segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Retrospectiva da marcha fúnebre de 2015: o direito ao trabalho e o tiro na cabeça



Esse rapaz na foto é Carlos Augusto Braga, trabalhador ambulante, morto aos 30 anos e pai de 4 filhos. Carlos foi assassinado pela polícia militar enquanto os policias realizavam uma operação de criminalização do comércio ambulante em São Paulo. Seu assassinato, com um tiro na cabeça, foi filmado e circulou na internet. Graças às imagens a versão da polícia militar pôde ser desmentida, a corporação alegava que o tiro foi "acidental" e que o policial que atirou teria sido "ferido" e parte do seu colete "arrancado". 


O assassinato de Carlos é a expressão de uma política urbana higienista e criminalizante que persegue os excluídos do mercado de trabalho formal e procura "limpar" determinados territórios para valorização imobiliária e especulativa, combater a concorrência às lojas formais e/ou simplesmente retirar pessoas das "classes perigosas" de circulação. Carlos era um típico "pai de família" que sustentavam sua esposa e seus quatro filhos com o suor do seu trabalho. Durante o velório, Claudiane, esposa de Carlos, disse que "“ as crianças ainda perguntam quando o pai vai voltar ““. Carlos nunca voltará e uma família pobre ficou em situação ainda mais difícil. 

O policial que matou Carlos foi indiciado por homicídio culposo, isto é, quando não há intenção de matar. O policial não puxou o gatilho sozinho. Foi treinado para combater o "inimigo interno", os monopólios de mídia legitimam socialmente a violência policial, o sistema judiciário é responsável por sancionar os "autos de resistência" e as mortes "acidentais" diárias como parte da "normalidade democrática" e os governos - municipal, estadual e federal - operam, mantêm e legitimam essa máquina de matar as classes exploradas. 

A operação anti-comércio ambulante que terminou na morte de Carlos foi organizada pela prefeitura de São Paulo de Fernando Haddad. Na época o "prefeito gato" disse que foi um "caso isolado" e que temos que esperar a apuração para saber "o que deve fato aconteceu". A memória da “opinião pública” é criada pelos monopólios de mídia e eles nunca mais falaram desse caso e Haddad nunca dirá nada sobre o que "de fato aconteceu". 

Carlos queria apenas trabalho e uma vida digna. Morreu com um tiro na cabeça. Seus filhos vão viver com a dor de crescer sem o pai. É a história de mais uma vítima do genocídio operado pelo Estado burguês no Brasil.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O assassinato da História: crítica a um panfleto antibolchevique


Lênin discursando para operários.
Um camarada de Santa Catarina, Leonel Luiz, escreveu um interessante artigo para revista “Marxismo e Autogestão” n°3, intitulado “O Papel Contrarrevolucionário do Bolchevismo na Revolução Russa” [1]. Leonel tenta demonstrar que o Partido Bolchevique longe de ter sido uma força impulsionadora do processo revolucionário foi um instrumento da contrarrevolução. Ele combate o bolchevismo no passado e no presente e nos avisa dos malefícios que representa o KKE (Partido Comunista Grego) e sua ideologia que “põe em perigo o destino da humanidade” (p. 18).

Nosso texto será uma resposta ao artigo do Leonel. A metodologia de construção é bem simples: a) iremos expor os argumentos principais do texto analisado e cotejando-os com críticas; b) demonstrar como esse panfleto antibolchevique é extremamente carente de fontes históricas, referências e é totalmente crivado de afirmações sem qualquer demonstração em pontos chaves; c) explicitar como o autor excluiu a História de seu escrito e cria uma narrativa maniqueísta onde análise materialista dos processos históricos é inexistente.


Uma perspectiva proletária ou messiânica?


Nosso autor antes de entrar na parte “histórica” do seu panfleto, tenta esboçar sua perspectiva teórica.  Diz que a historiografia dominante (no Brasil, na América Latina ou no Mundo?) se divide em duas correntes: a perspectiva burguesa e a burocrática bolchevique (p.01) e seu artigo será baseado na perspectiva proletária, a marginalizada da História. Depois de manejar de forma muito boa trechos de Marx e Engels sobre a crítica da economia política, Leonel começa a nos esclarecer o que é sua perspectiva proletária.

Para nosso autor a experiência da Comuna de Paris, expressa no texto a Guerra Civil na França de Marx, inaugura a possibilidade histórica da autogestão social dos produtores associados. Segundo nosso conselhista, essa autogestão como possibilidade histórica é inaugurada através das seguintes medidas: a) delegados elegíveis, responsáveis, demissíveis e substituíveis; b) Substituição do exército pelo “povo em arma”; c) abolição do Estado (exército permanente, polícia, burocracia, magistratura e clero) (p.04). Completa o nosso autor:

“Assim caracterizamos como uma revolução proletária o acontecimento histórico em que a classe operária, avançando na luta por seus interesses históricos emancipatórios, destrói as relações de produção capitalistas, fundamentadas no processo de extração de mais-valor. Tal processo destrói o estado burguês e constitui a autogestão generalizada” (p. 04).

Podemos escrever muito sobre a concepção de revolução proletária expressa no texto do Leonel. A primeira coisa a ser dita é que o texto de Marx sobre a Comuna de Paris foi por muito tempo tomado como a expressão de uma forma política acabada e aplicável em qualquer formação social e conjuntura política de tomada do poder pelas classes exploradas. Embora exista certa ambiguidade em Marx e Engels na avaliação de em que medida as iniciativas da comuna são de aplicação histórico-universal em sua forma política, o fato é que no prefácio que escreveram juntos para o Manifesto do Partido Comunista, em 1872 [2], Marx e Engels fizeram questão de sublinhar como maior ensinamento da Comuna que a classe operária não pode apossar-se do Estado burguês e colocá-lo ao seu favor; deve quebrar sua máquina, seus aparelhos e construir um novo poder político que seja um instrumento de emancipação da classe trabalhadora.

Marx parece ter percebido que a Comuna estava numa situação extremamente peculiar e que suas medidas conjunturais estavam intimamente relacionadas com essa situação. Senão vejamos. A Comuna surge quando na guerra Franco-alemã a burguesia da França decide capitular e entregar Paris para Bismark; a classe operária de Paris recusa isso e monta a defesa da cidade. Enquanto garante a defesa de Paris os operários realizavam transformações políticas, econômicas e sociais importantes, porém o que a maioria dos comentadores e adoradores, do texto de Marx, perdem de vista é justamente o central: essas transformações foram realizadas sobre uma situação extrema de cerco de guerra que conta com a mobilização total, desnatura o cotidiano, cria um clima psicossocial atípico.

Leonel não se pergunta em nenhum momento do seu texto qual a possibilidade de repetir as medidas específicas da Comuna e qual sua atualidade para os dias de hoje. Defender o fim das Forças Armadas e o “povo em armas” parece uma ideia muito linda, mas desconsidera todo o desenvolvimento da tecnologia militar e das novas formas de guerra dos últimos 100 anos; funcionários demissíveis a qualquer momento pode até funcionar numa situação psicossocial de mobilização permanente, como numa guerra, mas dificilmente numa situação de normalidade – imagine, por exemplo, o tempo de formação para criarmos médicos, professores, dentistas, psicólogos e assistentes sociais, etc. Agora imagine escolas, hospitais, universidades, etc. onde todos os funcionários podem ser demitidos a qualquer momento; fim do Estado é a proposta mais interessante de todas e precisamos falar melhor dela.

A caracterização clássica do pensamento marxiano é que o Estado é um instrumento de dominação de uma classe sobre a outra. Porém, o poder político é dominação porque as relações de produção são antagônicas, exploratórias. O pressuposto correto seria deduzir que com a transformação das relações de produção, isto é, eliminação da propriedade privada fundamental dos meios de produção, teríamos uma forma de poder público onde sua constituição ontológica não é fundamentada na dominação política. Marx e Engels intuem isso várias vezes ao falar de passar da “administração das pessoas para as coisas” ou “poder público que perde seu caráter político” [3].
  
O fato é que Marx e Engels nunca conseguiram elaborar de forma sistemática o que é esse novo poder político que expressa à coletividade que necessariamente surgirá na sociedade em transição socialista e no comunismo. A grande obra de Engels A Origem da Família, Propriedade Privada e do Estado, acabou aumentando a confusão. Engels demonstra que o Estado só surge com o nascimento da propriedade privada e da família monogâmica – Estado enquanto instrumento de dominação de uma classe sobre a outra -, mas não deixa claro o suficiente que antes do surgimento do Estado existia formas de organizar a coletividade, isto é, formas de poder político, que por não estarem fundamentadas em relações de produção antagônicas não eram constituídas pela dominação.

Leonel não compara o texto clássico de Marx com a realidade. Ele cita o texto e trata o problema teórico como resolvido – é como o crente citando capítulos e versículos da Bíblia. Sua perspectiva de revolução proletária fala da destruição das relações de produção capitalista e do Estado burguês, contudo, não avança na direção de tratar as formas de poder popular que necessariamente realizam essa destruição das relações de produção capitalistas e criam as relações de produção comunistas. Falar em autogestão para toda sociedade é uma forma de nosso amigo dizer: não vamos precisar de nenhuma forma de poder político organizado porque todo mundo irá fazer tudo num clima de mobilização total e permanente.

Cabe perguntar como se organizaria essa autogestão total. Vamos esboçar um pequeno exemplo do problema. Todas as fábricas estão socializadas e sobre a autogestão operária. O plano econômico de 2018 construído de forma amplamente democrática com todas as bases decide que temos que aumentar a produção de cimento para construirmos mais casas, hospitais, escolas, universidades etc. O plano econômico é aprovado e será executado. Os operários da fábrica de cimento vão ter que aumentar a produção para garantir a execução do plano econômico; não está em debate dentro da fábrica se a produção será aumentada ou não, de forma coletiva e democrática, a sociedade sem antagonismo de classe expressou suas necessidades, os operários da fábrica de cimento podem e devem decidir a FORMA de aumentar essa produção procurando, é claro, garantir sua saúde, bem-estar físico e psicológico.

Se existir a possibilidade de cada unidade produtiva não cumprir o plano econômico porque uma assembléia da unidade é superior a qualquer coisa e tem autonomia total e absoluta, isso significa que teremos unidades produtivas isoladas ligadas por interesses particulares (ainda que coletivos, isto é, dos operários daquela empresa) que realizam sua produção desconsiderando as necessidades do conjunto da sociedade e se relacionado através de circuitos mercantis ampliados, ou seja, teremos algo próximo da Iugoslávia de Tito!  – até hoje a humanidade depois de entrarmos na era capitalista só conhece duas grandes formas de transação de riquezas: a mercantil-capitalista e a planificada.

O operário da fábrica de cimento também espera que os professores da escola não decidam numa assembléia que vão entrar de férias por dois meses no meio do ano letivo e se ficar doente e precisar de atendimento de urgência, espera que os médicos não decidam não atender no horário da tarde porque faz muito calor. Enfim, imaginar uma sociedade de grandes fábricas com autonomia absoluta onde as pessoas fazem escambo é algo até divertido para quem gosta de RPG, mas pouco factível quando falamos do mundo real.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Saída de Levy e recomposição do Bloco no Poder


Joaquim Levy saiu do Ministério da Fazenda. Nelson Barbosa, Ministro do Planejamento, agora assume a pasta. O direcionamento político dessa mudança parece mais ou menos evidente. O primeiro ponto é fugir da lenda de que a política econômica era ditada por Levy (o famoso grito do "Fora Levy"). A política econômica é do governo e os ministros "apenas" operacionalizam e representam dentro do aparelho do Estado às diferentes frações do capital - é de conhecimento geral que Levy é um representante orgânico da fração bancária do capital. 

Pois bem, me parece que o Governo manterá o ajuste fiscal como prioridade realizando a política que interessa ao capital financeiro internacional e a fração bancária do capital - os setores dominantes do bloco no poder, isto é, do conjunto de classes e frações dominantes -, mas procurará um ajuste um pouco mais flexível e mais "brando" para as outras frações do capital - não para os trabalhadores e movimentos sociais. 

O apoio da FIESP ao impedimento deve ter aberto o sinal vermelho no governo. Se as outras entidades da burguesia "industrial" interna, como a CNI e ABIMAQ, passassem a apoiar o impedimento, a situação do PT ficaria bastante complicada (ABIMAQ, FIESP e CNI vinham realizando críticas muito duras ao ex-ministro). Além disso, nesse momento do impedimento é necessário mobilizar a base social governista e nada melhor para isso que a saída de Joaquim Levy - através de muita propaganda é possível mostrar essa medida como de "esquerda". O Governo tentará em 2016, ao que parece, manter todos os interesses da fração rentista dominante, mas contemplar com mais atenção os interesses da fração "industrial" da grande burguesia - através de mais créditos, isenções fiscais, privatizações, etc. O grande dilema é saber se teremos um quadro econômico que possibilite um equilíbrio estável das diferentes frações da classe dominante e como a classe trabalhadora irá reagir a continuidade – ainda que possivelmente menos radical – do ajuste antipopular. 

Quanto a achar que a saída de Levy e a entrada de Barbosa representa um direcionamento para uma política econômica "popular", esse delírio só se sustenta na lenda de que a política econômica é ditada pelo Ministro e não pelo Governo. O ajuste nunca foi de Levy, mas sim de Dilma!  

""Afinal, dizer que apoia a Dilma, mas é contra o Levy equivale a dizer que gosta dos Rolling Stones, mas não do Mick Jagger"" - Mauro Iasi

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sobre comparações totalmente descabidas

Nicolás Del Canõ
Nicolás del Caño, candidato na última eleição argentina pelo Frente de Esquerda disse, em entrevista à Folha de SP [1], que "nossa missão é não deixar que fiquemos nesse binarismo entre governos de esquerda pós-neoliberalismo –como o PT, o kirchnerismo ou o chavismo– e a direita".
Considero essa comparação descabida:

1 - Por mais que ambas as experiências - a petista e a "chavista" - possuam semelhanças por fazerem parte do ciclo democrático-popular de lutas da classe trabalhadora latino-americana (a estratégia democrático-popular foi formulada inicialmente em Cuba e reapropriada na Venezuela, em 1998, e no Brasil, em 1987), não é possível comparar da forma que é feita por Nicolás Del Caño. A diferença fundamental está na correlação de forças: na Venezuela há a organização popular a partir de cada bairro (Consejos Comunales), há um movimento de fábricas ocupadas forte e há experiências (ainda que bastante limitadas) de reforma agrária no campo. Além, é claro, da nacionalização do Petróleo. Nada disso existiu na experiência petista e nem sequer passou perto de existir.

2 - Embora se, por um lado, haja a reprodução do velho programa democrático-nacional em ambas as experiências (no Brasil com o neo desenvolvimentismo do primeiro mandato de Dilma, e na Venezuela com a ascensão da "boli burguesia" no cenário político nacional), na Venezuela há uma diferença fundamental: o socialismo foi colocado na ordem do dia. Nas ruas, praças, bares, escolas etc as pessoas debatem o que é e o que deve ser o socialismo, coisa que nunca aconteceu na experiência petista (no máximo colocou-se na ordem do dia o combate ao neoliberalismo, mas não na mesma proporção e nem na mesma longevidade). Além disso, os conselhos de bairro venezuelanos reivindicam o que eles chamam de "Estado Comunal", o que mostra que lá a classe trabalhadora reivindica um "sistema alternativo", coisa que, segundo o historiador inglês E. P. Thompson (em seu estudo sobre a classe operária inglesa), é o traço característico da consciência de classe.

3 - Lá, as classes dominantes seguem cindidas enquanto aqui formou-se uma frente única burguesa antidesenvolvimentista. Também não há lá nada análogo à aliança PT-PMDB que vemos aqui. É possível dizer que, se a social-democracia petista foi derrotada com a ascensão de Joaquim Levy ao Ministério da Fazenda, a experiência venezuelana ainda não se definiu, e pode ser derrotada antes mesmo de definir-se.

4 - Eu concordo com o que se segue a essa afirmação ("há espaço para construção de novas alianças de esquerda") somente enquanto imperativo: no Brasil e na Argentina, a esquerda (ou melhor, o movimento de massas) precisa se reorganizar e forjar uma nova proposta política (e, de preferência, CONTRA o Estado). No entanto, os irrisórios 3% dos votos que a Frente de Esquerda recebeu na Argentina não são nada animadoras e não indicam de forma alguma que "outra esquerda é possível". Não é daí que surgirá "o exemplo" para uma reorganização da classe trabalhadora nem muito menos a classe trabalhadora venezuelana deve abandonar agora a experiência do "chavismo" em prol de uma proposta política que não consegue angariar nem 10% dos votos.
O pulso ainda pulsa, mas as respostas não são tão simples quanto crê Nicolás del Caño.


João Melato - estudante de História, torcedor do Palmeiras e militante comunista. 

[1] -http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/12/1715059-candidato-derrotado-critica-scioli-e-macri-e-defende-renovar-esquerda.shtml

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cena política e impeachment: a correlação de forças – Parte I

Venho tentando traçar uma análise do comportamento dos diferentes setores da classe dominante nacional na conjuntura aberta com o pós-eleição. No texto “A ‘crise política’, a burguesia interna e a oposição: uma proposta de interpretação” [1] lancei minha primeira grande proposta analítica. Pretendo, agora, escrever uma série semanal de textos com destaque na correlação de forças entre as classes e suas expressões no processo do impeachment liderado por Eduardo Cunha. Meu foco será a posição das diferentes frações da burguesia, mas, eventualmente, também buscarei explicitar um quadro analítico sobre a posição das organizações de esquerda.

Com esse novo momento da cena política, as pseudo-análises longe da realidade, infelizmente, tendem a se multiplicar. De um lado, temos o PSTU e sua proposta do “Fora Todos”, e agora defendendo “novas eleições” para todos os cargos – deputado, senador, governador, presidente – para o “povo” poder “trocar todos [2]; no campo oposto, mas com uma pseudo-análise igualmente irreal, temos a Consulta Popular, que, em nota política sobre o “golpe”, afirma que com a proposta do impeachment “o corrupto Eduardo Cunha reafirma a agenda golpista dos inimigos do povo: as forças neoliberais e o imperialismo que têm seus interesses representados principalmente nas movimentações antinacionais e antipopulares do capital financeiro, de setores do empresariado, da direita partidária”; contudo, “esquece” a Consulta que o que mais tem no Governo do PT é associação com o empresariado, direita partidária, política neoliberal, antinacionais, etc. [3] Até agora a posição pública mais equilibrada, na esquerda, foi a do MTST [4].

É fato gritante que os governistas, que estavam envergonhados, procuram usar o pedido de impeachment para reavivar o mito do “governo em disputa” e para criar uma narrativa maniqueísta de “bem contra o mal”, “popular contra antipopular”, “conservador contra progressista”. Diante disso, vamos traçar um quadro das posições da classe dominante em seus diversos setores e dos principais componentes do sistema político burguês – a “classe reinante”.

No sistema político burguês

O processo de impeachment não é determinado prioritariamente pela dinâmica institucional, mas a correlação de forças no sistema político burguês joga um papel importante. Todos os governadores do Nordeste, representando partidos como PT, PSB, PCdoB, PSD e PMDB, declaram serem contrários ao processo de impedimento [5]. Notem que governadores do PDMB, partido do Eduardo Cunha, já se colocam contra o afastamento de Dilma. O líder do PMDB na Câmara também repudiou a decisão do seu colega [6]. Outro importante quadro do PMDB, Jarbas Vasconcelos, não só não declarou apoio ao impedimento, como pediu o afastado do seu correligionário de partido – segundo levantamento do Globo, 60% dos deputados do PMDB são contra o impedimento [7].

No próprio PSDB, não existe uma unidade total. No Senado, onde a oposição aparente é mais fraca, Tasso Jereissati, senador pelo PSDB, declara não apoiar o impedimento, pois ela “não é solução”. Dois atores institucionais de peso, a OAB e a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) declaram-se contra o impedimento [8] e Lula, no Rio de Janeiro, buscou aliança com a ala local do PMDB que mostrou-se inclinada a ficar contra Eduardo Cunha.

Em 15 de setembro, o Governo conseguiu reunir 301 parlamentares de 09 partidos, todos para dizer não ao impedimento. O nível médio de fidelidade da base governista é baixa, gira em torno de 50%; mas, o Governo precisa de apenas 172 votos para barrar o impedimento na Câmara e conseguir esses votos não é nada impossível – PCdoB, PSOL, REDE e PDT já declararam publicamente não apoiar a retirada de Dilma. O PSDB, DEM, PPS, PSC, setores do PMDB e outros pequenos partidos terão sérias dificuldades para operar o impedimento e a tendência, nesse momento, é, na verdade, Eduardo Cunha ficar isolado – ainda segundo a matéria do Globo, 258 deputados, num universo de 513, estão contra o impedimento.

Mas para entenderemos a dinâmica político-institucional, é basilar compreender como os diversos setores da classe dominante estão se posicionando até agora.

Nos principais setores da grande burguesia

A primeira coisa que deve ser frisada é que o Governo Dilma não é e nunca foi de esquerda – nem os governos de Lula. Dilma tem no seu governo representante orgânicos dos principais setores da grande burguesia interna, sendo Katia Abreu, Armando Monteiro e Joaquim Levy as figuras mais significativas. Portanto, temos setores da burguesia, como o latifúndio agroexportador e os bancos e instituições financeiras que estão muito bem representadas no aparelho do Estado e que se não declararam apoio ao impedimento, significa, no mínimo, uma “neutralidade” ou indiferença a manobra articulada por Eduardo Cunha.

Até o momento que escrevemos essas linhas, a FIRJAN (órgão representativo da burguesia do Rio) declarou ser contra o impedimento, afirmou que essas lutas políticas atrapalham a economia e clamou por estabilidade, mesma linha política da nota pública que lançou poucos meses atrás em conjunto com a FIESP [9]. Nesse ínterim, os setores mais poderosos da burguesia industrial brasileira – não citarei todas as siglas, cabe apenas destacar a presença da CNI e ABIMAQ - lançam manifesto conjunto com centrais sindicais, dentre elas a CUT, cobrando mudanças na política econômica [10]. Esses setores do empresariado declararam também ser contra o impedimento e igualmente clamam por estabilidade política.

O latifúndio agroexportador, que não tem o que reclamar desse governo, em seu principal órgão representativo, a CNA, ainda não se pronunciou; contudo, é bem provável que fique “neutro” ou contrário a manobra de Cunha. A FEBRABAN, que representa os bancos no Brasil, também não declarou apoio ao impedimento, e os donos do Bradesco e Itaú, os maiores bancos privados do país, apóiam desde muito tempo a continuidade do mandato de Dilma – também não tem o que reclamar da política econômica dela [11].

As principais associações comerciais do país – Rio, São Paulo e Minas – estão junto com a CUT na frente-única pelo "desenvolvimento” e contra o impedimento. Vários “investidores” ligados a fundos de investimento, em entrevista à BBC, repudiaram a medida do impedimento e também – notem que essa é a palavra de ordem principal da classe dominante – clamam por tranquilidade e estabilidade [12]. Por falar no cenário internacional, os principais jornais da Europa destacaram de forma negativa a medida de Cunha [13], o Governo do EUA não se pronunciou ainda, mas na última visita de Dilma aos EUA, ela recebeu todo apoio de Obama e fechou vários contratos (entreguistas) com setores da burguesia dos EUA.

A conclusão que podemos chegar até agora é: nenhum importante setor da grande burguesia manifestou apoio ao impedimento. As frações da classe dominante oscilam entre a aparente neutralidade (bancos e latifúndio) até a crítica aberta a medida (comércio, indústria e serviços). Percebendo claramente a fragilidade da investida, o Governo tenta acelerar o processo de votação antes das férias, mas o PSDB já começa a operar e tenta atrasar a votação até fevereiro (procurando conseguir mais força). O fato é que nem o Grupo Globo – maior empresa “nacional” do país – declarou apoio aberto à medida de Eduardo Cunha.

Nos últimos meses o Grupo Globo se dedicou a atacar Eduardo Cunha e pediu, inclusive, seu afastamento. Com a nova cartada do presidente da Câmara, a Globo tomou – até agora – uma postura de esperar o desenrolar da conjuntura, mas sem o apoio da Globo, da Embaixada dos EUA e dos principais setores da grande burguesia, sobra como base social do impedimento apenas as camadas médias conservadoras, os segmentos do fundamentalismo religioso, alguns monopólios de mídia (como o Grupo Abril) e membros do judiciário.

O fato é que a manobra de Eduardo Cunha longe de representar uma polarização entre setores populares e a burguesia, colocou a maioria da burguesia contra o impedimento. Longe de existir uma articulação golpista, a realidade é até esse momento o que se desenrola são grupos políticos (como o PSDB) lutando por seus interesses específicos sem respaldo das classes dominantes nacionais e do imperialismo – um cenário bem diferente da Venezuela, por exemplo. A histeria governista que convoca “os movimentos sociais e a esquerda” para a rua pela democracia e contra o golpismo não tem qualquer base séria numa análise concreta de classe.

[1] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/08/a-crise-politica-burguesia-interna-e.html
[2] – http://www.pstu.org.br/node/21834
[3] – http://www.consultapopular.org.br/noticia/%C3%A9-preciso-tomar-ruas-e-barrar-o-golpe
[4] – http://www.diarioliberdade.org/brasil/batalha-de-ideias/59123-mtst-n%C3%A3o-%C3%A0-chantagem-do-impeachment-fora-cunha.html
[5] – http://www.valor.com.br/politica/4341414/governadores-do-nordeste-repudiam-processo-de-impeachment
[6] – https://www.ocafezinho.com/2015/12/02/lider-do-pmdb-na-camara-diz-que-nao-ha-motivo-juridico-para-impeachment/
[7] – http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-teria-hoje-margem-confortavel-contra-impeachment-dizem-lideres-18216438?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O+Globo
[8] – http://www.ocafezinho.com/2015/12/02/oab-diz-nao-ao-impeachment/ http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2015-12/cnbb-sai-em-defesa-da-presidenta-dilma-e-ataca-cunha
[9] – http://www.valor.com.br/brasil/4341142/para-firjan-impeachment-gera-tumulto-e-prejudica-economia
[10] – https://l.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww.fsindical.org.br%2Farquivos%2Fcompromissodesenvolvimento_03dez.pdf&h=mAQGp5fdg
[11] – http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/08/1672332-nao-ha-motivos-para-tirar-dilma-do-cargo-diz-presidente-do-itau-unibanco.shtml https://www.brasil247.com/pt/247/economia/192110/Trabuco-crise-pol%C3%ADtica-%C3%A9-maior-que-a-econ%C3%B4mica.htm

[13] – http://br.rfi.fr/brasil/20151203-jornais-europeus-defendem-permanencia-de-dilma-na-presidencia