terça-feira, 16 de maio de 2017

Qual é a diferença entre um revolucionário e um reformista?

Normalmente, em debates pouco qualificados, costuma-se a dizer que a diferença de um revolucionário para um reformista é que o primeiro só quer saber da revolução e não liga para conquistas parciais, e o segundo, mais realista, quer pequenas mudanças no aqui e no agora. Na maioria das vezes, então, o revolucionário é um utópico (ou sonhador) e o reformista, um realista, alguém que faz o “possível” nesse momento. Alguns autodeclarados comunistas, normalmente jovens que conhecem o marxismo apenas por leituras e não estão inseridos no movimento de massa, reforçam essa ideia contrapondo a política do dia a dia com citações e frases sobre a revolução e a derrubada do poder burguês.

Essa noção é falsa sobre diversos aspectos. O objetivo de mais esse texto da nossa coluna “dúvidas básicas” é mostrar qual é a real diferença entre os revolucionários e os reformistas na luta política. A primeira coisa a ser dita é que, de um ponto de vista histórico, os poucos direitos econômicos, sociais e políticos da classe trabalhadora no capitalismo, são conquistas arrancadas  pelas forças comunistas (isto é, revolucionárias). Limite da jornada de trabalho, férias remuneradas, licença maternidade, salário mínimo, proibição do trabalho infantil, direitos trabalhistas no campo, criação de empresas públicas para gerir as riquezas nacionais (como a Petrobras no Brasil), reforma agrária, direito ao voto, montar partidos e organizar sindicatos etc. são conquistas impostas à burguesia pelos trabalhadores no período histórico em que as forças comunistas eram hegemônicas ou muito fortes.

No Brasil, por exemplo, é impossível falar da história da criação do SUS, das escolas públicas ou da instituição de direitos trabalhistas no campo sem falar da atuação dos comunistas organizados no PCB. Justamente por isso, no período histórico em que os partidos comunistas passaram a perder força e o movimento comunista mundial entrou em crise (de 1970 até hoje), vivemos uma longa época de retirada de direitos. Ainda podemos destacar que não só historicamente, como até hoje, os revolucionários são os mais comprometidos com os direitos da classe trabalhadora, afinal, é da natureza das organizações reformistas fazerem acordos com a elite, a burguesia, e esses acordos pressupõem sempre ataques aos nossos direitos – exemplo disso é a privatização dos hospitais universitários através da EBSERH, aprovada no governo Dilma, quando PT, PCdoB, UJS etc. não fizeram oposição a esse ataque e na linha de frente contra a EBSERH, na defesa dos hospitais universitários públicos, estava a esquerda revolucionária.

Então, essa noção de que os revolucionários não lutam pelas conquistas parciais, nos combates do dia a dia, esperando o grande dia da revolução, é totalmente falsa. Mas, então, o que diferencia um revolucionário de um reformista na política? A forma de luta e o sentido dado a ela. Um revolucionário compreende a luta por direitos como um elemento indispensável de mobilização da classe trabalhadora: os trabalhadores se movimentam por coisas mais palpáveis, como salário e moradia, e não pelo fim do sociometabolismo do capital. Lênin, de maneira muito acertada, colocou que o papel dos comunistas é organizar a classe trabalhadora para essas lutas imediatas e, nessas lutas, buscar elevar o nível de consciência, organização e radicalidade da classe trabalhadora. O que significa isso?

Na luta por moradia, por exemplo, buscar mostrar a relação entre propriedade privada e falta de moradia para os trabalhadores, colocar como o Estado serve aos interesses dos grandes proprietários, apontar como a imprensa protege os interesses das construtoras etc. Na luta imediata, mostrar que essa luta, para ser vitoriosa definitivamente, deve superar a si mesma: começamos lutando por moradia para a partir disso ganhar os sem-teto para a luta contra a burguesia e o Estado burguês. Rosa Luxemburgo afirmava que a luta política tem um caráter pedagógico e que na luta – com independência de classe e com foco na auto-organização dos trabalhadores – os proletários passam a compreender as contradições do capitalismo melhor.

Enquanto os reformistas mostram as “conquistas” parciais como um benefício de algum governo ou deputado e colocam como se ela bastasse em si mesma, os revolucionários sempre destacam que a luta por direitos é importante, mas por se só insuficientes, e que só com os trabalhadores cada vez mais mobilizados e radicais é que podemos arrancar essas conquistas. Essa concepção de luta por direitos, ou reformas, coloca a primazia na luta de massa, nas ações da própria classe, e não na esfera institucional.

Os reformistas adoram, por exemplo, audiências públicas, pressão em deputados, pedir algo a um prefeito ou vereador etc. A greve, o protesto, o trancamento de rua, o debate público na praça não é algo que lhes agrada muito. Podemos usar um exemplo atual. Enquanto a esquerda revolucionária defende que para barrar os ataques da burguesia operados pelo Governo Temer temos que puxar uma nova greve geral agora de dois dias, a esquerda reformista, liderada pelo PT e PCdoB, preferiram uma semana de “pressão parlamentar” e uma marcha para Brasília (sem perspectiva, é claro, de tentar ocupar o congresso). Note, um segmento na esquerda aposta na luta de massa, na ação própria de nossa classe, outra prefere buscar acertos na institucionalidade.

Como a esquerda reformista não busca superar o capitalismo, sua esfera privilegiada de ação será sempre a institucionalidade: ela vive e sobrevive para as eleições. Não que a esquerda revolucionária não atue também na institucionalidade e não dispute a eleição; a grande diferença é que esse não é e nunca deve ser o nosso foco: o foco é organizar a classe, elevar seu nível de consciência e radicalidade. Ganhar um sindicato ou consegui realizar uma ocupação urbana vitoriosa é infinitamente mais importante que eleger um vereador – receber dinheiro de empresas, fazer aliança com partidos de direita, rebaixar o programa na época da eleição etc. são apenas consequências da escolha política reformista.


Portanto, a diferença entre um revolucionário e um reformista está na teoria e na prática. No sentido que damos às reformas e na forma de luta por elas. E, historicamente, fomos nós, os revolucionários, e não os reformistas, os que conseguiram os maiores ganhos parciais para a nossa classe. 

Um comentário:

  1. É por isso que o PCBosta apoiou o pelegaço Freixo com suas propostas "socializantes" né? Kkkkkkkk

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