sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A “velha” e a “nova” esquerda: crônicas da ignorância histórica

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Ser anticomunista não é privilégio apenas da direita. Pelo contrário. O anticomunismo de esquerda tem raízes históricas muito fortes e sempre foi bastante atuante – pense na socialdemocracia, em especial a alemã, em sua oposição à Revolução Russa e ao Poder Soviético. Com a internet tornou-se comum seres imbecilizados, sem qualquer conhecimento mínimo da história do movimento operário, usaram uma série de mentiras, simplificações e meias verdades para atacar a o movimento comunista – o que eles chamam de “velha esquerda”.

Dentre todas as mentiras e falsificações, os mais populares me parecem ser a do marxismo eurocêntrico e do marxismo que nunca debateu e não consegue debater a questão das opressões – evidentemente que essa impressão dos temas mais populares é bem superficial, pois não é produto de uma pesquisa científica sobre o tema. Essa semana me deparei com o texto de um sujeito chamado João Pucinelli [1], onde todas as grandes mentiras e distorções sobre o movimento comunista apareciam em estado mais puro e bizarro. Aproveitando esse texto, vou realizar um desejo antigo, e debater com esse anticomunismo de “esquerda” e sua ignorância histórica que gera como frutos uma prole de espantalhos argumentativos.

Vamos respondendo parágrafo por parágrafo o texto do João. Ele começa afirmando que “”Que a "velha esquerda" é eurocentrada e colonialista a gente já sabe de cor e salteado. Culto ao Marx, fetiche por cada virgula de qualquer acontecimento histórico na Europa, reprodução do modelo operário padrão””. O caráter eurocentrado e colonialista da “velha esquerda”, isto é, os comunistas, estaria no seu “culto” a Marx. Karl Marx era um homem europeu do século XIX. Militante do movimento operário, dirigente da I Internacional e grande teórico revolucionário, Marx dedicou grande parte da sua vida a um único objeto de estudo: compreender a dinâmica de funcionamento do modo de produção capitalista.

Na época de Marx a produção capitalista era restrita a pequenas parcelas do mundo, contudo, África, Ásia e América Latina estavam submetidas – de formas diferentes – ao sistema colonial-capitalista e a tendência evidente, mesmo naquela época, seria a universalização do capitalismo. Em O Capital: crítica da economia política, o livro fundamental de Marx, nosso autor diz que pretende estudar o modo de produção capitalista em suas leis internas de funcionamento e não o capitalismo num país específico, isto é, numa formação social concreta – como França, por exemplo. Marx diz explicitamente que quando cita a Inglaterra não significa que seu estudo é sobre o país, mas sim que a referência é uma forma de ilustrar a dinâmica do capitalismo numa situação concreta. O que isso significa? O materialismo histórico-dialético criado por Marx e Engels nos legou uma teoria que permite compreender e criar as bases de superação do modo de produção capitalista! Existe hoje capitalismo em todos os continentes do mundo: África, Ásia, Oceania, América etc.

Isso significa que basta eu abrir O Capital e compreender a dinâmica social do continente africano? De forma nenhuma. Existe no marxismo uma coisa chamada dialética entre o particular e o universal. O que significa isso? A divisão da sociedade entre detentores dos meios de produção e portadores apenas da sua força de trabalho, sendo os últimos os explorados, os que têm sua mais-valia expropriada, é universal, é uma relação social própria do capitalismo em qualquer lugar do mundo, mas, ao mesmo tempo, a forma concreta de manifestação desse universal responde as particularidades de cada local: a forma-política, o tipo e o nível de desenvolvimento das formas produtivas, a cultura política e organizativa da classe trabalhadora e da classe dominante, as formas interventivas do Estado na reprodução das relações de produção, a divisão campo-cidade, a composição de gênero e étnico-racial da classe trabalhadora etc. são particularidades próprias de cada formação social (cada “país”) e nessas particularidades que a universidade – exploração do capital sobre a classe trabalhadora – se expressa. No Brasil e na Inglaterra a relação de exploração é a mesma e ao mesmo tempo é diferente devido às particularidades de cada formação social.

Compreendendo isso é que os melhores marxistas da África, Ásia e América Latina nunca fizeram uma transposição mecânica das análises de Marx, Engels ou Lênin para suas realidades locais, ao contrário, procuraram compreender como o universal (dinâmica capitalista) se expressa concretamente na particularidade de cada país e continente. É por isso que Mao Tse-Tung, Malcolm X, Huey Newton, Chu Enlai, Vânia Bambirra, Ruy Mauro Marini, Mariátegui, Florestan Fernandes, Ana Montenegro, Zuleide Faria de Melo, Kim Il-sung, Thomas Sankara, Esteve Biko, Angela Davis etc. em suas atuações políticas e/ou teóricas conseguiram ter uma análise justa das contradições sociais que impõe o desafio da ação política revolucionária. Dizer que o marxismo é eurocêntrico desconsiderando os milhões de mulheres e homens dos países periféricos que tiveram e têm o marxismo como principal referencial teórico e prático de libertação é uma grande simplificação que descamba para a mentira e a falsificação.

Mas nosso autor, o João, também diz que o marxismo é colonialista. Bem, uma teoria crítica não pode ser colonialista. Colonialismo é um complexo político-econômico que envolve a dominação de vastos territórios por Estados imperialistas com intuito de garantir o lucro dos grandes monopólios e do capital financeiro e melhor posicionar-se na concorrência interimperialista. Uma teoria crítica e revolucionária, como o marxismo, não pode ser “colonialista”, mas, no máximo, servir de base ideológica de justificativa para o colonialismo.

Na história do marxismo a II Internacional, em suas tendências majoritárias, infelizmente apoiaram o colonialismo dos Estados europeus embebidas no mito da exportação da civilização. Mas não deixa de ser sintomático que todos os partidos da II Internacional que apoiaram o colonialismo abandonaram poucos anos depois o marxismo revolucionário, a dialética e o materialismo histórico e aderiram a um positivismo mecanicista de base epistemológica kantiana. A III Internacional, ou Internacional Comunista, que surge como uma resposta a falência da II Internacional, toma o combate ao colonialismo como uma prioridade absoluta do movimento operário e a partir daí, durante todo século XX, o movimento operário de orientação comunista tornasse o principal sujeito político de oposição ao colonialismo-imperialista. Um pequeno exemplo da contribuição comunista na luta anticolonial pode ser lida abaixo:

A União Soviética e os partidos aliados a ela desempenharam um papel crucial na formação política e ideológica dos quadros do movimento [de libertação africana], tendo sido crucial em Moscou no ano de 1930, a escola de Stálin, intuindo preparar quadros marxistas. As repercussões da crise econômica que sacudiam o mundo possuíam uma natureza favorável à tarefa do movimento anticolonial (...). Após ter traçado os mecanismos e as vias para colaboração com os movimentos anticolonialistas, o mundo socialista engajou-se em um programa de apoio ativo à descolonização da África, sob a forma de uma assistência material e diplomática, oferecida em conformidade com o princípio do marxismo-leninismo, segundo o qual, o mundo socialista deveria ajudar àqueles que aspirassem à descolonização (...). A URSS assinou acordos com cerca de quarenta países africanos. Uma das mais interessantes dimensões desta cooperação dizia respeito ao ensino e à pesquisa: formação de quadros africanos na URSS, envio de professores e pesquisadores soviéticos às universidade e centros de pesquisa africanos. Aproximadamente 30.000 africanos formaram-se no sistema soviético de ensino superior [2]

Na continuação de sua verborragia de mentiras, João diz que “pensadores do sul do mundo, invisibilizando modos de vida e cultura indígenas e africanas, subalternizando práticas, narrativas e trajetórias dos povos originários”. Bem, Che Guevara, Fidel Castro e Mariátegui – para ficar apenas em três exemplos – são “pensadores do Sul” e só um completo desonesto para afirmar que a cultura política comunista os “invisibilizou”. O camarada José Carlos Mariátegui, por exemplo, é famoso por ter sido um dos primeiros marxistas, ainda nos anos 20 do século passado, a pensar a contribuição das práticas culturais e produtivas coletivistas dos povos originários na construção do socialismo nas Américas.

Nosso autor continua seu texto demonstrando que ignorância histórica não tem limites. Afirma que a “nova esquerda” – o MST, a esquerda católica, o movimento feminista, o movimento negro etc. – trouxeram para a luta política “”as cantigas, as cirandas e os sambas de roda”” e que a “velha esquerda” passou a taxar essas práticas de anti-revolucionárias. Bem, é uma GRANDE MENTIRA conceber o movimento feminista e negro como dissociado da luta comunista. Sem me estender nesse ponto, gostaria apenas de pontuar que foi a União Soviética que as mulheres conseguiram, primeira vez no mundo, igualdade jurídica, direito a voto, direito ao divorcio e ao aborto, ascensão a cargos de direção política e inserção não subordinada no mercado de trabalho contando com férias, licença-maternidade, salário igual ao dos homens etc. [3]

Sobre a relação orgânica entre luta comunista e luta contra o racismo, basta citar um longo trecho sobre o combate ao apartheid no Sul dos EUA – por décadas um dos maiores símbolos do racismo no mundo:

"Nada tinha me preparado totalmente para o que eu encontrei no Alabama. Os testemunhos e memórias nos arquivos, a até mesmo a própria paisagem constituía a prova viva de que uma cultura política distinta da esquerda euro-americana, mas sim uma enraizada nas tradições afro-cristãos e na cultura negra de raíz dominou o Partido Comunista do Alabama. Era a evidência surpreendente esmagadora que me fez deixar um monte das minhas suposições sobre a cultura do movimento marxista-leninista para trás ... Eu não estava preparado para pessoas como Lemon Johnson, um ex-membro da Share Croppers Union (União do "Campesinato" Compartilhada) liderada por comunistas. Em Dezembro de 1986, visitei Johnson em sua casa na zona rural do condado de Montgomery ... Ele me contou histórias sobre a greve de 1935 dos catadores de algodão, da promessa de Stalin para enviar tropas para Mobile para ajudar os negros caso as coisas saíssem do controle, e também sobre a noite que um grupo bem armado de mulheres partiram para vingar seus camaradas que tinham sido espancados ou mortos durante a greve. Quando perguntei para o Sr. Johnson como o sindicato conseguiu ganhar algumas de suas exigências, sem a menor hesitação, ele enfiou a mão na gaveta de sua mesa de cabeceira e tirou uma cópia claramente muito desgastada por uso do ‘Que Fazer?’ de Lenin e uma caixa de balas de espingarda, sentou firmemente na cama ao meu lado, e disse: “É isso aqui, a Teoria e a Prática, foi assim que nós fizemos, com Teoria e Prática.” [4]

Pensar o “movimento feminista e negro” como algo abstrato, como um ente que nunca teve relação com o movimento comunista, como podemos ver, é uma grande besteira. A “nova esquerda”, esses meninos criados em prédio que acham que estão inventando a roda, juram que são os primeiros a inserir a cultura como instrumento de luta política. Ledo engano. Falando apenas do Brasil – para não deixar o texto longo – o Partido Comunista Brasileiro (PCB) tem uma longa e bela história de atuação cultural. O PCB teve em suas fileiras poetas, literatos, sambistas, dançarinos, teatrólogos, mestres de cultura popular etc. Já organizou desde grandes campeonatos de futebol passando por desfiles de escolas samba no carnaval até festivais de cultura afrobrasileira e de terreiro. Aqui também é necessária uma grande citação para refutar as mentiras de sempre:

Jorge Amado, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Edison Carneiro, Cândido Portinari, Dorival Caymmi, Procópio Ferreira, Nélson Pereira dos Santos, Oscar Niemeyer, o maestro Francisco Mignone, o jornalista Pedro Mota Lima, o cronista Alvaro Moreyra, o pianista Arnaldo Estrela e o cientista Mário Schemberg faziam parte do respeitável grupo de intelectuais filiados ao PCB.
Os intelectuais e os artistas do PCB colocavam em prática a política cultural do partido, baseada no realismo socialista, modelo estético stalinista que chegou ao Brasil na segunda metade dos anos 40. A produção de uma arte "genuinamente" proletária era um dos principais instrumentos de educação política das massas. Cabia aos intelectuais do partido alfabetizar os "camaradas" iletrados e ministrar "aulas de conhecimentos gerais", além de esclarecer pontos fundamentais da teoria marxista-leninista. Teatro, cinema, cartazes, exposições, conferências, poemas: todos os recursos materiais e humanos disponíveis eram utilizados a serviço da causa comunista.
Dispondo de uma estrutura bastante razoável, a imprensa comunista nos anos 1945-1947 cresceu vertiginosamente. O partido contava com diversos jornais e revistas, além de duas editoras, o que deu um grande impulso ao trabalho de divulgação do comunismo no Brasil. Voltado para as massas, o diário comunista Tribuna Popular, de circulação nacional, chegou a tiragens de 50 mil exemplares. Veiculava notícias das agências comunistas internacionais, publicava matérias sobre o movimento operário e a luta camponesa, mas também dava substancial espaço para o entretenimento, visto como um importante instrumento de educação política das massas. Falava-se de cinema, teatro, esportes (com destaque para o futebol), música, notas sociais, fofocas sobre políticos e personalidades em evidência. Os anunciantes, em muitos casos, buscavam uma associação entre os produtos e a linha política do partido, como no caso do "Sabão Russo - contra erupções, espinhas e panos" ou dos perfumes Cavaleiro da Esperança. Na compra dos perfumes por atacado, o consumidor era contemplado com folhinhas com retrato de toda a bancada comunista na Constituinte de 46.
O samba, reconhecido nos anos 40 como uma das maiores formas de expressão artística popular, fruto de um complexo processo que Hermano Vianna chamou de "mistério do samba", também foi privilegiado pelos comunistas. É amplo o espaço dedicado ao mundo do samba na Tribuna Popular. As colunas "O Povo se Diverte" e "O Samba na Cidade" eram publicadas com regularidade. Notas sobre a agenda e os preparativos dos bailes carnavalescos, cartas de leitores sobre o carnaval, homenagens feitas pelas agremiações carnavalescas à Tribuna Popular, divulgação dos assuntos de interesse da União Geral das Escolas de Samba (UGES) faziam do jornal comunista um espaço de participação e representação do mundo do samba. Um forte vínculo ideológico estabelecia-se entre a UGES e o Partido Comunista [5]

A certa altura do texto, depois de criar espantalhos que já foram refutados com as citações acima, João diz que a “revolução” dele será “com os Orixás”. Nosso “amigo” não deve saber, mas a primeira vez que o Estado brasileiro reconheceu juridicamente o direito de culto das religiões de matriz afrobrasileira foi na Constituinte de 1946, com projeto apresentado pelo deputado Jorge Amado do... PCB. O comunista Jorge Amado tinha fortes ligações com o povo de terreiro da Bahia (assim como todo PCB no estado) e o negro, igualmente baiano e comunista do PCB, Carlos Marighella, em belo discurso de defesa do projeto, disse:

Nós, comunistas, sabemos respeitar as religiões; somos pela liberdade completa de consciência e não desejamos, de forma alguma, que essa liberdade seja utilizada pelos dominadores, pelos fascistas, pelos reacionários, pelos senhores feudais para acorrentar o nosso povo, miseravelmente, como o têm feito [6]

Sabemos que as religiões de matriz africana não tem liberdade de culto de fato no Brasil, mas ao menos a “liberdade jurídica”, por mais limitada que seja, veio com participação fundamental da luta comunista.

Podemos caminhar para a conclusão. O que João “considera” como atributos da “nova esquerda” não passa de práticas políticas tradicionais e que de formas variadas se mantém no movimento comunista. O PCB, por exemplo, longe de achar o samba contrarrevolucionário considera primordial a ação política no âmbito da cultura e constrói em vários estados, dentre outras iniciativas, o bloco Comuna que Pariu [7] – a “nova esquerda” não inventou o uso da cultura como instrumento da luta política, no máximo vulgarizou esse uso. A “velha esquerda” só existe nas brumas da ignorância de nosso “amigo” que acha que está inventando a roda, criando o novo, mas que deveria antes de tudo pegar bom livro de história e parar de passar vergonha na internet.



[2] – (História Geral da África - Harris e Zeghidour, 2000. p. 968, 970 e 972).
[3] –http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=676&id_coluna=10
[4] – Robin Kelley, no prefácio do 25º aniversário de Hammer and Hoe: Alabama Communists During the Great Depression 
[5] – http://www.academiadosamba.com.br/memoriasamba/artigos/artigo


[7] – http://blogdaboitempo.com.br/2016/02/11/o-bloco-comuna-que-pariu-como-fenomeno-cultural-e-politico/

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

O pacto de não agressão germano-soviético: a história fora do mito

Molotov e Ribbentrop - foto da assinatura do Pacto.


Lênin, em sabias palavras, afirmou que numa sociedade de classes a produção do conhecimento científico terá necessariamente um caráter e uma funcionalidade de classe. Isso não significa dizer que todo trabalho científico é redutível às posições de classe do seu autor; a questão é mais complexa [1]. É perceber os diversos condicionantes constitutivos (econômicos, políticos, ideológicos, geopolíticos e institucionais) da produção científica de uma época. Uma justa compreensão da relação dialética entre conhecimento e suas mediações constitutivas possibilita apreender como a visão “científica” dominante numa determinada época, sobre algum tema, pode está completamente equivocada e mesmo assim ser considera uma verdade incontestável. 

Sobre o estudo da União Soviética – a sovietologia – a maioria das visões hegemônicas está completamente equivocada [2]. Não poderia ser de outra forma. A União Soviética foi por décadas a materialização dos projetos emancipatórios dos operários de todo o mundo e, em especial, dos povos colonizados e dos países dependentes do Terceiro Mundo. A construção de um exército de mentiras e distorções sobre a história soviética era e é um imperativo político de primeira ordem para as burguesias de todo o mundo e em especial para o imperialismo estadunidense – o centro organizativo do capitalismo mundial.

Contudo, nos últimos vinte anos ganha espaço de forma tímida uma nova historiografia (conjunto de escritos histórico de cunho científico sobre um determinado tema) sobre a União Soviética que rebate vários mitos, torna mais complexa abordagens sobre certos temas, olha outros por um novo ângulo e destaca questões marginalizadas. No Brasil, porém, essa nova historiografia é solenemente ignorada. O nosso mercado editorial não traduz a maioria dos livros dessa nova historiografia, nossas universidades não têm centros de estudo de qualidade sobre a história soviética, a maioria das organizações de esquerda não expressam em seu projeto político a desconstrução das mitologias políticas criadas pelo anticomunismo primário da Guerra Fria – ao contrário, organizações como PSTU e PSOL, em especial, reforçam esses mitos.

Dentre alguns representantes dessa nova historiografia crítica da União Soviética que chegam a nosso mercado editorial, podemos destacar Domenico Losurdo e Wendy Goldman (o primeiro com uma incidência bem maior). Sobre o tema tratado nesse texto, as obras fundamentais serão os livros “Stálin – uma história crítica de uma lenda negra” do Losurdo e “Um Stálin desconhecido” de Zhores e Roy Medvedev. Losurdo é um autor comunista e com forte militância política; seu livro é construído através de várias referências de autores e autoras que estudam a URSS e são anticomunistas ou não-comunistas; já os irmãos Medvedev são declaradamente anticomunistas e nutrem um ódio especial pela figura e pelo governo de J. Stálin.

O objetivo desse texto, portanto, não é descobrir nada novo ou apresentar uma perspectiva teórica que pretende revolucionar a historiografia soviética. Seguindo a mesma linha do nosso texto sobre o Gulag Soviético [3], tentaremos popularizar as novas abordagens sobre o tema do pacto germano-soviético com o intuito de fornecer subsídio teórico e histórico para combater algumas das mitologias políticas criadas pela ideologia dominante da Guerra Fria.

Uma lembrança de cinco anos atrás.


Há exatos cinco anos atrás eu estava começando meu curso de História na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Próximo de começar o curso resolvi ler com afinco os “livros de história” que tinha em casa. Comecei com o livro “Stálin, os nazistas e o Ocidente” do historiador e documentarista da BBC Laurence Rees. Rees se propõe a analisar os bastidores da Segunda Guerra Mundial com foco na relação entre Stálin, Churchill e Roosevelt, e como foi a articulação dos três no enfrentamento ao nazifascismo.

Durante o livro Rees tenta mostrar seus talentos como psicólogo e passa a escrever uma espécie de perfil psicológico de Stálin. O soviético é tratado como um louco, paranoico, no limite psicopata; um sujeito que não confia absolutamente em ninguém, que desconfia até dos seus colaboradores mais íntimos e aparentemente amigos – segundo o perfil delineado por Rees, Stálin era desconfiado demais para ter amigos. Mas numa virada inexplicável o ser humano extremamente paranoico passa a confiar cegamente que Hitler não irá quebrar o pacto de não agressão germano-soviético assinado há pouco tempo.

Nosso historiador não vê qualquer contradição em descrever Stálin como o sujeito mais paranoico do mundo e afirmar que ele acreditava piamente em Hitler. No livro de Rees não encontrei uma análise séria sobre o quadro geopolítico dos anos 30 no mundo, e em especial da Europa, e uma crítica do significado histórico e político do projeto nazista e soviético. Tudo era apresentado como se o pacto germano-soviético fosse uma atração entre dois ditadores, entre dois sistemas totalitários.

Na época da leitura desse livro achei a construção da argumentação problemática, mas não tinha conhecimento histórico para me atrever a uma refutação. Já na UFPE e em presença de professores que prestam homenagens ao anticomunismo mais primário e burro, me deparo com textos de Hannah Arendt sobre o totalitarismo.

Por outro lado, a prática russa [soviética] é mais “avançada” do que a nazista em um particular: a arbitrariedade do terror não é determinada por diferenças raciais, e a aplicação do terror segundo a procedência sócio-econômica (de classe) do indivíduo foi abandonada há tempos; de sorte que qualquer pessoa na Rússia pode subitamente tornar-se vítima do terror policial (Arendt, 2009, p. 26).

Temos, portanto, antes de entrar propriamente em nosso objeto de estudo, de abordar um pouco do significado histórico do projeto soviético e do nazifascista e traçar uma análise histórica séria, ainda que não exaustiva, da geopolítica da época.


O nazifascismo e o socialismo soviético em seu significado histórico.


A invasão da América foi o ato inaugural da modernidade. Modernidade e colonialismo estão intimamente ligados. Quando se estabelece o sistema mercantil tricontinental sobre o comando dos países europeus – em sua fase inicial com destaque para Portugal e Espanha -, a América sofre o primeiro ciclo da história de destruição colonialista. Seus povos são exterminados, sua cultura inferiorizada e subjugada, seus sistemas produtivos são destruídos e novos são criados de acordo com as necessidades do centro de comando europeu do sistema mercantil. Esse primeiro grande ciclo colonialista mesmo tendo na América o grande palco da destruição criativa, criou também outra grande vítima: a população negra oriunda das regiões costeiras da África que serviram como força de trabalho escrava na nova estrutura produtiva da América.

A história do século XV até o século XVIII não pode ser compreendida sem temos em conta as transformações da Europa rumo ao sistema capitalista (inicialmente mais restrito às Províncias Unidas e a Inglaterra) na sua interrelação com as colônias na América. Houve grandes resistências ao colonialismo e todas as suas consequências. Desde as de caráter local – como os quilombos das pessoas negras escravizadas – até as que tomaram proporções histórico-mundiais como a Revolução Francesa no período Jacobino e a Revolução Negra no Haiti. O fato, porém, é que a consolidação do capitalismo na Inglaterra e sua marcha triunfal pela Europa Ocidental não só manteve o colonialismo como o elevou a um patamar superior – a um novo ciclo colonialismo de proporções muito mais amplas que o primeiro.

V. I. Lênin demonstrou no seu clássico “Imperialismo: Etapa superior do capitalismo” [4] que entre o final do século XIX e o início do século XX a economia capitalista passou por um profundo processo de transformações. O processo de acumulação do capital dos países centrais caminho rumo a uma centralização e uma concentração cada vez maior do capital e uma fusão entre o capital bancário e o capital industrial – o nascimento do capital financeiro - criando grandes trustes e monopólios de proporções e capacidade de controle sobre as economias nacionais impensáveis para os teóricos clássicos do capitalismo, como Adam Smith e David Ricardo.

O capitalismo monopolista proporcionava uma capacidade/necessidade de investimentos e domínio de territórios além dos marcos nacionais que impulsionou um novo ciclo colonialista em direção à África e Ásia. Agora não se tratava de conquistar territórios para criar monopólios comerciais ou criar um mercado produtor de especiarias; a questão era obter zonas de controle e influência que garantissem nichos de investimentos rentáveis para os grandes monopólios e fornecimento de matérias primas para indústria e o mercado consumidor interno numa divisão do trabalho em que os países centrais do capitalismo especializavam na produção industrial e complexa e os territórios colonizados na produção de bens primários (como alimentos) e matéria prima. Todo esse processo de condicionamento das economias da África e Ásia às necessidades do capitalismo imperialista vinha acompanhado, é claro, de um violento processo de subjugação política dado pela capacidade militar maior dos Estados capitalistas europeus.

A dominação imperial em África e Ásia significou o extermínio de milhões de pessoas e a criação das técnicas mais bárbaras e avançadas de dominação. T. Adorno disse que era impossível sorrir depois de Auschwitz; mas, na realidade, para grande parte da população mundial, foi impossível sorrir durante toda modernidade!

O problema é que na corrida pela “partilha do mundo” alguns Estados ficaram para trás. Alemanha, Itália e Japão foram países de modernização capitalista retardatária (se comparamos com Inglaterra, Bélgica, França etc.) e no processo de afirmação do seu papel na divisão internacional do trabalho capitalista precisavam de suas colônias, de suas zonas de exportação de capital, suprimento de matérias primas e influência política.  O grande problema é que já tínhamos um sistema imperialista de divisão do mundo mais ou menos estável e que a ascensão desses países perturbava o equilibro firmado.

A Primeira Guerra Mundial foi a explosão dessas contradições interimperialista pelo domínio global. O fim da Primeira Guerra não só não resolveu essas contradições como possibilitou sua elevação em nível superior. O projeto nazista da Alemanha expressa uma radicalização da tradição colonial-imperialista, que agora vê seu “espaço vital” dentro da própria Europa, isto é, no Leste Europeu, e pretende transformar o povo eslavo em seus escravos coloniais (o Japão voltou-se para a China, Indochina e Coréia e a Itália para o Norte da África).

O racismo, o antissemitismo, os campos de concentração, o extermínio em massa, o terror disseminado do nazismo não era nenhuma novidade em África e Ásia. O nazismo traz para Europa todas as práticas coloniais realizadas pela França, Inglaterra, Bélgica etc em suas colônias fora da Europa. O Rei Leopoldo tem mais de Hitler do que supõe nossa vã historiografia eurocêntrica – a “solução final” do nazismo é a mais famosa do mundo, mas de forma nenhuma a única existente no século XX [5].

O nazismo, portanto, expressa um projeto político do capital-monopolista alemão numa época de contrarrevolução (derrota da revolução proletária na Europa) em busca dos seus territórios coloniais e da liderança do sistema mundial capitalista.

Leandro Konder, em seu clássico estudo “Introdução ao fascismo”, caracteriza assim o fascismo [e o nazismo]:

O fascismo é uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo, que procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável à crescente concentração do capital; é um movimento político de conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara “modernizadora”, guiado pela ideologia de um pragmatismo radical, servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com os procedimentos racionalistas-formais de tipo manipulatório (...) Pressupõe (...) a existência nele de um certo nível de fusão do capital bancário com o capital industrial, isto é, a existência do capital financeiro (Konder, 2010, p. 53)

Já a Revolução de Outubro, o acontecimento político que inaugura o Século Soviético, surge como um gigantesco levante anticapitalista e anticolonialista de proporções mundiais. Focando apenas na Europa, é perceptível a existência de uma tradição democrático-radical encarnada no jacobinismo que no seu auge, isto é, durante a grande Revolução Francesa, decretou o fim da escravidão e olhou com simpatia para a luta dos negros na colônia do Haiti (embora também existisse elementos racistas e chauvinistas no jacobinismo). Da tradição democrático-jacobina até o surgimento do socialismo de orientação marxista, as lutas operárias na Europa se mesclavam, em muitos momentos, com as lutas de libertação nacional dos países como Polônia e Irlanda.

A Primeira Internacional dedicou-se a luta pela libertação nacional dos países oprimidos na Europa, mas olhou pouco para a dinâmica da luta de classe e as lutas de libertação nacional nos outros continentes. A Segunda Internacional, infelizmente, apresenta uma regressão nessa questão frente à Primeira. Seus principais teóricos estavam muito influenciados pelo mito do progresso e da exportação da civilização e de várias formas apoiaram os empreendimentos colonialistas até desembocar na adesão do chauvinismo da Primeira Guerra – o apoio do Partido Social Democrata Alemão, o maior da II Internacional, sela o fim dessa organização como um instrumento de luta.

Mas no seio da II Internacional surgiam tendências minoritárias que não só compreendiam o significado histórico do colonialismo em sua fase imperialista, como conseguiam unir na prática a luta anticapitalista com a luta anticolonial. O Partido Bolchevique e seu principal líder, V. I. Lênin, era a maior expressão desse marxismo verdadeiramente revolucionário que não se curvou ao social-chauvinismo (podemos destacar também Rosa Luxemburgo e seu grupo, socialistas italianos descontentes com os rumos do partido e que depois vão fundar o PCI etc.):

Em relação a este mundo, Lênin representa uma ruptura não só no plano político, mas também epistemológico: a democracia não pode ser definida independentemente dos excluídos, "o despotismo" exercido sobre "bárbaros" obrigados à "obediência absoluta" própria dos escravos e as infâmias da expansão e do domínio colonial lança uma luz inquietante sobre os Estados Liberais, e não só que respeita à sua política interna (Losurdo, 2006, p. 18).

Os bolcheviques não apoiaram o chauvinismo das potências imperialistas em guerra e lançaram a palavra de ordem de transformar a guerra imperialista em uma guerra civil contra a burguesia de cada país. Os impactos da Grande Guerra na Rússia precipitaram os ânimos revolucionários e o Czar é derrubado. O desenrolar histórico dos acontecimentos até a Revolução de Outubro é bem conhecido. O que vale ser destacado e que recebe pouca atenção é que a Rússia era um país subdesenvolvido e dominado pelo capital francês e inglês e o império do Czar mantinha uma férrea opressão sobre minorias nacionais.

Ou seja, a Revolução de Outubro para se consolidar precisava liquidar a opressão sobre as minorias nacionais e, no plano internacional, apostou em duas frentes: a revolução proletária na Europa e a revolução democrático-nacional nas colônias.  De imediato, como sabemos, não houve a revolução proletária na Europa e nem as revoluções democrático-nacionais nas colônias, mas a Revolução de Outubro, a criação da III Internacional e a consolidação do Poder soviético produziu uma alteração no quadro mundial e um abalo no sistema colonial-imperialista. Duas grandes citações são necessárias para delinear bem o que significou essa nova fase do movimento operário e os sentidos do leninismo:

Difundiam-se, com certa regularidade, notícias da penetração da propaganda bolchevista nas colónias portuguesas, a exemplo da "mensagem aos trabalhadores brancos e negros" assinada por Lênin e G. Thcitcherine e cuja cópia foi encontrada pelo chefe da circunscrição da Mossurize (então território da Manica e Sofala), em 1919, entre as mãos de um indígena de Johanesburgo. Circulam igualmente informações da passagem, em outubro de 1927, por Lourenço Marques, de um suspeito comunista, "o cidadão da Livónia russa de Bakin" e no mesmo mês foi repercutido um telegrama confidencial do Ministério português da Colónias comunicando a intenção de dois "comunistas" Dmitri Rodaien (ou Rodaiev?) e Senes Chapiro, acompanhados do português José Almendroa, se dirigiam à Guiné, Angola e eventualmente a Moçambique "em reunião de propaganda comunista especialmente encarregados de ativar com elementos locais o desenvolvimento da incidentes graves intervencionais entre as nossas colónias e as colónias inglesas (Andrade. 1990, p. 179).
E:

"Dezenas e centenas de milhões de homens dos povos asiáticos e africanos, que sofreram a opressão nacional de forma mais brutal e cruel, ficavam geralmente fora do seu horizonte visual [da Segunda Internacional]. Não se decidiam a colocar num mesmo plano os povos 'cultos' e 'incultos', os brancos e os negros. De duas ou três resoluções vazias e melífluas, nas quais se escamoteava cuidadosamente a questão da libertação das colônias, era de tudo isso que podiam vangloriar-se as personagens da Segunda Internacional. O leninismo colocou a descoberto esta incongruência escandalosa, rompeu a muralha entre os negros e os brancos 'cultos' e 'incultos' do imperialismo e vinculou assim o problema nacional ao problema das colônias"  (Stálin, 1980, p.76-77).

A União Soviética não representava “apenas” a primeira grande tentativa de construção do socialismo. A URSS combateu firmemente as teorias do “racismo científico”, foi o primeiro país do mundo a criminalizar o racismo, manteve em todos os âmbitos de sua produção cultural, educacional e artística uma ampla propaganda antirracista e anticolonialista, apoiou a luta dos povos coloniais de diversas formas e as seções nacionais da III Internacional eram obrigados a combater de fato o colonialismo e o chauvinismo – nenhuma conciliação era tolerada. A União Soviética representava a tentativa de ruptura com o capitalismo, mas também, e talvez até com mais sucesso, a ruptura com toda tradição colonial-racista da modernidade europeia e os elementos atualizados na fase colonial-imperialista.

A União Soviética e os partidos aliados a ela desempenharam um papel crucial na formação política e ideológica dos quadros do movimento [de libertação africana], tendo sido crucial em Moscou no ano de 1930, a escola de Stálin, intuindo preparar quadros marxistas. As repercussões da crise econômica que sacudiam o mundo possuíam uma natureza favorável à tarefa do movimento anticolonial (...). Após ter traçado os mecanismos e as vias para colaboração com os movimentos anticolonialistas, o mundo socialista engajou-se em um programa de apoio ativo à descolonização da África, sob a forma de uma assistência material e diplomática, oferecida em conformidade com o princípio do marxismo-leninismo, segundo o qual, o mundo socialista deveria ajudar àqueles que aspirassem à descolonização (...). A URSS assinou acordos com cerca de quarenta países africanos. Uma das mais interessantes dimensões desta cooperação dizia respeito ao ensino e à pesquisa: formação de quadros africanos na URSS, envio de professores e pesquisadores soviéticos às universidade e centros de pesquisa africanos. Aproximadamente 30.000 africanos formaram-se no sistema soviético de ensino superior (Harris e Zeghidour, 2000. p. 968, 970 e 972).

Podemos caminhar para uma conclusão nesse ponto. Enquanto o projeto nazifascista representava uma radicalização do projeto colonial-imperialista por parte de países de desenvolvimento capitalista retardatário que buscavam alterar a partilha do mundo, reatualizando todos os métodos bárbaros do colonialismo-imperialista: terror sistêmico, extermínio em massa, campos de concentração, subjugação político-militar, estupros coletivos, destruição das economias locais etc., o projeto soviético chamava os povos das colônias, minorias nacionais oprimidas e o proletariado do mundo a quebraram suas correntes e construir um novo mundo sem exploração e opressão racial e nacional. Esse novo mundo não só era construído na prática na URSS, como o país e a III Internacional representavam um organizador ideológico e um apoiador prático (financeiro, militar, diplomático, logístico etc.) das diversas lutas de libertação do que veio a ser posteriormente chamado de Terceiro Mundo.

O pacto germano-soviético em seu contexto histórico.

A Revolução Russa ficou insulada. A revolução proletária europeia não aconteceu e para se consolidar o poder soviético teve que enfrentar uma violenta guerra civil organizada pelas forças internas da antiga classe dominante e por 14 potências reacionárias. Os anos vinte do século passado marcam não só a consolidação do poder soviético, vitorioso na guerra civil, mas a criação de um cordão de contenção antissocialista e crescentemente nazifascista. Desde a Itália fascista até a Inglaterra liberal era um consenso destruir a União Soviética como objetivo estratégico.

Segundo Domenico Losurdo (2010) diferentes personalidades políticas do Estado soviético, como Zinoviev, Radek e Kamanev (p. 136), estavam constantemente preocupados com ameaça perene de agressão. Essa ameaça só crescia. Em 1925 um golpe de estado na Polônia marca a subida de Pulsudki ao poder. O novo ditador rejeita a proposta de um tratado de paz proposto por Moscou em 1926 e não esconde de ninguém que deseja destruir a União Soviética (Losurdo, 2010, p. 136).

Ainda no ano de 1926, a Grã Bretanha (país que participou da coalizão de países que invadiram a Rússia durante a guerra civil) rompe relações comerciais e diplomáticas com a URSS e o marechal Ferdinand Foch, convida a França a fazer o mesmo; a embaixada da URSS é atacada em Pequim e em Varsóvia o embaixador soviético é assassinado.

Ainda nos anos 20, como é sabido, o fascismo ascende ao poder na Itália. Longe de haver qualquer retaliação das potências dominantes da Europa ou dos EUA, o fascismo é apoiado política e economicamente e os EUA tornam-se o segundo maior parceiro comercial da Itália de Mussolini [6]. É lógico que não é surpresa para ninguém que o fascismo italiano também tinha como objetivo estratégico destruir a experiência de transição socialista soviética. L. V. Mises, um dos grandes nomes do liberalismo à época, exprime-se assim sobre o fascismo:

Não pode ser negado que o Fascismo e movimentos similares que miram no estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções e que suas intervenções, no momento, salvaram a civilização européia. O mérito que o Fascismo ganhou por isso viverá eternamente na história. Mas apesar de sua política ter trazido salvação para o momento, não é do tipo que pode trazer sucesso contínuo. Fascismo é uma mudança de emergência. Ver como algo mais que isso, seria um erro fatal. (L. von Mises, Liberalism, 1985[1927], Cap. 1, p. 47) [7]

Essa constante intensificação do insulamento da União Soviética e a redução da influência política das seções nacionais da Internacional Comunista a partir de 1928 [8], com forte queda do número de militantes em várias seções, condicionaram, inclusive, a mudança de rumo da política interna da URSS no abandono da NEP rumo à planificação, industrialização acelerada e coletivização forçada do campo:

Num discurso pronunciado em 1931, Stálin lembrou que a Rússia "foi derrotada pelos beis turcos. Foi vencida pelos nobres poloneses e lituanos. Foi derrotada pelos capitalistas ingleses e franceses. Foi superada pelos barões japoneses. Todos a venceram – devido ao seu atraso... Estamos 50 ou 100 anos atrás dos países adiantados. Devemos superar essa distância em 10 anos. Ou fazemos isso ou eles nos esmagam" (Davis, 1978, p. 116). 

Enquanto a União Soviética crescia em média 16% ao ano com o sistema de planificação socialista e a propriedade pública dos meios de produção, a situação internacional ficava mais difícil. No começo dos anos 30, na Alemanha, o nazismo se consolida no poder. Assim como o fascismo na Itália, a postura das potências européias, longe de hostilidade, foi uma leve desconfiança logo superada, afinal, o nazismo rapidamente deixou explícito que seu principal objetivo também era destruir o socialismo soviético.

Em 1935 é assinado o acordo naval entre Grã-Bretanha e III Reich. A Alemanha tinha reintroduzido o alistamento obrigatório e sua indústria armamentista estava a todo vapor – descumprindo as regras impostas pelo tratado de Versalhes -, mas a Grã-Bretanha não cogitava tomar qualquer medida séria contra o projeto nazista. Na Conferência de Mônaco, o embaixador estadunidense na França, William C. Bullit, afirmava que era de suma importância “isolar o despotismo asiático” e salvar a “civilização europeia” de uma guerra fratricida (Losurdo, 2010, p. 190) – em poucas palavras: jogar o nazifascismo contra a União Soviética:

Norman Montagu, Governador do Banco de Inglaterra (que, sendo o banco central, foi também um banco privado até 1946), declarou numa conferência em Nova Iorque em 1934: «Hitler e Schacht [Presidente do Reichsbank e Ministro da Economia de Hitler – NA] são na Alemanha bastiões da civilização. São os únicos amigos que temos naquele país. Defendem o nosso tipo de ordem social contra o comunismo. Se eles fracassarem, os comunistas chegarão ao poder na Alemanha e, nesse caso, tudo será possível na Europa [10].

Losurdo (2010) sublinha que na Conferência de Mônaco a União Soviética foi o único país a desafiar o III Reich e apoiar o Governo de Praga (a Tchecoslováquia foi dominada pela Alemanha e a conferência referendou esse domínio) e colocou setenta divisões em estado de alerta (p. 191).  Losurdo sintetiza assim a questão:

Portanto, os agressores nazifascistas tinham devorado sucessivamente a Etiópia, a Espanha, a Tchecoslováquia, a Albânia e, na Ásia, a China, graças à cumplicidade direta ou à passividade das potenciais ocidentais, propensas a dirigir contra o país nascido da Revolução de Outubro as ulteriores ambições e olhares expansionistas do III Reich (Losurdo, 2010, p. 191).

A diplomacia soviética fazia de tudo para isolar o III Reich e o fascismo italiano. Os soviéticos entraram na Liga das Nações e procuraram fortalecer a organização e usá-la como um instrumento de isolado do nazifascismo (quando a URSS entrou na Liga das Nações, Leon Trotsky afirmou que isso era uma prova da política burguesa imperante na direção soviética, evidentemente, a geopolítica, como sempre, escapou aos olhos do grande ex-líder do Exército Vermelho), mas essa manobra não foi bem sucedida graças à ação da Grã-Bretanha e França – cumpre lembrar que na Guerra Civil Espanhola a URSS foi o único país que ajudou de verdade os combatentes antifascistas:

Durante anos, a URSS desenvolveu uma acção diplomática intensa, visando criar um sistema de segurança colectiva com acordos de não-agressão e defesa mútua entre o maior número possível de países. Em particular, procurou acordos deste tipo com as duas velhas potências capitalistas europeias, Inglaterra e França», as principais potências coloniais de então, e com a maior das potências capitalistas (EUA). Esta política da URSS baseava-se numa análise sobre os perigos do ascenso do fascismo para a paz mundial e para os povos e sobre as possibilidades resultantes das rivalidades existentes [10].

Mas a União Soviética tinha também que se preocupar com suas fronteiras orientais. O Japão também tinha um regime fascista com pretensões expansionistas neocoloniais. Ainda em junho de 1938, portanto antes de começar oficialmente a Segunda Guerra, tropas japonesas atacam a fronteira soviética numa batalha de grandes proporções (Medvedev, 2006, p. 323). As tropas japonesas mesmo repelidas causaram grandes perdas ao Exército Vermelho.

Antes de irmos ao próximo ponto, é necessária uma recapitulação. A União Soviética enfrentava um difícil processo de modernização socioeconômico orientado pela planificação socialista durante toda década de 20 e 30 e viu-se cercada, ameaçada e isolada na geopolítica mundial – a redução da influência da Internacional Comunista a partir de 1928, supracitada, deve ter sido assustadora aos dirigentes soviéticos. O cerco e as ameaças à União Soviética aumentaram ainda mais com a consolidação do nazifascismo na Itália, Alemanha e Japão. Não era segredo para ninguém que esses três países, em especial a Alemanha, tinham como principal objetivo político-estratégico destruir a pátria de Lênin.

As potências ocidentais comportavam-se de uma forma a jogar o nazifascismo contra a União Soviética. E isso não é passível de debates interpretativos. Dados como o fato dos EUA ser o segundo maior parceiro comercial da Itália fascista (o primeiro era a Alemanha nazista) ou a Inglaterra ter firmado um acordo de cooperação com o III Reich enquanto estava rompida com a União Soviética, evidenciam o que era gritante para a direção soviética: a Segunda Guerra Mundial seria uma frente única das potências liberais e nazifascista contra o socialismo soviético. Para terminar esse ponto, segue a visão de Churchill sobre o fascismo:

Churchill era um grande admirador de Mussolini, que chegara ao poder em Itália em 1922. Saudava quer o anticomunismo de Mussolini, quer a sua forma autoritária de organizar e disciplinar os italianos. Visitou a Itália em 1927 […] e encontrou-se com Mussolini, sobre quem proferiu rasgados elogios numa conferência de imprensa […]. ‘Se fosse italiano, estou seguro que estaria de todo o coração ao vosso lado, desde o início até ao fim, na vossa luta triunfante contra os apetites e paixões animalescas do Leninismo’. Durante os dez anos seguintes, Churchill continuou a elogiar Mussolini [10].

O pacto de não agressão e sua dimensão estratégica

A ideologia dominante afirmar que depois do Pacto de não agressão, o governo soviético teria se aliado complemente e sem quaisquer restrições com o nazismo alemão. Na realidade, Stálin, em diálogo com um dirigente da Letônia, afirma que “por seis anos, os fascistas alemães e comunistas se xingaram reciprocamente. Agora [...] verificou-se uma virada inesperada, mas não se pode basear nela. Devemos estar preparados a tempo” (Losurdo, 2010, p. 188). Stálin indica, de forma evidente, que sabe que o pacto de não agressão é temporário e a guerra cedo ou tarde virá.

Isaac Deutscher, historiador insuspeito de simpatia pela liderança soviética na época “stalinista”, afirma sobre a postura comunista durante o Pacto de não agressão:

Enquanto Stalin exprimia a Hitler a sua confiança numa conclusão rápida da guerra, os seus enviados diplomáticos e seus agentes no exterior favoreciam toda forma de resistência à ‘nova ordem’. Os jornais de Moscou, que até então não tinham poupado observações irônicas ou de desprezo aos aliados, começaram a assumir um tom de simpatia na avaliação da batalha da Inglaterra e a encorajar os patriotas franceses na luta contra a dominação nazista. Anteriormente, também, o ministro Exterior alemão se vira obrigado a protestar contra a propaganda antinazista desenvolvida pela senhora Kollontai, ministra da União Soviética na Suécia (Deutscher apud Losurdo, 2010, p. 194).

Dimitrov, o maior líder da Internacional Comunista, em diálogo com Molotov, um dos principais dirigentes do Estado soviético, afirma: “nós levamos adiante uma linha de desagregação das tropas de ocupação nos vários países e, sem alarde, queremos reforçar mais esse trabalho. Isso não perturbaria a política soviética? E Molotov responde: “naturalmente, é preciso fazer isso. Não seríamos comunistas se não seguíssemos uma linha assim. Só que se deve fazê-lo sem barulho” (Losurdo, 2010, p. 194). O que percebemos nesse diálogo é que os principais dirigentes políticos da URSS estavam plenamente cientes que o Pacto era um expediente tático para evitar o isolamento da URSS e a guerra em duas frentes, mas não significava, de forma alguma, abrir mão de combater o nazismo.

Como último exemplo sobre a questão, nos primeiros meses de 1941, Stálin recebe o embaixador da Iugoslávia em Moscou. Ambos conversam sobre a estratégia política de resistência do país à ocupação militar nazista e como a URSS pode ajudar. O embaixador iugoslavo surpreso com a audácia de Stálin pergunta o que ele fará se os alemães irritados com a colaboração voltarem-se contra o país, e Stálin responde “que venham” (Losurdo, 2010, p. 195).

Evidentemente que Hitler percebeu essa movimentação soviética. Já em novembro de 1939, o ditador alemão sabe que a URSS está usando o tempo conseguido pelo Pacto para fortalecer-se militarmente e que a qualquer momento o acordo será quebrado (Losurdo, 2010, p. 193). O Führer falando com um alto comissário da Sociedade das Nações em Danzig, diz:

Tudo o que empreendo é voltado para a Rússia, Se o Ocidente é demasiado estúpido e cego para entender isso, serei obrigado a chegar a um entendimento com os russos e a derrotar depois o Ocidente, de modo que após a sua derrota eu possa voltar-me contra a União Soviética com todas as forças por mim reunidas ( Nolte apud Losurdo, 2010, p. 193).

A mitologia política de Guerra Fria que afirma que existia uma atração ideológica e afetiva entre Hitler e Stálin e ambos mantinham uma relação de confiança não resiste a uma mínina análise histórica. Assim como algumas mitologias, em especial de pensadores trotskistas, que afirmam que com a assinatura do Pacto os comunistas soviéticos deixam de combater o nazismo.

Mas resta uma mentira mais forte e com maior repercussão: a história de que pela confiança em Hitler, Stálin não teria acreditado nos avisos do serviço secreto soviético sobre os planos de invasão da Alemanha e por isso foi surpreendido com o início da Operação Barbarossa. Essa confiança de Stálin em Hitler teria custado graves perdas ao Exército Vermelho e quase provocado a derrotada soviética. Está na hora de mostrarmos a falsidade dessa mitologia política.

Hitler aprovou o plano da guerra contra a URSS no dia 18 de dezembro de 1940. Em janeiro de 1941, Stálin já estava informado dos detalhes essenciais do plano, devido aos relatórios do serviço secreto soviético. Os soviéticos tinham um espião com importante cargo no Ministério da Economia alemã. Arvid Harnack, conhecido como o “Corso”, informou através de um telegrama datado de 24 de março de 1941 que os nazistas escolheram o mês de maio para a invasão porque “presumiram que as tropas soviéticas em retirada não teriam tempo de queimar os cereais ainda não amadurecidos” (Medvedev, 2006, p. 291).

Merkulov passou a informação a Stálin, Molotov, Beria e Timoshenko. Segundo os irmãos Medvedev não existe qualquer motivo para deduzir que a direção soviética duvidou da informação, em especial, considerando que outro espião de confiança, Richard Sorge, radicado em Tóquio, também a confirmou o relato. Stálin e seus comandantes tinham conhecimento da concentração de tropas alemãs ao longo da fronteira ocidental soviética (Medvedev, 2006, p. 291).

As dificuldades do fascismo italiano de conquistar a Grécia e o movimento popular ocorrido em 27 de março em Belgrado, levando ao poder um governo pró-soviético e o povo nas ruas gritando “três vivas a Stálin e Molotov” e “poder aos sovietes” (Medvedev, 2006, p.293) adiaram os planos nazistas. Para piorar a situação de Hitler, a URSS, em jogada diplomática brilhante, assina um pacto de não agressão com o Japão (abril de 1941) procurando garantir evitar uma guerra em duas frentes.

Enquanto os nazistas tentaram conquistar definitivamente a Iugoslávia e a Grécia, como forma de garantir a operação contra a URSS, o país soviético aumentava sua capacidade militar. Os irmãos Medvedev afirmam que a indústria militar nazista não aumentava sua capacidade militar desde 1939 e já havia diminuído na altura de 1941; enquanto isso, a produção industrial soviética crescia em ritmos constantes e a pátria de Lênin já tinha mais tanques e aviões que a Alemanha nazista (cerca de 10.000 tanques e 8.000 aviões soviéticos) (Idem, p. 297).

Na operação Barbarossa, os nazistas esperavam destruir as indústrias de Moscou, Leningrado e Kharkov. A estratégia era bem simples: através de uma blitzkrieg gigantesca esperava-se aniquilar em poucos meses a indústria soviética, o grosso das forças armadas e conquistar as principais capitais, tudo isso em uma grande e decisiva batalha. A direção soviética, e Stálin em especial, tinha consciência desses planos. Quando a Alemanha subjugou a Grécia e a Iugoslávia, membros da cúpula militar alemã foram convidados a visitar os Urais e à Sibéria Ocidental. Aos alemães foi apresentado o tanque T-34, um modelo soviético superior a qualquer tanque alemão. A estratégia era evidente: assustar os nazistas e tentar convencê-los a adiar a guerra e ganhar mais tempo. Enquanto isso:

Em contraste frontal com o Estado-maior e os comandantes do Exército Vermelho, que se concentravam na situação da fronteira, o empenho de Stálin estava todo voltado para os acontecimentos do cenário internacional, recorrendo a todos os meios à sua disposição para evitar a guerra. Era evidente, na época, que Hitler e o Estado-maior alemão subestimavam gravemente o real poderio e o potencial estratégico da União Soviética (Medvedev, 2006, p. 300).

Em 5 de março de 1941 acontece algo incomum: Stálin vai discursar para formandos da Academia Militar soviética. Com 1.500 pessoas convidadas e reunidas no salão do Kremlin, Stálin realiza um discurso invulgar: cita informações sobre o número de divisões soviéticas e o poderio militar do país e critica abertamente e de forma dura a política de Hitler. O discurso, supostamente seria secreto, contudo, é evidente que não há como manter secreto um discurso para 1.500 pessoas. Os irmãos Medvedev afirmam que o discurso de Stálin disseminou informações falsas e sobrevalorizadas sobre o poder do Exército Vermelho. O jogo de gato e rato é bem claro: os nazistas se preparando para invadir a URSS e a direção soviética reforçando seu poder militar e espalhando desinformação para confundir o Estado-maior alemão.

Em 15 de junho de 1941 está quase tudo pronto para o início da invasão alemã. O alto-comando do Exército Vermelho insiste sobre a necessidade de aumentar o número de divisões nas fronteiras, mas Stálin discorda. O Marechal Jukov achava que o pequeno número de divisões soviéticas nas fronteiras garantiria uma vitória fácil dos nazistas, perdendo de vista a estratégia alemã do grande blitzkrieg. Anos depois, contudo, o militar em suas memórias reavalia sua posição:

É comum criticar Stálin por não ter transferido as principais forças de nosso exército do interior do país a tempo de enfrentar e repelir o ataque inimigo. Hesito em ser dogmático sobre o que poderia ter acontecido se ele o tivesse feito – se o resultado teria sido melhor ou pior. Certamente é possível que nosso exército, com defesas antiaéreas e antitanques inadequadas e menor mobilidade que as forças do inimigo, não tivesse sido capaz de fazer frente aos vigorosos e potentes golpes de força blindada do ataque inimigo, vendo-se exatamente na mesma situação calamitosa que as forças que efetivamente estavam nos distritos de fronteira nos primeiros dias da guerra. E nesse caos, quem sabe qual poderia ter sido o resultado para Moscou, Leningrado ou o sul do país? (Medvedev, 2006, p. 308).

Os irmãos Medvedev citam que o Marechal Jukov, antes de escrever suas memórias, teve acesso aos planos estratégicos da Operação Barbarossa. A partir desses documentos o militar pode rever seus erros, mas no calor dos acontecimentos, do pré-guerra, Stálin e seus colaboradores mais íntimos, como Dimitrov, acertaram mesmo sem ter acessos a esses documentos. A crença na ideia de que Stálin não teria acreditado nos relatórios da inteligência soviética e por isso o país teria sofrido muito no início da guerra é totalmente falsa. Senão vejamos.

Sabemos que a estratégia alemã era criar um grande blitzkrieg para dizimar de um golpe só o poderio militar soviético. A partir disso os alemães usaram estratégias de provocação para atrair divisões soviéticas para as fronteiras e usaram de contra-informação falsa sobre o nível de preparativos e o dia da inevitável invasão nazista. Os irmãos Medvedev citam o informe de que o Comissário de Segurança do Estado, Vsevolod Merkulov, em 17 de junho, relatou através de informes vindo de agentes secretos que as operações militares contra a pátria soviética estavam para começar. Stálin assim responde o informe de Merkulov: “Camarada Merkulov, pode dizer à sua ‘fonte’ no quartel-general da aeronáutica alemã que vá fuder a mãe. Não trata de uma ‘fonte’, mas de alguém espalhando desinformação” (Medvedev, 2006, p. 311).

A partir desse episódio é que muitos historiadores cultivam a mentira sobre a confiança total de Stálin em Hitler e do desprezo pelas informações do serviço secreto soviético; contudo, irmãos Medvedev avaliam o episódio da seguinte forma:

Há motivos para crer que nesse caso Stálin estava com a razão [...] Ao longo de junto de 1941, Stálin recebia dezenas de relatórios de agentes da inteligência militar com informações precisas e detalhadas, podendo facilmente distinguir entre as mensagens autênticas e as tentativas de desinformação. Nesse período, os serviços soviéticos de inteligência contavam com muitos agentes dignos de confiança na Alemanha e em outros países, sendo seus relatórios levados muito a sério por Stálin (Medvedev, 2006, p. 312).

Quando a invasão da barbárie nazista começou, a totalidade da direção política e militar soviética estavam bem informadas de tudo, as tropas na fronteira em mobilização permanente e mesmo com o grande poderio nazista foi possíveis pequenas vitórias, como salvar a vida dos pilotos mais experientes nas regiões fronteiriças. Mas por que inicialmente os nazistas tiveram um sucesso tão esmagador? A questão, no fundo, é mais evidente do que parece:

O ataque lançado pela Wehrmacht a 22 de Junho de 1941 foi a maior operação militar de que há registo histórico» e «nunca, nem antes, nem depois, uma batalha foi travada com tanta ferocidade por tantos homens, numa frente de batalha tão extensa». É impossível escamotear o facto histórico de que a grande maioria das forças armadas nazi-fascistas estava concentrada na Frente Leste, e que a sua derrota determinou a derrota final do nazismo em 1945. «Ao longo do ano 1942 o Exército Soviético combatia contra 98% do Exército Alemão operacional – 178 divisões concentradas na frente leste – enquanto que os britânicos combatiam contra quatro no Norte de África» [11]

A invasão nazista à União Soviética foi o maior ataque militar da história da humanidade! Seria no mínimo curioso alguém pressupor que era possível resistir a esse ataque sem grandes perdas e até vitórias significativas dos nazistas. Além disso, os irmãos Medvedev relatam um erro estratégico de Stálin e dos comandantes militares: pressupor de que o centro inicial do ataque alemão seria a Ucrânia e o norte do Cáucaso (por causa das riquezas naturais da região) e não Moscou e Leningrado (Mevedev, 2006, p.321). Esse erro estratégico, porém, não colocou a guerra a perder, como podemos constatar retrospectivamente.

A suposta depressão de Stálin ao inicio da guerra.


Capa de uma revista que repete a lenda
da confiança de Stálin em Hitler.
Uma das maiores lendas políticas da Segunda Guerra mundial é a estória de que Stálin teria entrado em depressão ao início da guerra porque Hitler teria quebrado sua confiança e ele falhado como principal liderança do Estado soviético – considerando as primeiras vitórias nazistas. Essa lenda foi criada por Nikita Kruschev na disputa pelo poder dentro do PCUS no pós-morte de Stálin. Kruschev disputava com Beria a condução do poder e como este se apresentava como sucessor direto e legítimo de Stálin, àquele viu como parte indispensável da sua luta pelo poder a destruição da imagem do georgiano. O XX Congresso do PCUS, quando Kruschev denuncia os “crimes de Stálin”, inaugura a era do “culto a personalidade em negativo” onde toda mentira sobre Stálin e seu governo passava a ser aceitável.

A mentira de Kruschev é repetida até hoje como uma verdade incontestável. Já vimos que a história da confiança de Stálin em Hitler era falsa assim como a lenda da ignorância soviética dos planos nazistas e da surpresa com a invasão alemã; logo, por tabela, a história da depressão de Stálin cai por terra a partir de uma dedução lógica, mas nem sempre a história segue a lógica formal e faz-se necessário derrubar esse argumento em seu âmago.

Os irmãos Medvedev afirmam que Kruschev ao início da guerra estava em Kiev e simplesmente não teria como ter informações sobre o que se passava no alto comando soviético (2006, p. 317), além disso, as memórias do Marechal Jukov contêm vários documentos sobre as atividades, ordens e diretrizes de Stálin nos primeiros dias da guerra, provando que a história é totalmente falsa (p. 318).

Os Medvedev trazem dados que demonstram que no dia em que Stálin estaria em depressão e recluso, segundo a lenda de Kruschev, ele emitiu vinte decretos e ordens e trabalhou praticamente às 24 horas do dia tendo reuniões periódicas com todas as lideranças políticas e militares da URSS (2006, p. 319). A dedicação do supostamente depressivo Stálin era tão grande (aliada à característica centralização decisória soviética) que ele, segundo episódio narrado por Losurdo (2010, p. 34), liga para Akaki Ngekadeze, chefe do partido na Abcásia, reclamando da baixa produção de cigarros e afirmando que sem o produto a frente não funciona... “Os soldados precisavam fumar” – é difícil compatibilizar a lenda de um homem em depressão e atônico com a realidade de alguém que trabalhava quase 24 horas por dia e se preocupa com todos os detalhes do fronte.

Ainda segundo Kruschev, Stálin não entendia absolutamente nada de estratégia militar e traçava seus planos militares em um globo escolar. Essa imagem de Stálin usada por Kruschev ganhou tanta notoriedade que até no filme sobre Stálin lançado pela BBC [12] ela aparece como verdade inquestionável – o filme se pretende como baseado em fatos reais. Bem, já podemos demonstrar que no conjunto, Stálin tinha uma visão política da guerra melhor que seus generais e acertou, por assim dizer, no atacado, embora tenha errado algumas vezes no varejo. Numa análise de síntese, os irmãos Medvedev – declarados anticomunistas, nunca é demais lembrar – afirmam que:

Examinando retrospectivamente todos os atos de Stálin e as decisões militares nos primeiros dias da guerra, é perfeitamente possível chegar à conclusão de que, dada a intensidade e a força do golpe infligindo à URSS pelo exército alemão e seus aliados, cujas forças em conjunto chegavam a quase 200 divisões, a decisão tática de manter as principais forças do exército soviético a uma distância de 200 a 300 quilômetros da fronteira foi absolutamente correta. Foi isto que possibilitou promover contra-ataques locais e, a 26 de junho, por ordem de Stálin, criar uma nova frente de reserva utilizando o 5° Exército. Logo depois seria criada uma terceira linha de defesa. O exército alemão continuou avançando, mas ao preço de pesadas perdas (Medvedev, 2006, p. 321).

Conclusão

Como sabemos foi a Alemanha que procurou a União Soviética para firmar o Pacto de não agressão. A assinatura do Pacto teve grandes consequências políticas negativas, abalando profundamente as fileiras do movimento comunista. Mas ele foi justificado? Como vimos existia um explícito movimento das potências liberal-imperialistas e nazifascistas para formar uma frente única contra o Estado soviético. A França e a Inglaterra, as principais potenciais liberal-imperialistas, deram todos os sinais imagináveis de que não estavam dispostos a confrontar o nazifascismo.

A prova maior disso é que ao inicio da guerra a Inglaterra e a França, de forma não surpreendente, esboçaram uma resistência ridícula. A França chegou ao fundo do poço da vergonha colaboracionista com os nazistas: a classe dominante do país decidiu não lutar, entregou-se aos nazistas, não forjou uma resistência digna – o crescimento do Partido Comunista da França no imediato pós-1935, fruto da nova estratégia da Terceira Internacional depois da “virada Dimitrov”, parecia mais assustador a classe dominante que a barbárie nazista.

Mesmo com o início da Segunda Guerra a classe dominante dos países liberal-imperialistas nunca deixou de jogar o nazismo contra a União Soviética. O livro do Laurence Ress, comentando no início do texto, traz depoimentos de ex-militares soviéticos que serviram durante a guerra e que têm certeza que: a Inglaterra e os EUA não abriram a segunda frente, dividindo o poderio militar nazista quase todo concentrado na URSS, porque esperavam que a Alemanha destruísse ao máximo a pátria de Lênin. Quando a URSS conseguiu conter e repelir os nazistas e avançou rumo à Europa Ocidental é que as potências imperialistas criaram uma segunda frente com e único e exclusivo objetivo: garantir a dominação burguesa nos países da Europa Ocidental. O Desembarque na Normandia, o famoso dia D, não marca a vitória sobre os nazistas, ao contrário, é um símbolo do êxito da contrarrevolução frente ao Exército Vermelho em marcha triunfal.

O Pacto de Não agressão forçou a Inglaterra e a França a entrarem na guerra contra a Alemanha e possibilitou que a União Soviética tivesse tempo hábil para: a) aumentar o seu poderio militar; b) preparasse melhor as Forças Armadas formando mais oficiais; c) criasse uma estratégia de transferência de fábricas e quartéis para regiões afastadas do fronte; d) possibilitou que a totalidade da máquina de guerra Alemã não fosse direcionada apenas contra a URSS, embora, como sabemos, a URSS tenha a suportado o maior fardo da guerra.

Os irmãos Medvedev consideram que o Pacto de Não Agressão foi uma medida tática acertada e indispensável para a vitória soviética na Grande Guerra (2006, p. 310). Os argumentos e os fatos apresentados nos levam a crer que essa análise está correta, mesmo sendo difícil fazer futurologia, isto é, imaginar o que teria acontecido sem o Pacto, fica claro que nos seus objetivos imediatos a direção soviética acertou o máximo que pode dentro das possibilidades concretas.

Não passa de puro e simples apagamento da história a versão dominante sobre a Guerra. Apagamento da história fundamentado em ideologia anticomunista. A Segunda Guerra Mundial foi o maior confronto de classe do século XX e nessa grande batalha o primeiro país de transição socialista, mesmo com todas as consequências negativas, foi o grande vencedor mostrando a superioridade de sua base econômica, exército, direção política e povo.


Notas

[1] – https://www.marxists.org/portugues/lenin/1908/04/16.htm
[2] – http://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=554:lenin-e-a-revolucao-entrevista-de-jean-salem-ao-avante&catid=5:entrevistas-com-a-historia
[3] – http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/02/gulagsovietico-uma-analise-historica.html
[4] – http://pcb.org.br/portal/docs/oimperialismo.pdf
[5] – Um exemplo da “Solução final” no Canadá: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1669
[6] – Informes disponíveis nesse livro, infelizmente não encontrado em PDF: http://livraria.folha.com.br/livros/noam-chomsky/rumo-nova-guerra-fria-noam-chomsky-1011498.html
[7] – http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/01/fascismo-brasileira.html
[8] – Conferir dados no artigo de Lincoln Secco “O comunismo histórico: algumas notas” na Revista Novos Rumos, ano 20, n° 43.
[9] – http://pcb.org.br/portal2/8195
[10] – http://pcb.org.br/portal2/8195
[12] – https://www.youtube.com/watch?v=DhEB57wOt6g


Bibliografia

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Andrade, Mário Pinto. Origens do nacionalismo africano. Publicações Dom Quixote Lisboa, 1990
Stálin, Josef. Fundamentos do Leninismo. Global Editora. 1980.
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Zhores e Roy A. Medvedev. Um Stálin desconhecido – novas revelações dos arquivos soviéticos. Editora Record. 2006.