sexta-feira, 7 de abril de 2017

A greve geral como desafio político – parte II

No primeiro texto dessa série, eu defini a greve geral como “um processo radicalizado na luta entre capital e trabalho, quando a classe trabalhadora consegue paralisar completamente ou substancialmente o processo de acumulação de capital por um período significativo e romper, ainda que temporariamente, com a normalidade do cotidiano”. Se essa definição está correta – e creio que mesmo com traços esquemáticos, algo inevitável em um texto curto e escrito para amplo público, ela está correta – é fundamental para a construção de uma greve geral vitoriosa um clima político-ideológico de radicalização dos trabalhadores contra aspectos da ordem dominante.

Não quero dizer com isso que para conseguirmos construir uma greve geral é necessário que a maioria dos trabalhadores sejam marxistas-leninistas. Essa não é a questão. Trabalho com a perspectiva de que a noção da existência de níveis de compreensão variado de antagonismo entre as classes (que pode se expressar na luta contra o aumento do custo de vida ou em defesa do Estado de bem-estar social, por exemplo) é fundamental, afinal, a greve geral, diferente de um protesto de rua na frente de um palácio de governo, é essencialmente contra o patrão, o inimigo imediato, e reivindicando uma pauta onde, na aparência, o patrão não tem influência direta.

A greve geral contra a guerra de classe operada pelo Governo Temer não é por salário ou melhores condições de trabalho na realidade imediata de cada categoria (embora, é claro, nos processos de mobilização real as pautas locais apareçam como fator importante), mas essencialmente contra um Governo e um projeto político. Atacando o capital a partir da paralisação, é esperado que a classe dominante, para findar a greve geral, pressione seu governo ou, no limite, o abandone, criando a situação de um projeto político sem base social: atacado pelos trabalhadores e abandonado pelas diversas frações da classe dominante.

Logo, a impopularidade de um governo não é suficiente para construir uma real greve geral e uma escalada de radicalização das lutas. É necessário politizar mais e mais as mobilizações em sentido classista, instigar a percepção do antagonismo irreconciliável de interesses entre trabalhadores e a classe dominante, e mostrar Temer não apenas como um “governo ruim” ou “corrupto”, mas, fundamentalmente, como um Governo dos empresários, banqueiros, latifundiários, grandes comerciantes etc. Como fazer isso na prática? Vamos pegar o exemplo das mobilizações do dia 31 de março em Recife.

O ato foi construído de forma mais ou menos conjunta pela Frente Povo sem Medo, Brasil Popular e as centrais sindicais. Essa unidade, durante o ato, se transformou numa encarniçada disputa pela direção política do protesto. As forças da Brasil Popular, especialmente PT/CUT e PCdoB/CTB, focaram sua agitação e propaganda em “Fora Temer”, “golpe/golpista”, “Lula guerreiro do povo brasileiro”, “diretas já” e falas opositoras à contrarreforma da previdência. Já as forças da Povo Sem Medo, especialmente PCB/UJC e MTST, tinham como foco o “poder popular”, “organização dos trabalhadores”, “importância da luta de massa na garantia dos direitos”, construção de uma greve geral forte e combativa e de uma intensa jornada de lutas” e falas contra a morte da previdência que procuravam [de forma didática] denunciar o caráter de classe do Estado e do projeto político operado por Temer.

A despeito de ser lindo e emocionante ver milhares de pessoas gritando “lutar, criar, poder popular” ou “não tem conciliação: a saída é pela esquerda e eu não vejo com patrão”, a questão é que as diferenças nas palavras de ordem e falas nos carros de som expressam algo mais profundo: uma aposta na mobilização e organização da classe como principal mediação tática para alterar a correlação de forças e a perspectiva de fomentar uma consciência revolucionária (não que isso seja fácil ou esteja perto); e outra que compreende a política como começando e terminando na esfera eleitoral e o momento político atual como de retrocessos porque o governo é golpista, isto é, não democrático.

O paradoxo de fundo é que a primeira perspectiva é a necessária e a correta, mas é a que tem menos apelo popular, a segunda é equivocada e mobiliza os trabalhadores desmobilizando-os – ou seja, não fortalecendo sua identidade de classe e crença na sua organização como principal arma -, mas tem maior apelo popular. Hoje, a maioria dos trabalhadores, não acredita na possibilidade histórica de influir na política e transformar questões básicas do seu cotidiano, como o funcionamento do transporte.

As causas disso, dentre outras, devem ser buscadas nos efeitos dos anos de conciliação de classe e apassivamento realizados pelo PT e seus satélites. Recentemente, a Fundação Perseu Abramo, braço acadêmico do petismo, divulgou uma pesquisa sobre o imaginário político e cultural de trabalhadores da periferia paulista. A pesquisa é de tipo qualitativo. Seu objetivo não é afirmar que a maioria da periferia paulista pensa toda daquela forma, mas identificar tipos-médios - quase tipos ideais  weberianos - dentro de determinados estratos de renda, idade e gênero. Considerando as várias conclusões importantes da pesquisa, uma é fundamental para embasar nossa argumentação: a classe trabalhadora está com seus vínculos de solidariedade coletiva extremamente enfraquecidos, não se reconhece enquanto classe, não vê nos empresários [burgueses] uma relação de antagonismo e identifica no Estado, que cobra excessivos impostos e atrapalha o empreendedorismo com sua burocracia, o principal inimigo, tanto de trabalhadores, quanto de empresários.

É certo, porém, que existe uma maior politização da juventude trabalhadora e das camadas médias e dos trabalhadores, e essa maior politização está vindo acompanhada de experiências interessantes, mas ainda moleculares, de radicalismo político e teórico. Contudo, majoritariamente, a nossa classe trabalhadora, ou está desmobilizada, atua politicamente de forma espontaneísta e sem projeto (como nos diários protestos em metrôs e terminais de ônibus contra a qualidade do transporte), ou tem um horizonte político preso à institucionalidade.

Construir uma greve geral e uma mudança na correlação de forças na atual conjuntura passa, necessariamente, por fortalecer a consciência classista e combativa de nossa classe, buscando explicitar os antagonismos de classe e combater o Governo Temer mostrando ao mesmo tempo que a raiz do problema não é figura-Temer (com o “Fora Temer”, mas para além dele), mas sim o fato dele ser um operador político dos industriais, banqueiros, latifundiários, monopólios imperialistas etc. Nesse sentido, as forças políticas que apostam na institucionalidade como centro de sua ação política e uma nova rodada de conciliação entre capital e trabalho não só não buscam o socialismo como horizonte estratégico, mas, na prática, atrasam a construção da greve geral e a derrota do atual Governo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI SUA OPINIÃO!
responderei.