império do capital monopolista racista e colonialista contra a pátria da Revolução de Outubro que defendia a emancipação dos povos coloniais e o fim do domínio despótico do capital sobre o mundo.

Nos discursos oficiais ao Exército Vermelho, Stalin deixa bem claro o sentido da Grande Guerra Patriótica:

Seria ridículo identificar a camarilha hitlerista com o povo alemão, com o Estado Alemão. As experiências da história demonstram que os Hitler vão e vêm, mas que o povo alemão, o Estado Alemão permanece. A força do Exército Vermelho reside no fato de que ele não nutre nem pode nutrir nenhum ódio contra os outros povos e, portanto, nem sequer contra o povo alemão; ele é educado no espírito da igualdade de todos os povos e de todas as raças, no espírito do respeito e dos direitos dos outros povos (Stalin apud Losurdo, 2008, p. 40).

Depois do fim da Segunda Guerra, outra grande guerra teve início: a Guerra Fria. Essa provocou uma sistêmica política de esquecimento do que foi e do que representou a Segunda Guerra e a derrota do nazifascismo – como afirmei em outro texto: o nazismo é um dos fenômenos históricos mais estudados e desconhecidos da atualidade. A ideologia dominante conseguiu equiparar pólos antagônicos e através do ápice do cretinismo sociológico, a categoria de totalitarismo, passou a equiparar os sistemas políticos, econômicos e ideológicos da União Soviética, Alemanha Nazista e Itália Fascista [1].

Até quem, do ponto de vista militar, derrotou o nazifascismo, a ideologia dominante procura esconder. Principalmente através da gigante indústria cinematográfica estadunidense, a ideologia dominante procura mostrar os EUA como o principal responsável pela derrota da camarilha hitleriana. Uma pesquisa feita na França ao final da Segunda Guerra mostra que 57% dos franceses consideravam a URSS a principal responsável pela derrota do nazifascismo. Em 2015, a mesma pesquisa é feita, e só 23% das pessoas consideram a URSS como a principal responsável pela vitória na Segunda Guerra, ao passo que 54% das pessoas atribuem esse papel aos EUA [2]. O mítico dia D, que não passou de uma operação de penetração das forças capitalistas na frente ocidental para impedir o avanço dos soviéticos, é mostrado como a batalha que decidiu a Segunda Guerra numa tentativa grotesca de esconder o que foi a batalha de Stalingrado.

Para concluir, podemos dizer que nesses 70 anos da vitória sobre o nazifascismo, a tarefa fundamental dos comunistas é combater a ideologia dominante. Resgatar o sentido histórico do que foi a Segunda Guerra Mundial e preservar a memória de nossas épicas lutas de emancipação no século XX [3]. Combater a ideologia dominante que mostra a história do comunismo como uma série interminável de crimes de lesa-humanidade produzindo concomitantemente uma história idealizada e idílica do capitalismo liberal é tarefa fundamental. Os comunistas não devem ter vergonha de sua história. Devem gritar em alto e bom som que em Stalingrado a roda da história parou, e através do sangue de milhões de marxistas-leninistas, ela voltou a girar dando as costas para a barbárie absoluta.


Notas

[1] – Uma crítica demolidora da categoria de totalitarismo: http://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arquivos_biblioteca/artigo100critica17-A-losurdo.pdf
[3] – Um texto importante sobre a URSS e a Segunda Guerra: http://diplo.org.br/2005-05,a1112

Livro citado


Domenico Losurdo. Stalin: uma história crítica de uma lenda negra. Editora Revan.  2010.